O Homem de Aço

“O Homem de Aço” – “The Man of Steel” Estados Unidos,2013

Direção: Zack Snyder

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Superman, o mais “sexy” dos personagens de quadrinhos (e também o mais velho dos super-herois, criado em 1938 por Joe Shuster e Jerry Siegel) volta às telas de cinema em 3D, num filme que é uma maratona, também para o espectador. Explico. Talvez você fique atordoado com as cenas de batalha entre o exército americano, com seus aviões e helicópteros e os guerreiros do planeta Krypton e suas naves/polvo.

Os seus ouvidos vão registrar o barulho de prédios caindo por cima das pessoas, num cenário inspirado nas imagens de um 9/11 de maior alcance ainda, tudo embaçado pela fumaça e o rugir de rasantes de helicópteros e quedas de detritos de toda a espécie.

Mais ainda, vão ver um espetacular duelo final entre dois super-homens, um balé destruidor e mortal.

É um filme trepidante de ação e guerra. O furor e a raiva tem destaque como forças motivadoras, lado a lado com a confiança e a gratidão.

Todo mundo se lembra de Marlon Brando como o pai do bebê que viria a ser o Superman. Foram cenas emocionantes do filme de Richard Donner de 1978. Agora é Russell Crowe que assume esse papel e o filme demora-se mais no planeta Krypton, fadado à destruição.

Alí, o processo de procriação foi dominado por cientistas que programaram os novos kryptonianos, que não nascem de um pai e uma mãe mas são frutos de árvores de luz num imenso útero artificial. Além da destruição total da natureza no planeta, seus habitantes são desprovidos da criatividade que outrora os levaram a povoar novos mundos que os abrigariam quando o planeta explodisse, destino certo.

É então que Jor-El (Russell Crowe) e Lady Lara resolvem procriar como se fazia antigamente no planeta deles e o menino Kal- El nasce. Ele não é um ser programado mas espontâneo. Vai ser enviado à Terra, como último representante de seu planeta, com a missão de guiar os terráqueos para um destino melhor.

Adotado por Jonathan Kent (Kevin Kostner) e Diane Lane que faz a mãe, o menino Clark Kent é ensinado a focalizar sua atenção para que possa usar de seus super poderes com objetividade.

É muito importante o papel dos pais adotivos nessa versão porque humanizam o garoto, o que é a base para sua empatia com os seres humanos.

E é em Smallville, lugar de sua casa e onde foi criado, que o nosso super-heroi vai se tornar o Superman, com características de personalidade muito diferentes do grande vilão Zod (Michael Shannon), que escapou da destruição do planeta Krypton porque estava exilado mas é obcecado em eliminar a humanidade da Terra para criar aqui um novo Krypton.

Propositalmente, o diretor Zack Snyder criou um Superman diferente de todos os outros. Sua roupa adere ao corpo musculoso e ágil, a capa vermelha tem um jeito de manto real, o famoso “S” está recriado e os acordes tão conhecidos, que sempre o acompanhavam, também não são os mesmos.

E Henry Carvill (da série da TV “Os Tudor”) que personifica o novo Superman, é alto, moreno, um corpo malhado e bem proporcionado, olhos azuis intensos e é bonito, muito bonito. Movimenta-se como um felino e voa como um míssil.

Até Lois Lane (Amy Adams) mudou bastante. É agora uma jornalista mais intrépida e uma mulher super sedutora que não tem medo de nada e olha o Superman de igual para igual, com muito desejo.

Produzido pelo famoso Christopher Nolan (o diretor de Batman) e com roteiro de David S. Goyer (também de todos os Batman), o filme tem trilha sonora de Hans Zimmer, criativa e surpreendente e fotografia de Amir Mokri, que acompanha o personagem, realçando os tons escuros de Krypton e as tonalidades solares da Terra.

Se você é fã, vai gostar de ver algumas cenas que lembram os outros filmes desse super-heroi, pai de todos os outros.

Se você não é, arrisque. Você pode gostar do que vai ver.

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Tabu

“Tabu”- Idem, Portugal/ Brasil/ Alemanha/ França, 2012

Direção: Miguel Gomes

A África sempre se prestou a metáforas interessantes.

A sexualidade feminina, que  desafiava Freud a um difícil entendimento, ele chamou de “Continente Negro”.

Miguel Gomes, o diretor de “Tabu”, parece também partilhar dessa ideia da África simbolizando o lugar de sexo proibido, liberado por uma pressão extrema frente ao selvagem, ao primitivo e assustador. Na África de “Tabu”, o homem branco colonizador é seduzido pelo mistério de suas profundezas inexploradas, num cenário que o impele a experimentar o proibido.

O amor de perdição, tema tão caro a um dos grandes escritores portugueses, Camilo Castello Branco, titulo do livro de 1862, também inspira Miguel Gomes.

Em “Tabu”, há um prólogo que introduz o assunto, o amor perdido que impele à morte, na figura do português desconsolado que vai para a África para esquecer a mulher morta mas é arrastado para o rio onde espreita a única saída para o esquecimento.

O crocodilo, comedor de homens, animal fetiche, é quem o leva a seu fim.

A primeira parte de “Tabu”, “Paraiso Perdido”, passa-se em Lisboa, onde três mulheres solitárias entrelaçam suas histórias tristes.

Pilar (Teresa Madruga), de meia idade, sozinha no cinema, olha para nós, que somos a sua tela. Quantas vidas assistindo outras vidas, que servirão para nos lembrarmos de nós mesmos.

As outras duas mulheres são Santa, negra africana, que serve de companhia à dona Aurora, uma elegante senhora no fim de seus dias (Laura Soveral).

Ela sonha com macacos que se transformam em homens e tudo é uma desculpa para ela esquecer nas mesas do Cassino do Estoril, aquele amor que vive na África, aos pés do Monte Tabu, na fazenda de seu marido.

Estamos já na segunda parte do filme, “Paraiso”, onde novamente aparece o animal fetiche de Miguel Gomes, o crocodilo, brinquedo perigoso que Aurora (Ana Moreira), recém-casada, ganha do marido (o brasileiro

Ivo Muller).

No sopé do monte imaginário, cercado pela neblina onde os nativos enxergam demônios, a jovem, guiada pelo crocodilo, se deixa envolver pelo amor de Ventura (Carlotto Cota) que a fará viver dias de paraíso e inferno.

O preto e branco, a narrativa em “off” do amor proibido, as cartas trocadas entre os amantes, os diálogos que não ouvimos porque aqui o filme é mudo, só sendo ouvidos os sons da natureza, o vento, o coaxar dos sapos, o murmurar das águas, os grilos na noite e o rock dos anos 50, remetem o espectador ao seu próprio passado.

Miguel Gomes homenageia com seu filme, um grande diretor alemão do passado, F.W. Murnau, que fez “Tabu” em 1931 e “Aurora” em 1927.

“Tabu” de Miguel Gomes foi considerado pela revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia do cinema, como um dos 10 melhores filmes de 2012.

“Tabu” é um momento diferente do cinema a que estamos habituados mas prova que o amor ainda é e sempre será um tema que a todos atrai.

Diz o diretor Miguel Gomes que o verdadeiro paraíso perdido será sempre a juventude, tempo dos amores loucos e das paixões.

Só os mais velhos poderão confirmar isso, lembrando do passado com “Tabu”. Aos jovens, resta pensar que a hora é agora.

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