Cemitério do Esplendor

“Cemitério do Esplendor”- “Rak Ti Khon Kaen”, Tailândia, Reino Unido, Alemanha, França, Malásia, 2015

Direção: Apichatpong Weerasethakul

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Se você é daquelas pessoas que adoram cinema, vai a festivais e se interessa por filmes asiáticos, já deve ter ouvido falar desse diretor tailandês, de nome impronunciável para nós, ocidentais e que, por isso é conhecido como Joe. Ele ficou famoso quando seu filme “Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas” ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2010.

“Cemitério do Esplendor” é o novo filme desse diretor de 45 anos, original e criativo.

Seu país, a Tailândia, é instável politicamente e agora, depois de um último golpe de estado em 2014, instalou-se lá uma ditadura que impede a liberdade de expressão. Esse dado é importante para entender o filme e compreender porque Apichatpong diz que ele é como se fosse um adeus a seu país.

Em uma entrevista que aconteceu no último Festival de Cannes, onde seu filme passou na mostra não competitiva, “Un Certain Régard”, Joe conta que voltou para a região onde nasceu, Khon Kaen, para filmar “Cemitério do Esplendor”. E acrescenta que essa região da Tailândia é muito espiritualizada, influência da proximidade dos impérios do Camboja e Laos, marcada também pelo animismo “khmer”. Ele lamenta que tudo isso está em vias de desaparecer por causa do governo autoritário.

Filho de médicos, o diretor morava no hospital onde seus pais trabalhavam e conta que primeira ideia para o roteiro de seu filme veio de um fato ocorrido no norte do país onde soldados foram colocados em quarentena num hospital, porque sofriam de uma doença desconhecida. Isso despertou nele memórias antigas.

Em seu filme, um pequeno hospital, instalado num prédio que tinha sido antes uma escola, tem uma enfermaria onde soldados dormem, quase o tempo todo. Ninguém sabe o porquê daquela narcolepsia.

Instalam máscaras nesses soldados e um tubo de luz que muda de cores. Alguém diz que os americanos usaram a cromoterapia para melhorar o sono e os sonhos de pacientes, evitando pesadelos.

Uma voluntária, Jenjira (Jenjira Pongpan Widner, atriz favorita do diretor), uma senhora que anda de muletas, encontra um caderno onde Itt (Banlop Lomnoi), um dos soldados adormecidos, faz anotações e desenhos quando acordado. Ele não recebe visitas e Jen começa a cuidar dele. Aos poucos uma conexão muito forte se forma entre eles. Ela começa a sonhar também e muitas vezes não sabemos se a cena é um sonho ou a realidade.

Outra personagem é Keng (Janinpatra Ruengram), uma mocinha que é vidente e comunica-se com os adormecidos e relata os sonhos aos parentes dos soldados. Dizem que ela teria sido procurada pelo FBI para trabalhar para eles mas ela se recusara. Aliás os americanos estão presentes no filme, sendo citados várias vezes.

Jen descobre que o terreno onde está o hospital abriga em suas entranhas um antigo cemitério real e a vidente Keng acredita que os reis drenam a energia dos soldados para continuar seus combates milenares.

São encantadoras as cenas em que a vidente descreve para a senhora Jen, o palácio real, que só ela vê. As duas andam pelo parque do hospital e o espectador, que se deixar levar, vai também “ver”os espaços luxuosos do palácio real, hoje uma terra com folhas secas, estátuas de concreto quebradas e todo tipo de lixo. A decadência do presente convive com o luxo do passado nas diferentes camadas do filme.

O sono dos soldados também pode ser uma metáfora para a depressão, a inércia perante um regime político ameaçador. A retroescavadeira que trabalha no terreno do hospital, furando a terra, é a presença misteriosa desse governo autoritário. 

E, no entanto, o diretor consegue fazer sonhar o espectador mais sensível, que lê metáforas e intui, mesmo que não conheça nada sobre a Tailândia, que o diretor fala de seu país no passado e no presente.

E as imagens de Diego Garcia, belas e estáticas, estimulam a meditação e o transporte para um lugar exótico e misterioso, onde é normal as princesas descerem de seus altares e desfilarem entre os humanos, mortas mas presentes e falantes. A conversa delas com a senhora Jen é uma cena inesquecível.

Quem gosta de filmes para meditar e pensar na vida real e na dos sonhos, não perca o surreal “Cemitério do Esplendor”.

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A Linguagem do Coração

“A Linguagem do Coração”- “Marie’s Story”, França 2014

Direção: Jean-Pierre Améris

Dizem que a fé move montanhas. O que esse filme mostra é que a compaixão pelo outro faz milagres.

Marie Heurtin (interpretada por Ariana Rivoire, atriz sensível, que é surda), nasceu cega e surda, no fim do século XIX, no campo francês, perto de Poitiers. Seus pais, gente humilde, conservaram a filha com eles enquanto puderam. Mas, chegando a adolescência, um médico aconselha que a internem num sanatório, como era comum naquela época.

Mas a história de Marie vai ser diferente. Perto de onde moravam os Heurtin, havia um convento de freiras que educavam meninas surdas, ensinando a linguagem dos sinais. Esperançoso no que poderia ser um lar para sua filha, o pai a leva numa carroça para o convento.

A menina desgrenhada, vestida num camisolão e sem sapatos, vinha amarrada. Mas seu rosto bonito, virado para a luz do sol, mostrava uma felicidade inesperada, procurando com as mãos o calor.

Logo que é desamarrada, entretanto e o pai some com a Superiora, foge assustada, correndo, com as freiras atrás.

Com insuspeitada agilidade, sobe numa das árvores do pomar, depois de pular e cair nos canteiros da horta.

A Superiora manda que uma das irmãs (Isabelle Carré, atriz poderosa) vá até ela e a traga para baixo.

A freira magrinha, muito branca, de olhos azuis e expressão doce, consegue alcançar a menina. E é com extremo cuidado e delicadeza que ela, suavemente, toca a mão de Marie.

Algo aconteceu porque a menina também estende a mão e toca o rosto da irmã Marguerite. Mas logo um grito de uma das freiras assusta a outra e faz cessar aquele momento de proximidade.

Severa, a Superiora diz que ali não é lugar para Marie, surda e cega, não apenas surda como as outras.

Mas ela havia causado uma forte impressão na irmã Marguerite que se perguntava:

“Como será viver num mundo escuro e silencioso…?”

Bem que a Superiora tentou dissuadí-la, lembrando Marguerite de sua doença incurável mas a freira, com doçura, insiste que, se a morte dela era certa e para logo, melhor seria tentar ajudar alguém antes do inevitável.

E ela vai atrás de Marie, que mora numa edícula da casa dos pais. Ao primeiro toque da freira, Marie reage com violência. Ela é um bicho selvagem.

Os pais, esperançosos de que a filha pudesse ser bem tratada no convento, deixam a freira levá-la. A mãe entrega um pequeno canivete a Marguerite dizendo:

“- É seu preferido. Gosta mais dele do que das bonecas.”

E lá vai Marie nos ombros do pai até que ele a amarra com uma correia no pulso da freira. Não é fácil arrastar Marie, que resiste.

Mas quando param num riacho, a freira observa a mudança no rosto da menina. Em contato com a água fresca, seu rosto se ilumina. No mundo sensorial de Marie, a natureza era uma companhia bem-vinda. O calor do sol e o frio da água rompiam a barreira que existia entre Marie e o mundo das pessoas.

Foi preciso muita paciência, perseverança, força e esperança para que Marie deixasse Marguerite ensinar-lhe todas as pequenas coisas que ela desconhecia e, portanto, temia. Levou tempo mas  o prazer de um banho quente, o toque macio de roupas limpas e cheirosas, seu cabelo penteado, foram as primeiras conquistas.

E a inteligência emocional de Marguerite ajudou-a a encontrar o objeto que serviria de ponte para aquilo que, depois, ela chamou de “explosão da linguagem”.

Não há nenhuma pieguice em “A Linguagem do Coração”. As interpretações são cativantes e o amor de Marguerite por aquela que ela chamou de “filha da minha alma”, é o que produziu o “milagre”.

Essa história verdadeira de Marie Heurtin, lembra a de Helen Keller, também cega e surda, mas nascida cinco anos antes, em uma rica família americana. O filme “O Milagre de Anne Sullivan” de1962, dirigido por Arthur Penn, foi um grande sucesso de público.

Mas aqui, ao invés de técnicas de aprendizagem, encontramos duas sensibilidades que se tocaram e uma ponte de afeição que leva Marie à palavra e seu significado. O amor liberta sua vontade de aprender a comunicar-se e de entender o mundo.

Um filme delicado que renova nossas esperanças na natureza humana.

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