As Duas Faces de Janeiro

“As Duas Faces de Janeiro”- “The Two Faces of January”, Estados Unidos, 2014

Direção: Hossein Amini

Na mitologia greco-romana, Janus era o deus das duas faces: uma que olhava o passado, outra mirava o futuro. Por isso chamaram  janeiro o primeiro mês do ano.

Por uma questão de vivência, a lição que o passado nos trouxe, podemos empregá-la no futuro com sucesso. Janus teria esse papel na vida das pessoas.

Aqui, na novela de Patricia Highsmith, adaptada para o cinema pelo diretor iraniano Hossein Amini ,52 anos, fazendo seu primeiro longa, as duas faces mostram esse e também outro lado complicado  da natureza humana, a dissimulação. Ter “duas caras”, como dizemos.

Todos os personagens escondem algo nesse, aparentemente, despreocupado cenário de férias de um casal americano em Atenas.

Colette e Chester (Kirsten Dunst, bela e Viggo Mortensen, ótimo), felizes e elegantes, passeiam entre as ruinas da Acrópole. Como estamos nos anos 60 e eles são ricos e sofisticados, ele está de terno claro e chapéu panamá, ela com um vestido leve, de chapéu de palha e luvas.

Não parecem temer o futuro, nem olhar com culpa para o passado. Mas as aparências enganam.

Alíás, essa é a frase que vai dizer um terceiro personagem dessa trama, Rydal (Oscar Isaac), um jovem americano que é guia turístico, disfarce que escolheu para encobrir um drama pessoal.

Quando Rydal se aproxima do casal, encantado com os dois, olhares são trocados por detrás de óculos escuros e a fumaça de cigarros. Existe um clima de sedução e de mistério no ar.

Uma trama edípica se anuncia entre aqueles três seres, tão longe de casa e, não por acaso, na Grécia, lugar das tragédias humanas vividas na antiguidade por deuses.

Quando o trio viaja para as ilhas gregas, os dados são lançados e eles não irão libertar-se uns dos outros, nessa rede de fascinação que eles mesmos teceram e que os envolve perigosamente.

Kirsten Dunst, como sempre boa atriz, com sua beleza frágil, oscila entre a menina inocente e a mulher fatal. Viggo Mortensen, másculo e rude, por detrás de uma aparência refinada, é o dono da cena. E Oscar Isaac, jovem carente de afeto, brigado com o pai, faz com graça juvenil o Édipo, encantado com a mãe e fascinado pelo pai que é dono dela. Os dois desejam Colette, cada um à sua maneira. Parecem unidos por um clima tenso que paira entre eles.

O ambiente de época é recriado com requinte pela direção de arte e as paisagens nas ilhas de ruazinhas estreitas, bares no porto e bazares, são um dos atrativos desse filme.

“As Duas Faces de Janeiro” é um suspense inteligente, com uma carga psicológica marcante. E sugere que a vida é breve, está sempre por um fio e depende de nós mesmos para mostrar-se doce ou cruel.

 

Este post tem 2 Comentários

  1. Às vésperas de nosso juno 2015, que as faces dos deuses nos contemplem com mais doçura que crueldade. Para que nossas (várias) caras sejam suaves ao convívio humano.

    Até havia esquecido que o filme é de um diretor iraniano, Eleonora, e isso me faz refletir o quão o ser humano é capaz de se universalizar, apesar da diferença de Culturas. Diferente de outros filmes da região, parece de um ocidental.

  2. Eleonora Rosset disse:

    Wilson amigo,
    Sabe que Hossein Amini foi educado na Inglaterra? Sua familia mudou-se fo Irã qdo ele tinha 11 anos. Escreveu vários roteiros para o cinema e fez adaptação de um livro de Henry James, ” The Sign of the Dove”. Foi indicado ao Oscar como melhor roteirista.
    Mas é seu primeiro filme como diretor e adaptou o livro da Patricia Highsmith, com o mesmo titulo do filme. Saiu-se mt bem! O filme é ótimo!
    Bjs

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