Os Suspeitos

“Os Suspeitos”- “Prisoners”, Estados Unidos, 2013

Direção: Denis Villeneuve

Uma floresta sob a neve. Uma voz de homem reza o “Pai Nosso”. Um cervo aparece entre as árvores. O tiro de um rifle mata o animal.

Na estrada, sob a chuva, o pai fala para o filho:

“- Estou orgulhoso de você! Foi um belo tiro.”

E a carcaça do animal jaz inerte, na parte traseira da caminhonete.

Prazer e morte. Mau presságio.

Um dos gêneros que mais agrada a quem gosta de cinema, sempre foi o “thriller”, o filme de suspense. Mas, fazer um filme desses, não é para qualquer um.

Por que? Muitos elementos são necessários nessa empreitada na qual, mais que tudo, o roteiro tem que ser inteligente e ter ingredientes que atraiam a curiosidade.

“Os Suspeitos” do diretor canadense Denis Villeneuve, do ótimo “Incêndios” 2011, consegue preencher esses requisitos com sucesso. Temos aqui um filme excelente.

Contando com um roteiro bem escrito por Aaron Guzikowski, prende o espectador e o incentiva a prestar atenção em todos os detalhes em cena, capturados que somos pelo mistério do desaparecimento de duas meninas, numa tarde de feriado do dia de Ação de Graças na América, num bairro de classe média, atingindo dramaticamente duas famílias, uma de brancos (Hugh Jackman e Maria Bello, os pais de Anna) e outra de negros (Viola Davis e Terrence Howard, os de Joy).

Chove muito. A neve enlameada e o frio são o cenário ideal para esse clima que se abate, não só sobre as duas famílias mas também sobre a comunidade local.

A fotografia de Roger Deakins abusa de tons terrosos e sujos, para reforçar a ideia de tristeza e decepção dramática.

O detetive Loki (Jake Gyllenhaal, talentoso), tem fama de resolver todos os casos que investiga mas vai ter que encarar a frustração e bater de frente com o pai de Anna, uma das desaparecidas, violento e destemperado, na pele de um sempre excelente ator que é Hugh Jackman (o Jean Valjean de “Os Miseráveis”).

Os dois homens não podem ser mais diferentes na forma de externalizar suas emoções, o que cria um atrito constante. O detetive compenetrado e racional e o pai furioso, sem controle, que quer levar tudo na base da força bruta e do castigo. Certamente, no passado está a chave desse comportamento que beira a loucura de um e da contenção exagerada do outro.

Um rapaz que é doente mental (Paul Dano) e que é visto por perto do local onde as meninas estavam, num trailer velho, é preso e sua tia (Melissa Leo), que afirma que o sobrinho é inofensivo, são envolvidos pelo clima de desespero que toma conta de todos.

O fanatismo religioso, a sexualidade bizarra, o trauma, a loucura, tudo se mistura para produzir um resultado que estimula uma angústia crescente na plateia, que acompanha o frenesi dos envolvidos no caso do desaparecimento das crianças.

“Os Suspeitos” é um suspense como há muito não se via, que nos interroga sobre até onde podemos ir quando acreditamos que estamos certos. Ou seja, pergunta se estamos preparados para enfrentar a tentação de justificar a maldade.

Não perca.

Este post tem 5 Comentários

  1. Hugo Ferreira disse:

    Oi Eleonora,
    ao que parece , não falta tempero emocional nesse filme.A interrogação deixada é inquietante: até onde podemos ir quando acreditamos estar certos? Penso não haver definição de limite ou…até o limite da nossa capacidade de lutar contra os que acham que estamos errados.Penso, também, que podemos explicar todo o mal, mas…nenhum mal se justifica.
    Mais uma excelente dica de filme, o qual não pretendo perder.
    Continue assim, refletindo a luz do cinema num cenário nublado da cultura cinematográfica em nosso País…
    Hugo

  2. Hugo Ferreira disse:

    Oi Eleonora,
    ao que parece , não falta tempero emocional nesse filme.A interrogação deixada é inquietante: até onde podemos ir quando acreditamos estar certos? Penso não haver definição de limite ou…até o limite da nossa capacidade de lutar contra os que acham que estamos errados.Penso, também, que podemos explicar todo o mal, mas…nenhum mal se justifica.
    Mais uma excelente dica de filme, o qual não pretendo perder.
    Pemaneça assim, refletindo a luz do cinema num cenário nublado da cultura cinematográfica em nosso País…
    Hugo

    • Eleonora Rosset disse:

      Hugo querido,
      Realmente importante a questão do filme pq vai desde uma mera teimosia até um comportamento onupotente, onde dúvidas não podem ser levantadas por ninguém.
      Pra, duvidar da própria certeza, especialmente qdo não há provas, é sinal de sabedoria!
      Bjs

  3. Carol disse:

    Olá,
    muito legal o blog! Aproveito para divulgar um blog que tenho com dicas de eventos e sites de educação e psicologia: existepsicologiaemsp.blogspot.com.br. Passa lá!
    Um abraço,
    Carol

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