Rio

“Rio”- Estados Unidos, 2011

Direção: Carlos Saldanha

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Uma manhã em paz. Árvores tropicais e palmeiras em meio à neblina matinal nas encostas das montanhas. Aos poucos, o pio de pássaros vai acordando a floresta adormecida.

Ouve-se o som de uma cuíca que vai agregando os instrumentos de uma escola de samba. E explode a coreografia colorida de papagaios e araras, cantando o Carnaval no Rio.

Uma abertura que homenageia a cidade natal de Carlos Saldanha, criador da animação mais bonita dos últimos anos. O Rio, aqui mais do que nunca “a cidade maravilhosa”, vai ser o pano de fundo das aventuras de uma ave em extinção no Brasil, a ararinha azul, que na verdade só é encontrada em cativeiro.

Entramos em um oco de árvore e lá está o filhote sem a mãe. Rebola o rabinho ao som da música que canta a magia do Rio. Mas, enquanto as araras amarelas aprendem a voar com a mãe delas, a ararinha azul órfã cai do ninho… E é enjaulada por traficantes de pássaros.

A sorte do nosso órfão é que Linda (voz de Leslie Mann), uma menina de óculos e olhos meigos é quem abre a caixa onde ele está aprisionado, triste e assustado, depois de uma longa viagem de avião:

“- OK. OK. Eu vou tomar conta de você“, promete a garota.

Amigos para sempre.

A partir daí, batizado de Blue (voz de Jesse Eisenberg), a ararinha azul é seu animal de estimação e é tratado como uma criança querida.

Os dois se bastam em uma cidadezinha dos Estados Unidos, onde Linda tem uma livraria. Tímida, Blue é a única companhia dela.

Mas, eis que em um frio dia de inverno, chega Túlio (voz de Rodrigo Santoro), um ornitólogo (entendido em pássaros) com um cachecol verde e amarelo, que dá a notícia:

“- Viajei 10.000 milhas só para vê-lo. Blue é o último macho de sua espécie. Encontramos uma fêmea e temos que ir todos para o Rio de Janeiro.”

Ele joga a ararinha azul para o alto, na esperança de vê-lo voar para que possa haver o acasalamento mas…Decepção. Blue não aprendeu a voar…

“- Talvez ele seja muito domesticado… Mas temos que tentar porque ele é a nossa única chance.”

Blue e Linda se entreolham preocupados.

E, a partir da chegada ao Rio, começam as aventuras de Blue em pleno Carnaval carioca.

A ararinha azul fêmea, chamada Jade nas legendas da versão original mas que é Jewel, jóia em inglês, na voz de Anne Hathaway, é sestrosa, tem olhos azuis e faz de tudo para que Blue possa voar.

Eles vão rodar pela cidade em companhia de outros pássaros, o cardeal Nico e o canarinho Pedro, exímios sambistas, e o descolado tucano Rafael que ajudam o par azul a escapar dos traficantes e da malvada cacatua Nigel, que é o vilão da história.

Um buldogue simpático e micos pivetes também dão a ar de sua graça e aprontam confusões divertidas.

São cenas que vão se desenrolando em ritmo acelerado, que mostram muito bem a cidade, desde as calçadas de Copacabana, ao bairro de Santa Tereza com o bondinho, Ipanema, o Pão de Açucar, a Pedra da Gávea e as asas delta, sem deixar de passar pelos barracos e vielas das favelas cariocas.

Tudo muito bem cuidado. Vê-se que um carioca “da gema” lembrou-se de todos os detalhes que fazem do Rio uma cidade única no mundo.

Ao som de músicas de Sergio Mendes, Carlinhos Brown e Jorge Benjor, para só falar dos brasileiros, o Rio deslumbra com suas belezas bem desenhadas.

E, claro, tratando-se do Rio e do Carnaval, nada melhor que acabar na Sapucaí, no desfile das escolas de samba, o maior espetáculo a céu aberto que se conhece.

Carlos Saldanha, conhecido pela animação “Era do Gelo”, acertou em cheio em “Rio” que tem tudo para agradar o público brasileiro e internacional, adultos e crianças.

Afinal, bicho e natureza são os temas da hora e Saldanha não faz de “Rio” um samba exaltação. Fala tanto das belezas como das mazelas de uma cidade habitada por seres humanos simpáticos mas nem todos ”do bem”, com mão leve e carinho. Há um frescor de emoções singelas que encanta, seja na versão 3D legendada ou dublada.

Aproveitem a chance do filme estar passando em muitos cinemas e não percam “Rio”. Vocês vão adorar.

Turnê

“Turnê”- “Tournée”, França, 2010

Direção: Mathieu Amalric

É um filme agridoce. Tem momentos de comédia, outros de drama. Como a vida.

Entre plumas já meio gastas, boás que precisam de remendos e paetês que ainda brilham, apresentam-se as artistas do neo-burlesco americano para o público francês.

Elas não são o tipo que a gente se acostumou a ver fazendo “strip-tease”. Mas recebem aplausos calorosos do público feminino e masculino que entende o que elas querem comunicar: alegria e sensualidade.

Apesar das gordurinhas e das rugas ou, ao contrário, até por causa delas, essas mulheres enfrentam o palco com coragem, vontade de agradar e humor. Principalmente humor.

O diretor do filme que é conhecido como ator, Mathieu Amalric, e que faz o empresário do show, um tipo decadente, para quem a vida não está exatamente sorrindo, ganhou o prêmio de direção em Cannes no ano passado.

Entrevistado, ele ressaltou essa condição essencial do humor:

“- Quando se tem humor e se encara até as dificuldades como parte de toda a experiência, nada pode ser tão ruim”.

Com seus cabelos vermelhos, rosa, louro oxigenado e perucas extravagantes, cinco americanas com nomes de “guerra” hilários como Kitten on the Keys, Dirty Martini, Evie Lovelle, que não são atrizes profissionais, são as meninas que Joachim Zand, o empresário do show, faz desfilar com espantosas bijuterias, estrelas e pompons colados nos mamilos e tapa-sexos de contas brilhantes em bundas enormes e seios cansados.

Elas cantam, tocam piano, dublam, sacodem os cachos e os peitos e encantam as platéias que aplaudem e assoviam porque se comovem com a beleza delas, seu talento e imaginação.

Nos trens, vans e hotéis baratos em que se hospedam durante a turnê pela França, elas são uma família. Amparam-se mutuamente, riem, choram, trocam confidências. São solidárias até com o empresário que faz com elas uma turnê interiorana e não consegue o teatro para o tão sonhado show em Paris.

Mathieu Amalric, que foi um dos escritores do roteiro, conta em entrevista em Cannes que se inspirou em um texto da famosa escritora Colette. Ela era atriz e, aos 30 anos, participou de shows nos quais representava pequenas cenas com pouca roupa, o que causava escândalo e sensação. Fruto dessa experiência, ela escreveu “L’Envers du Music Hall”.

Amalric diz que encontrou no neo-burlesco americano, a tradução atual para o que Colette escreveu. E assim nasceu o roteiro.

Aliás , foram as próprias intérpretes que inventaram a coreografia e os figurinos que vemos no filme.

“Turnê” é uma homenagem à solidariedade, à beleza fora dos cânones oficiais, à sensualidade e à vontade de viver.