Tropa de Elite 2

“Tropa de Elite 2 “- Brasil, 2010

Direção: José Padilha

Oferecimento Arezzo

“Apesar de possíveis coincidências com a realidade, este filme é uma obra de ficção”, adverte o letreiro que aparece na tela ainda negra. E já nos assalta no escuro o barulho de armas pesadas sendo carregadas.

Com quase três milhões de espectadores na semana de lançamento, “Tropa de Elite 2” é um campeão de bilheteria no mercado brasileiro de cinema. E, para evitar a pirataria que aconteceu com o primeiro filme, esse aqui foi distribuído pelo próprio diretor, José Padilha.

Esse sucesso nacional é um filme cruel, violento e competente. São imagens que petrificam, suspendem a respiração, grudam espectadores em suas poltronas. Assustam.

Muito sangue, barulho ensurdecedor de tiros, homens de uniforme preto armados correndo atrás de homens de shorts e camiseta armados, blindado negro subindo o morro e passando por cima de tudo, helicóptero qual ave de rapina matando sem dó nem piedade, o horror de corpos incinerados… Guerra.

O capitão Nascimento está de volta. Wagner Moura faz o personagem com o talento de sempre mas, há um tom diferente em sua voz grave, em “off”, narrando os acontecimentos. Coronel do Bope e logo Subsecretário de Segurança do Rio, ele mudou e vai mudar ainda mais durante o decorrer dos anos que o filme cobre.

O contraponto ao coronel Nascimento é o Fraga (Irandhir Santos), o defensor dos diretos humanos. No início do filme parece que ele é o palhaço da história. E o público ri do gordo na TV “macaqueando” o Fraga. Mas a trama desse filme é mais complexa que a do primeiro. Agora, o coronel Nascimento vai ter que rever muito daquilo em que acreditava piamente. Uma das certezas que vai ser abalada envolve seu filho que agora mora com a ex-mulher e seu marido, que, por ironia do destino é o Fraga, defensor dos direitos humanos desprezados por Nascimento.

Em “Tropa de Elite 2” há uma luta pessoal do ex- capitão do Bope contra o que ele chama de “sistema”, o maior responsável por tudo que há de ruim no Rio e que detém o poder e o dinheiro do tráfico. “O inimigo agora é outro” é o subtítulo do filme. Nascimento abriu o olho.

Na história da bandidagem e seus chefões no Rio de Janeiro houve uma troca de poder. Os traficantes deram lugar às milícias de policiais corruptos, protegidos e a mando de um poder político ganancioso e covarde, que compra votos, traindo a democracia. Essas odiosas milícias cariocas extrapolam o tráfico de drogas e hoje controlam tudo no morro e periferia do Rio.

Mais assustadores até que o próprio tráfico, vendem proteção. A máfia carioca.

E o povo da Cidade Maravilhosa?

Os moradores das favelas do Rio, na sua maioria gente de bem, que trabalha e sobrevive com dificuldade, aparece de relance no filme, assustados, se escondendo dos “manda-chuva” do crime, que encenam batalhas campais, matando quem se opõe a eles.

O povo carioca é a grande vítima desse “sistema” que enlouqueceu, perdeu os limites e institucionalizou o deboche, a malícia e o cinismo.

Mas a pergunta é: todo político é venal? Claro que não. Como quase todos os moradores do morro também não são bandidos. E esse é o limite de “Tropa de Elite 2”. Quando generaliza demais, perde a consistência e o poder de denúncia.

Sabemos todos que temos uma saída dessa situação perversa. Por exemplo, as Unidades Pacificadoras já instaladas nos morros cariocas. De dentro, protegem os cidadãos.

Mas não sejamos ingênuos. Claro que todos sabem que essa deturpação do estado de coisas na qual a polícia é que é o bandido, só vai acabar no dia em que a polícia for mais valorizada, bem paga e controlada por um Estado que exige ordem e recompensa quem faz a proteção do cidadão.

O Mal sempre vai existir entre nós. Mas vontade política do Bem também existe e existirá sempre.

Cabe a cada um de nós informar-se, abrir os olhos, separar o joio do trigo e exercer o direito do voto de forma consciente para eleger políticos que tenham ética, responsabilidade e, principalmente, compaixão do pobre povo brasileiro que não merece sofrer nas mãos de oportunistas.

Comer Rezar Amar

“Comer Rezar Amar” – “Eat Pray Love”, EUA, 2010

Direção: Ryan Murphy

A vontade de sair mundo à fora para buscar respostas quando se vive uma crise, já passou pela cabeça de muita gente. Aliás, o tema inspirou a criação de personagens célebres que fizeram viagens iniciáticas tanto em livros quanto em óperas e filmes.

Elizabeth Gilbert, escritora e habitante de New York, uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, também teve a idéia, fez a viagem e escreveu o livro.

“Comer Rezar Amar” virou bestseller e encantou principalmente leitoras no mundo todo.

Agora é filme, dirigido com bom gosto por Ryan Murphy, que veio do seriado de sucesso na televisão, “Glee”, e é estrelado pela charmosa e simpática atriz Julia Roberts e pelo “gatão” latino Javier Baden.

Quase nove milhões de livros vendidos até agora, falam a favor da escritora que sabe seduzir, principalmente leitoras. Até por isso alguns críticos chamaram “Comer Rezar Amar” de “filme de meninas”. Mas acho que meninos também podem gostar. Afinal, belas paisagens em lugares românticos e histórias de amor agradam a todo mundo que vai ao cinema.

Dividido em três partes, o filme, muito fiel ao livro, conta o ano sabático de Liz Gilbert, através de peripécias acontecidas na Itália, India e Indonésia. A escritora escolheu o roteiro enquanto convalescia de um complicado divórcio. Conta ela no livro que emagreceu sofridos quinze quilos no processo, o que explica o foco em comida como sua primeira escolha de trajeto.

E preparem-se para um festival de closes apetitosos em massas, risotos, pizzas e sorvetes. Tudo lindamente apresentado e comido com gosto por uma Julia Roberts fazendo uma mulher que recupera o viço e o prazer de viver. E mais ainda, enquanto comia, Liz aprendia o italiano, língua que lhe dava tanto prazer quanto a comida e a reconciliava com os afetos e a comunicação gestual, nas fotogênicas vielas romanas. Uma festa para os sentidos.

A India, objeto preferido de consumo de todo “globetrotter” minimamente sofisticado, inspira a parte mística do filme, já que Liz resolve ficar no “ashram” de uma guru famosa, desistindo do turismo. Nem Taj Mahal, nem Ganges, nem Rajastão.

No livro, a escritora passa para o leitor suas experiências com a descoberta da meditação e da sabedoria do hinduísmo. E os sacrifícios envolvidos nisso. Horas e horas em posição de lótus, acordar às 4:30 da manhã para rezar, agüentar picadas de mosquitos famintos em um calor de rachar além de lavar todo o dia o chão do templo, acabam mostrando a Liz o que ela viera procurar na India.

No filme, a ênfase é posta em sua relação com o texano melancólico Richard (feito por Richard Jenkins, ator sempre competente), que promove “insights” em Liz com seus comentários bem colocados e a garota Tulsi, que dá o colorido indiano ao filme.

E na terceira parada, a ilha de Bali, na Indonésia, com praias e campos de arroz de um verde inesquecível, é o cenário perfeito para Liz colocar em prática tudo que tinha aprendido em sua peregrinação até aqui.

Afinal, amar e ser amado é coisa primordial para seres humanos que buscam realização. E, para ela, é o reconhecimento de que suas feridas amorosas estavam curadas.

Tenho ouvido críticas ao sotaque de Javier Baden que faz o brasileiro do filme. Ora, sugiro que prestem mais atenção no de João Gilberto cantando “ ’S Wonderful” que toca como fundo de uma cena romântica. Bem “macarrônico”, o inglês do João em nada prejudica o show de afinação e balanço de bossa que ele dá. Pensem nisso e dêem uma chance ao charme latino.

Aliás, a trilha sonora escolhida é para comprar e ficar ouvindo sem parar. Vai de Mozart à bossa nova.

“Comer Rezar Amar”, sem ser um filme excepcional, agrada a quem também gostaria de fazer uma viagem dessas buscando respostas para seu auto-conhecimento e encontrando ainda mais prazeres na vida.