Albert Nobbs

“Albert Nobbs”- Idem, Inglaterra, Irlanda 2011

Direção: Rodrigo Garcia

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Uma nuca muito branca num colarinho alto. Uma mão pequena ajeita o cabelo ruivo.

De costas, assim somos apresentados a Albert Nobbs, o garçom de um pequeno hotel em Dublin, no fim do século XIX.

E, quando o vemos trabalhando, com gestos precisos e corpo rígido, nos damos conta com surpresa de que “ele” é Glenn Close.

Rosto branco qual máscara imóvel, onde só os olhos se mexem amedrontados, Albert Nobbs é o novo papel que trouxe de volta Glenn Close aos holofotes.

Indicada cinco vezes ao Oscar nos anos 80, essa atriz extraordinária reaparece, 22 anos depois de sua última indicação a melhor atriz. E no papel que fez com sucesso no teatro em 1982, na peça baseada num conto do escritor irlandês George Moore (1852-1933) e pelo qual ela se apaixonou.

Levou tempo mas Glenn Close conseguiu fazer o filme que queria tanto fazer. Para esse filme sair do papel, ela produziu, escreveu o roteiro com John Banville, colocou a letra na canção, “Lay your head down”, com música de Brian Byrne e chamou Rodrigo Garcia, filho do grande escritor Gabriel Garcia Marques, para dirigir.

“Albert Nobbs” conta com uma direção de arte impecável que nos faz viajar aos últimos anos do século XIX, ao hotel da sra Baker (Pauline Collins).

Na Irlanda da passagem do século XIX para o XX, a pobreza era extrema e mulheres se vestiam de homem para conseguir um emprego.

As relações entre os empregados do hotel é que serão foco do filme: Nobbs, o garçom, Helen Dawes (Mia Wasiskowa, a “Alice”de Tim Robbins), a bela garçonete, Hubert Page, o faz-tudo (Janet McTeer, a surpresa do filme, indicada para melhor atriz coadjuvante no Oscar) e o galã vivido por Aaron Johnson.

Mas tudo gira em torno a Albert Nobbs, um personagem singular.

“- Recriar o interior de uma pessoa tão silenciosa”, foi o que mais fascinou Glenn Close para fazer o personagem.

O atencioso garçom que trabalha há 17 anos no hotelzinho e que vive essa farsa quanto à sua verdadeira identidade, só pensa em economizar dinheiro para abrir um negócio próprio, uma tabacaria.

De noite, antes de dormir, olha com ternura um retrato onde está escrito “Mãe”,  para voltar a guardá-lo nas páginas da Biblia. Santificada, essa mulher vai inspirar os sonhos infantis de Nobbs sobre uma tabacaria com uma sala nos fundos, um lar maternal, quente e acolhedor.

De dia, ele é a personificação do medo. Defende dentro de si uma menina abusada, reprimida pelo disfarce de Albert Nobbs.

A história é comovente e ao mesmo tempo angustiante, assim como é Albert Nobbs, “uma pessoa inacabada”, como diz Glenn Close numa entrevista ao New York Times.

Ela está soberba vivendo esse personagem preso numa teia de mentiras que ele mesmo criou e que o aprisiona.

Retrato de um ser humano determinado a sobreviver, Albert Nobbs pode ser o passaporte para o seu tão merecido Oscar.

Se não acontecer, não importa. Guardaremos sua imagem em nossos corações, tocados pela tristeza e desamparo, tão bem vividos na tela por essa atriz sublime.

A Dama de Ferro

“A Dama de Ferro” – “The Iron Lady”, Inglaterra/França 2011

Direção: Phyllida Lloyd

 

Ela parece estar perdida numa neblina. Lembranças e realidade alternam-se indistintamente. Seus olhos, que antes eram azul-aço, se apertam, embaçados.

“- Bom dia Lady Tatcher! Tudo bem? Vamos falar sobre seus encontros de hoje?”, diz a secretária Susie, entrando no apartamento da velha senhora pela manhã.

Mas ela não está lá. Sentada no teatro, escuta Maria cantar “Shall We Dance?” no musical “The King and I“. Rodopiam no palco e ela se encanta, tamborilando os dedos no ritmo da valsa alegre.

Denis, seu marido fala qualquer coisa, ela se vira mas ele sumiu e ela não está mais no teatro.

Uma pilha de livros espera por seu autógrafo. Senta-se na escrivaninha e começa a tarefa. Assina Margareth Tatcher muitas vezes até que um Margareth Roberts nos surpreende.

Em um “flashback”criado por sua mente, a vemos muito jovem com os pais, debaixo de uma mesa, durante um bombardeio alemão a Londres durante a Segunda Guerra.

E logo o pai diz a ela:

“- Vá pelo seu próprio caminho. Não me desaponte Margareth!”

“- Ganhei uma bolsa para Oxford”, diz ela orgulhosa ao pai.

Mas a cena se dissipa e é a secretária que fala sobre algumas pílulas que ela deixara de tomar.

Algo a ver com ficar lúcida.

Mas como? E nunca mais ser jovem e entusiasta, casada com Denis, dez anos mais velho que ela e ter um par de gêmeos?

Nunca mais ter 49 anos e tornar-se a primeira mulher na história da Inglaterra a liderar um partido político e quatro anos depois tornar-se a primeira mulher do Ocidente a ser Primeiro Ministro? Nunca mais morar no 10, Downing Street que foi a sua casa por onze anos?

É pedir demais para a velha senhora que, sem o seu passado, torna-se inútil para si mesma.

Ela, que os russos apelidaram de “Dama de Ferro” e de quem o presidente Mitterrand da França dizia: “Ela tem olhos de Caligula e boca de Marilyn Monroe”? Ela, que tinha vencido aqueles que a chamavam de “filha do quitandeiro” e a discriminavam por suas origens humildes?

Não. A lucidez tira dela o poder.

“- Você tem que lembrar-se de que não é mais a Primeira Ministra, mamãe”, diz a filha.

Tiraram tudo dela… Até o amado filho Mark que vive na África do Sul.

Não. O que ela mais quer é viver no passado com sua glória.

Em sua 17ª indicação ao Oscar, Meryl Streep criou um corpo para essa senhora e parece que a reencarna, vivendo dentro desse corpo inventado. Dos 49 anos aos 86, Meryl Streep é Margareth Tatcher, numa atuação assombrosa.

Phyllida Lloyd, que dirigiu “Mamma Mia!”, seu primeiro longa, no qual Meryl Streep canta e dança, teve o prazer de ter essa atriz extraordinária de novo com ela.

O roteiro de Abi Morgan é um achado. Faz o filme ser um relato na primeira pessoa, em “flashbacks”que trazem de volta o passado de alguém que comandou uma nação.

Amada e odiada pelos ingleses, ela deixou sua marca na História.

E é assim que ela quer se lembrar de si mesma.

Apesar de não comungar com suas idéias políticas, Meryl Streep entendeu a personagem, uma rainha sem coroa mas com poder que, no fim, qual um rei Lear destronado, vaga, alucinando uma vida que acabou, em um apartamento em Londres.

Grande história, grande atriz.