Dois Irmãos

Dois Irmãos - Dos Hermanos, Argentina/ Uruguai/ França

Direção: Daniel Burman

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Todos nós conhecemos o Caim e o Abel que vivem em nosso mundo íntimo. São eles os responsáveis tanto pelos momentos de amor fraterno, quanto pelo ódio das lutas fratricidas.

Tão universais quanto o Édipo, os irmãos bíblicos são o tema do novo filme do jovem diretor argentino Daniel Burman, conhecido entre nós por “Ninho Vazio”(2008), que trata do casal sem os filhos que partiram para a vida e “Abraço Partido”(2004) que lida com a questão do pai ausente.

Adaptado do livro “Villa Llaura” do escritor e também roteirista Sergio Dubcovsky e filmado em Buenos Aires e Carmelo, no Uruguai, “Dois Irmãos” é uma tragicomédia que conta com dois excelentes atores argentinos, Graciela Borges e Antonio Gasalla.

A história é simples e se ocupa de dois irmãos, já entrados em anos, em tudo opostos entre si. Enquanto Marcos aceita seu destino com o coração aberto apesar de alguma mágoa, Susana tenta, através de perucas, maquiagem, figurinos excêntricos e andar desenvolto, manter a aura de beleza e viço da mulher que ela foi um dia e que quase não está mais ali. Os dois chegaram a uma idade em que, dificilmente, a vida dá uma virada para melhor.

Susana, corretora de imóveis extrovertida e egoísta, passou sempre por cima do irmão Marcos, tímido e generoso, a quem entregou o trabalho de ocupar-se da mãe velhinha. Quando ela morre, Susana vende o apartamento em Buenos Aires, apropria-se do dinheiro e convence Marcos a mudar-se para Carmelo, balneário pobre no Uruguai.

Relutante, Marcos escuta a irmã dourar a pílula, enquanto atravessam o rio da Prata, na balsa que os leva ao país vizinho:

“-Você precisa pensar que, em Villa Llaura, vai passar seus últimos dias em um lugar de sonho.”

Tão dócil com a irmã como tinha sido com a mãe de ambos, Marcos aceita a troca de países e volta ao antigo trabalho de ourives. Mas, genuinamente aberto para a vida, durante um passeio pelo povoado simples, encontra o sonho verdadeiro, que era cruel mentira na boca da irmã mal intencionada.

Mais uma vez, através da personagem Susana, Burman debruça-se sobre o panorama da classe média decadente mas que não perde a pose na cidade portenha.

O Brasil entra na história através de um episódio engraçado em que, em uma festa da embaixada, os irmãos, qual primos pobres, enchem a bolsa e os bolsos de petiscos e frutas brasileiras.

O diretor argentino, como é seu estilo, filma essa história com delicadeza. Há um olhar carinhoso e otimista sobre a vida, com o qual nos conforta, porque faz pensar que a velhice não precisa ser, necessáriamente, feia e solitária.

A cena final encanta pela doçura e pela beleza do rio que se chama da Prata e que aqui faz juz ao nome que tem.

E, quando passam os créditos finais, não saiam correndo do cinema porque os velhinhos se divertem, vestidos a caráter para um sapateado ao som de “Put it on the Ritz”.

E a gente vai para casa acreditando, como Burman, que a vida pode sempre melhorar, dependendo, claro, do nosso talento para tanto.

Ou, como disse Graciela Borges, a Susana de “Dois Irmãos” em entrevista no Brasil:

”- O tempo nos ajuda se a gente absorve tudo que a experiência nos ensina.”

Wall Street – O dinheiro nunca dorme

“Wall Street – O dinheiro nunca dorme”, Estados Unidos, 2010

Direção: Oliver Stone

Os megaespeculadores, assim como os tubarões, nunca dormem. Sempre atrás de fazer dinheiro a qualquer custo, gananciosos e aéticos, se dão bem seja nas “bolhas” do mercado financeiro, seja com as crises que acontecem de tempos em tempos.

Esse é o universo que Oliver Stone revisita em seu “Wall Street – O dinheiro nunca dorme“, ressuscitando seu personagem mais famoso, Gordon Gekko, que valeu o Oscar de melhor ator para Michael Douglas em 1988.

No primeiro filme, Gekko, rei de Wall Street, criava sua célebre frase “a ganância é boa”. Era 1987 e Oliver Stone retratava a época dos “yuppies” e da cobiça pelos bens de consumo. Ter um apartamento no melhor lugar da cidade, o melhor carro, a loura mais bonita e gastar dinheiro à vontade, era o sonho americano da época. Mas para Gekko virou pesadelo e ele acabou na prisão por crimes financeiros.

O novo filme começa em 2001 com o mesmo Gordon Gekko saindo da penitenciária onde ficara por oito anos. Ninguém o espera na saída. Visivelmente decepcionado, toca a vida.

Passam-se sete anos.

Estamos em 2008 e constatamos que, como bom tubarão, Gekko não desanimou. Vende o livro que escreveu na cadeia usando sua frase como título, agora com uma interrogação no final e dá palestras em universidades, divertindo a nova geração com suas tiradas irônicas.

Oliver Stone escolheu, como centro de seu novo filme, a crise econômica global de 2008 que levou ao colapso o sistema bancário americano.

O filme tem o mérito de mostrar claramente, mesmo para quem não entende de altas finanças, como se formou o que ficou conhecido como “subprime”. E Susan Sarandon dá um show de interpretação, fazendo a ex-enfermeira que vira corretora de imóveis e que, entrando no jogo das penhoras em cima de penhoras das casas que compra, se vê obrigada a apelar para o filho, porque chega um momento em que não consegue pagar as prestações no banco.

Mas há uma novidade em “Wall Street 2”. Nesse segundo filme há uma nota de otimismo com relação ao ser humano.

Em Manhattan não há sómente megaespeculadores e jovens corretores ambiciosos querendo ganhar bônus milionários. Gekko tem uma filha, Winnie (Carey Mulligan), que não quer ver o pai nem pintado e que escreve em um site sem fins lucrativos. Ela namora um corretor chamado Jake (Shia LaBeouf), que gosta de dinheiro mas se interessa por energia limpa. Ele se conscientiza da ganância criminosa de seus pares quando o banco em que trabalha é induzido a uma quebra de modo fraudulento. Em conseqüência disso, seu chefe e mentor se suicida (Frank Langella, excelente). Jake quer vingá-lo.

“Essa é uma história de família. Sobre pessoas buscando o equilíbrio entre o seu amor pelo poder e pelo dinheiro e sua necessidade de serem amadas por alguém”, diz Stone.

Dinheiro traz felicidade? Pode até ser. Mas, o jogo voraz da ganância pelo dinheiro a qualquer custo e a qualquer preço, traz também muita desilusão e um vazio feroz. O cínico personagem Bretton James (Josh Brolin) demonstra essa equação em que, da noite para o dia, a queda acontece e ele está sozinho no vácuo que construiu.

A cena mais irônica, na opinião do diretor, passa-se no Olimpo dos poderosos, o Metropolitan Museum, onde acontece um jantar beneficiente. Lá é a arena onde competem os muito ricos, através do brilho coruscante dos quilates nos pescoços e orelhas das mulheres na sala imponente. Desafiam-se e trocam informações privilegiadas que podem levar as ações de uma empresa a subir ou cair vertiginosamente.

Gekko, que conseguiu a entrada de U$10.000,00 com o namorado da filha comenta:

“Se jogassem uma bomba aqui hoje à noite, não sobraria ninguém para governar o mundo.”

Alguns viram no final de “Wall Street – O dinheiro nunca dorme“ um cacoete americano. Para mim, Oliver Stone, que admirava seu pai, corretor da Bolsa de New York dos anos 30 aos anos 70, faz uma homenagem aos homens de bem que, também, como os tubarões, nunca deixarão de existir.