Tributo à Elizabeth Taylor

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Das estrelas de Hollywood, uma sempre foi a preferida de muitos – Liz Taylor. Com os olhos “de uma cor que mais ninguém possui”, como diria Roberto Carlos, azul de violetas, passava através deles algo que foi notado pelos que a rodeavam: parecia mais velha do que era, desde menina.

Uma alma antiga? Profundo e misterioso aquele olhar violeta…

Seus pais, Sara Warmbrodt e Francis Taylor, eram amigos de infância e casaram-se em 1926 em Nova Iorque. Ela atriz de teatro, ele “marchand” de quadros. Deles, Liz herdou sangue alemão, irlandês e escocês, além de talento para representar e gosto estético.

Quis o destino que eles se mudassem para Londres onde Francis foi dirigir a galeria de arte de seu tio rico.

Sara abandonou o teatro e teve seu primeiro filho em 1929.

Moravam em uma casa espaçosa, cercada de jardins, em um “chic” bairro londrino.

Quando Elizabeth nasceu, em 27 de fevereiro de 1932, deu um susto em todo mundo. O corpo dela era todo coberto por uma feia penugem negra. Hipertricose residual foi o diagnóstico. Passaria logo mas, enquanto não passou, as visitas ficavam penalizadas.

Mas, a partir daí, ela não parou mais de encantar a todos com seus olhos violeta cercados por dupla fileira de cílios espessos, cabelereira negra e a pinta do lado direito do rosto, “marca de beleza”, como se dizia. Quando cresceu, cintura fina e seios generosos completavam a imagem feminina e sensual que ela passava no cinema.

E tudo começou porque a família teve que abandonar Londres em 1939 por causa da guerra, para se instalar em Los Angeles, perto de Hollywood.

Ao ver a pequena Elizabeth na rua ou no colégio de classe alta que ela freqüentava, todos insistiam com sua mãe para que a levasse para um teste no cinema.

Foi assim que Liz começou, aos 9 anos, uma carreira de 60 anos nas telas, sendo a única atriz- mirim que deu certo como atriz adulta.

“National Velvet” de 1944, fez dela uma estrela aos 12 anos. As aulas de equitação que tivera em Londres, foram úteis ao papel da garota que treinava seu cavalo para vencer uma corrida nacional.

Começou então a paixão da câmara e do público por Elizabeth Taylor.

Na adolescência fez muitos filmes e o mais marcante foi “Quatro Destinos” em 1949, a história de quatro irmãs durante a guerra, esperando o pai voltar, que foi um sucesso. Liz fazia Amy, de peruca loura e um pregador de roupa no nariz na hora de dormir, para afinar o que considerava um nariz nada aristocrático.

Aos 17 anos filmou “Um Lugar ao Sol” ao lado de Montgomery Clift e ficaram amigos por toda a vida.

Casou-se aos 18 com o herdeiro Nick Hilton mas o casamento durou apenas meses.

Aos 20, encontrou o segundo marido, Michael Wilding, nas filmagens de “Ivanhoé”. Tiveram dois meninos.

Um de seus grandes filmes acontece em 1956, “Assim Caminha a Humanidade”, contracenando com Rock Hudson e James Dean, que também se tornaram seus amigos. Liz gostava de homens “gays” e eles sempre a adoraram.

Em 1957 foi indicada ao primeiro Oscar por “Árvore da Vida”.

Tinha 25 anos quando se casou com Michael Todd. Um grande amor. Converteu-se ao judaísmo e daí em diante sempre defendeu as causas de Israel. Tiveram uma filha, Liza.

Liz ficou destroçada quando ele morreu em um desastre de avião.

O melhor amigo do terceiro marido era Eddie Fisher e todo mundo conhece a história que fez a delícia das colunistas de escândalos da época. Ele abandonou Debbie Reynolds e casou-se com Elizabeth em 1958, tornando-se o quarto marido.

No cinema, nesse mesmo ano, ela filma com Paul Newman,”Gata em Teto de
Zinco Quente” e seu papel como “Maggie, the cat”, marca o momento em que o salário dela começou a ser um dos maiores da indústria do cinema.

A foto de 1959 durante a filmagem de “De repente no Último Verão”, com aquele maiô branco, é um dos mais belos retratos de Liz. Inesquecível.

Então, aos 34 anos, faz a garota de programa de luxo, vestindo uma “sexy” combinação de cetim em “Disque Butterfield 8 “ e ganha seu primeiro Oscar.

Mas a grande mudança em sua vida ainda estava para acontecer. O convite para filmar “Cleópatra” veio acompanhado por um salário de 1 milhão de dólares.

E ela contracena com Richard Burton, seu Marco Antonio. Paixão.

O filme ficou famoso por causa do romance entre os dois e das brigas violentas do casal. Burton, o quinto marido, foi o segundo amor de Liz.

Jóias, ela dizia, eram o terceiro amor em sua vida. E Burton sabia disso.

Como presente de casamento ela ganhou o diamante Krupp de 33 quilates. Logo depois Burton comprou para ela a famosa pérola “La Peregrina”, que tinha enfeitado o colo de tantas rainhas. Quando ela fez 40 anos ganhou o diamante Taj-Mahal, em forma de coração.

Mas o presente mais vistoso foi o diamante Taylor-Burton, comprado da Cartier e que tinha 69.42 quilates em forma de pêra. Custou 1 milhão de dólares.

Foi durante seu casamento com Burton que Liz recebeu seu segundo Oscar pelo papel de Martha de “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, em 1966, contracenando com ele. Tinha 34 anos e teve que fazer uma maquiagem especial para parecer mais velha e decadente.

Elizabeth e Burton ficaram casados de 1964 a 1974, divorciaram-se e voltaram a se casar em 1975 por pouco tempo. Adotaram uma filha, Maria. E Liz contava Burton como o quinto e sexto marido.

O sétimo seria o senador John Warner com quem ficou casada até 1982.

Nessa época internou-se na Clinica Betty Ford. A primeira de algumas vezes. Bebida, tranqüilizantes e analgésicos eram o problema.

Aos 51 anos voltou a contracenar com Burton na Broadway na peça “Private Lives”, um ano antes da morte dele causada por um enfarto fulminante aos 58 anos. Liz ficou destruída mais uma vez.

Sua vida nos anos que se seguiram foi marcada por vários problemas de saúde que a levaram a muitas cirurgias e hospitalizações.

Em 1985, quando morre de AIDS seu amigo Rock Hudson, ela passa a participar ativamente na luta contra a doença através da Elizabeth Taylor AIDS Foundation.

Com 59 anos casa-se com o oitavo e último marido, que conhecera na Clinica Betty Ford, Larry Fortensky, numa cerimônia na propriedade Neverland de Michael Jackson, de quem foi íntima amiga. Separaram-se em 1995.

Em 2000, a grande estrela de cinema recebe o titulo de “Dame”das mãos da Rainha da Inglaterra, que muitos anos antes, ainda Princesa Real, visitara o camarim da mãe de Liz na estréia de uma peça em Londres, ofertando-lhe um broche de brilhantes.Coincidência feliz.

Em 2003, Elizabeth Taylor anuncia que não fará mais filmes.

E, em 23 de março de 2011 morre de insuficiência cardíaca, doença ligada à mutação genética que, ironicamente, a premiara com sua dupla fileira de cílios…

Mas, da mesma forma que admiramos o brilho de estrelas já mortas em noites escuras, Liz continuará refulgindo por muito tempo.

Seus filmes poderão ser vistos no cinema ou em nossas casas e neles vamos nos encantar sempre com as jóias mais belas que ela tinha, os olhos violeta e com seu talento de atriz, que ainda vai surpreender muitas gerações de fãs de cinema.

Feliz que Minha Mãe Esteja Viva

“Feliz que Minha Mãe Esteja Viva”- “Je Suis Heureux que Ma Mère Soit Vivante”, França, 2009

Direção: Claude e Nathan Miller

Olhos azuis muito claros buscam algo que não sabemos…É um garoto com rosto belo e grave (Vincent Rottiers).

No carro, a família de férias vai ao mar. Mãe e pai, dois filhos. Linda vista se descortina à frente deles.

Na praia, a mãe passa protetor solar no menino menor. O maior, de olhos azuis, chama o pai para nadar.

Com uma prancha, ele vai cortando as ondas muito rápido. Chega às pedras e bóia de olhos fechados, segurando a prancha, como se sonhasse com o algo muito buscado e agora encontrado.

O pai alarmado grita:

“- Thomas! Thomas!”

As águas do mar se agitam e as ondas assustam. A câmara sobe e mostra o pai sozinho na imensidão azul.

Finalmente encontra o filho sentado em uma bóia:

“- Que estupidez a sua nadar até aqui!”, exclama o pai com raiva.

“- Ficou com medo?“, pergunta o menino.

“- Lógico!”

“- Desculpe.”

E, de chofre, emenda:

“- Como era a minha mãe? Bonita?“

“- Não sei”, responde o pai visivelmente contrariado. “Eu nunca vi sua mãe. Ela não queria nos ver.“

“- Eu me lembro. Ela era linda!”, diz o menino com um ar ao mesmo tempo sonhador e atrevido.

“- Você só tinha 5 anos… Como pode se lembrar?“

“- Mas eu me lembro“, diz desafiador.

“- Bom… Tudo bem…”, responde o pai com ar incrédulo e chocado.

Tudo está bem claro agora. O menino de olhos azuis é adotado. Bem como o irmão menor.

Cenas em “flashback”, misto de fantasia e lembranças, mostram os dois com a mãe biológica ( Sophie Cattani) em momentos de ternura, tomando banho, ela dando de mamar ao bebê sob o olhar do maiorzinho, colocando-o na cama junto a ela, carinhosa e muito jovem.

Vemos também porque dá os filhos para adoção: imatura, irresponsável e sem dinheiro mas com uma grande sede de viver. Os filhos atrapalhavam.

Os pais adotivos tudo fazem mas Thomas, o menino de olhos azuis, conforme o tempo passa, fica ainda mais rebelde. Briga seguidamente na escola porque os outros meninos descobriram que é adotado e perguntam o nome de sua mãe verdadeira. Um colégio interno parece ser a única solução para contê-lo.

“- Eu descobri muita coisa. Mas vou descobrir mais ainda. Eu me lembro dela. Vocês não são meus pais! Meu irmão não é irmão de pai. Se eu quiser, vou embora! Odeio vocês!”

E, aos 20 anos, vai atrás de um sonho amoroso que vira pesadelo.

Tornou-se um clichê em nossa cultura falar sobre o complexo de Édipo. Sabem, quase todos, que foi Freud que assim nomeou o misto de sentimentos amorosos e hostis que uma criança sente pela mãe e pelo pai. Ele já vinha escrevendo sobre isso desde antes do livro de 1900, “A Interpretação dos Sonhos”, que marca a fundação da psicanálise. Valeu-se da tragédia grega “Édipo Rei” de Sófocles, para ilustrar o que observava em si mesmo e nas crianças ao seu redor:

“…é possível que todos tenhamos sentido, a respeito de nossa mãe, o nosso primeiro impulso sexual, a respeito de nosso pai, o primeiro impulso de ódio; são testemunhas disso nossos sonhos. Édipo, que mata seu pai e casa com sua mãe, não faz mais do que realizar um desejo de nossa infância.“

Freud também explica um sentimento obscuro de culpa que pode fazer com que uma pessoa cometa um ato criminoso para ter, finalmente, ao quê atrelar essa culpa, proveniente do Édipo infantil, que quer matar o pai e ter relações sexuais com a mãe.

No filme, Thomas, que embarca num jogo de sedução com a mãe biológica, dá livre passagem a amores e ódios transbordantes que são a marca registrada do Édipo infantil.

Frustrado e rejeitado na infância, ele nunca se curou de uma ferida antiga, que reabre perigosamente no convívio com a mãe, ao mesmo tempo amada e odiada.

Aqui, seria bom que pensássemos nos traumas perigosos ligados ao narcisismo que entraram em cena. Thomas se olha muitas vezes em espelhos, vitrines e janelas, numa alusão a uma identidade buscada em seu passado.

“Feliz que Minha Mãe Esteja Viva” é um filme baseado em fatos reais descritos em um artigo de Emmanuel Carrère, que serviu de inspiração para o roteiro dos diretores Claude e Nathan Miller, pai e filho. Aponta para os perigos que estão adormecidos dentro de nós e que precisam ser elaborados. Se não, quando se apresenta a chance, a tragédia surge.

O menino de olhos azuis, no fim do filme os tem vazados, como os do Édipo grego que se cegou porque não agüentou olhar a realidade cruel.

Um filme inquietante.