Film Socialisme

“Film Socialisme”, França / Suiça, 2010

Direção: Jean- Luc Godard

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Livre-se de seus preconceitos. Você não vai assistir a um filme com história, como está acostumado. Você vai ser sacudido da inércia habitual que nos acompanha ao cinema, para pensar, correr atrás de imagens, puxar da memória uma sequência e já ter que esquecê-la para acompanhar outra proposta. Incômodo e instigante.

E a ironia do destino é que quem nos propõe essa aventura é um senhor que acaba de completar 80 anos. Jean- Luc Godard, o francês fundador da “nouvelle vague”, o diretor de “Acossado”(1960) com Belmondo e Jean Seberg, de “Pierrot- le fou – O demônio das onze horas” e “Alphaville”(1965),”A Chinesa”(1967), “Je vous salue Marie”(1985- censurado no Brasil) e tantos outros.

Godard e o português Manuel de Oliveira, de 102 anos, com o seu magnífico “O sorriso de Angélica”, que acaba de passar na Mostra de SP, são, irônicamente, aqueles que propõem um novo cinema, cada um à sua maneira. Saudosismo português e enciclopedismo francês?

O certo é que todos os dois tem uma vantagem sobre nós. Viveram mais tempo, são europeus ligados a uma cultura sólida e testemunharam ao vivo os acontecimentos políticos que abalaram o século XX.

Ambos são pensadores, não meros cineastas.

“Film Socialisme” de Godard e “Um filme falado” de Manoel de Oliveira passam-se em um cruzeiro pelo Mediterrâneo. Coincidência? Penso que não. Ambos vão nos fazer percorrer o caminho de antigas civilizações que aí floresceram, para pensar sobre a humanidade que virá e refletir sobre as questões ligadas à passagem do tempo.

Não podemos nos esquecer que esses dois diretores estão mais próximos da morte do que seus espectadores mais jovens, se tudo correr bem. E fazem como que uma espécie de balanço do que viveram e do que aprenderam sobre a humanidade. Um testamento em imagens e palavras.

“Film Socialisme” usa várias linguagens de comunicação visual e muitas línguas, nem sempre traduzidas (de propósito) nas legendas. Remete a um mundo caótico, no qual a ordem sistemática só existe na geometria, por exemplo, que é um dos temas das conversas entreouvidas na primeira parte do filme, que se passa no navio.

Enquanto os turistas em atitude bovina comem, bebem, dançam, fotografam, tudo filmado numa imagem de vídeo caseiro, cores saturadas e imagens borradas, há alguns que pensam, lêem livros e conversam sériamente.

Falam de capitalismo (“O dinheiro foi inventado para os homens não abrirem os olhos”), do abandono da África (“A Aids é um instrumento para matar os negros do continente”), justiça (“Tudo bem, guerra é guerra, mas um crime é ainda um crime”), os ingleses na Palestina, as Cruzadas (“Existiram para vingar Cristo”), Husserl, religião e ética (“Cada um pode agir como se Deus não existisse, mas o problema hoje em dia é que os safados são sinceros”), computadores, a Segunda Guerra (“Você sabia que kamikaze quer dizer divindade do vento?”), o ouro de Moscou e Stálin, socialismo (“O dinheiro é um bem público como a água”), Napoleão, Islã, e muito mais.

São associações livres que remetem a assuntos intermináveis. Godard com sua câmara como que faz uma reportagem de TV sobre os humanos. “En passant”, ou seja, sem se deter, nem aprofundar, como é a maioria das informações que nos chegam no mundo de hoje.

Os momentos de grande beleza continuam sendo, como desde sempre, a água do mar eterno com sua espuma branca, o por-do-sol deslumbrante, o ruído do vento captado pelo microfone de Godard, os tubarões que se alimentam dos cardumes na água azul. Permanência.

Na segunda parte (Quo Vadis Europa), a reportagem é sobre as crianças, os que herdarão e vão tentar lidar com os problemas que deixamos para eles. Apesar da aparente dissolução da família, aqui também há permanência, como na belíssima cena do menino que acaricia o corpo da mãe (o Complexo de Édipo, uma homenagem à psicanálise?)

Uma lhama andina e um burrico aparecem na garagem da família. Não são mais animais na natureza ou ajudando o homem a trabalhar. A máquina e o sintético os substituiu e agora só lhes resta ser bichos de estimação.

E na terceira parte, Godard faz um vôo supersônico sobre personagens e lugares míticos. Egito, pirâmides de Sakara, a deusa- gata Bastet, Núbis, o deus da morte (“O sol e a morte não podem ser encarados de frente.”) Escrita árabe e hebraica superpostas. O Muro das Lamentações. Uma coruja branca nos degraus de um templo encara a câmera (personificação da sabedoria de Hera ou companheira de Harry Potter?) Odessa (cenas do filme “Encouraçado Potenkin”). Grécia (“A democracia e a tragédia se casaram na Grécia com Sófocles. A guerra civil foi seu único filho.”) Anfiteatros greco-romanos em ruínas. Estátuas gregas (“Cassandra, por que querias tanto o dom da profecia?) Nápoles e cenas do fim da Segunda Guerra. Barcelona e as touradas.

No final aparece na tela o aviso do FBI contra a pirataria. E alguém diz:

“- Quando a lei não é justa, a justiça passa adiante da lei.”

Essa é uma das leituras possíveis de “Film Socialisme”. Só você indo ver para fazer a sua.

Tetro

“Tetro”, Estados Unidos, 2009

Direção: Francis Ford Copolla

Pode a sombra de um pai poderoso anular o talento de um filho? Há uma história bíblica terrível que fala sobre o castigo exemplar reservado ao anjo mais brilhante que quis superar a luz do Deus/ Pai…

Certamente entre um pai e uma filha as coisas são mais doces e ela pode subir nos ombros do pai e querer ser tão famosa quanto ele. Falo de Copolla, o pai e Sophia, a filha, irmanados pela mesma profissão e sucesso.

Já em “Tetro”, que Copolla veio lançar aqui no Brasil, o tema é mesmo a relação pai/filho tempestuosa, que volta a ocupar o centro da história, combinada à rivalidade entre irmãos. A saga do “Poderoso Chefão” era calcada também nesse assunto. Em “Tetro”, o diretor retoma a rivalidade masculina, a hierarquia imposta como teocracia, a inveja e o ciúme. Considera-o seu filme mais pessoal e é responsável pelo roteiro.

Copolla disse em entrevista no Brasil que “Tetro”, apesar de não ser autobiográfico, é um filme inspirado na sua família. Alude a diferenças entre ele próprio e seu irmão mais velho e à disputa existente entre seu pai Carmine e seu tio Anton.

Em “Tetro” tanto o pai quanto o tio são interpretados pelo célebre ator alemão Klaus Maria Brandauer (“Mephisto”, 1981) que diz em uma das cenas mais marcantes:

“- Só tem lugar para um gênio nessa família!”

A história em “Tetro”centra-se no encontro de dois irmãos: um deles, Angelo, o mais velho, foge da família e de New York, para refugiar-se na Argentina e o outro, Bennie, o mais novo, vai ao seu encontro pois não o vê há 10 anos.

Angelo tornou-se Tetro (abreviação do nome da família, Tetrocini) e mora em La Boca, o bairro boêmio de Buenos Aires. Namora Miranda (Maribel Verdú), psiquiatra que gosta de dançar e é um escritor fracassado. É sombrio e torturado. Vincent Gallo brilha nesse papel.

Bennie (Alden Ehrenreich), tem só 17 anos e ama e admira o irmão mais velho, intuindo que ele tem a chave do mistério da família, separada por conflitos não compreendidos pelo jovem tão ingênuo quanto belo.

Com a chegada do benjamim, o passado vai ser trazido à tona. Ele é o fruto de todos os dramas que ignora mas pressente.

Bennie, o mais puro, quer saber a verdade e vai enfrentar-se com sua luz que pode tanto cegar e até matar, quanto salvar, se temperada pela descoberta do amor e do perdão.

A luz ocupa um lugar importante em “Tetro”, tanto metafóricamente, como por exemplo, quando no início do filme atrai a mariposa que vai morrer, quanto como artifício, ao fazer um jogo de sombras e aludir a mistérios, na fotografia em magnífico preto e branco. As cores são usadas com parcimônia pelo diretor, para cenas do passado e balés surrealísticos onde tudo é dito sem palavras.

Durante todo o filme o espectador é envolvido por um clima de suspense criado por um jogo de espelhos e troca de papéis.

Tudo termina num festival dionisíaco na Patagônia, com Carmen Maura de sacerdotisa. O transe é substituído pelo conhecimento necessário.

Hoje em dia, após muitos problemas, Francis Ford Copolla sente-se um homem livre, pois financia e produz os próprios filmes com os proveitos de sua vinícola na California. Sente-se livre também porque, a esta altura de sua vida, pode fazer os filmes que quiser, desde que caibam em seu orçamento. Ele diz:

“- Quando faço filmes não busco fama nem dinheiro. O que eu quero são respostas. Esse filme foi, de certa forma, uma chance que eu tinha de aprender sobre a minha própria família. E, aos 71 anos, o cinema interessante para mim é aquele em que você pode aprender algo.”

Assista “Tetro” e aprenda com esse homem genial.