O escritor fantasma

"O escritor fantasma" - "The ghost writer"

Direção: Roman Polanski

Oferecimento Arezzo

Paranóia, intrigas internacionais, ganância e traição são o prato do dia nesse novo Polanski que envolve um ex-primeiro ministro britânico em uma história de suspense. Quem entende de política internacional vai pensar logo em Tony Blair e suas ligações com o governo Bush.
É um filme na tradição “noir”e se passa em uma ilha na costa americana, paisagem de chuva e frio. Aí se refugiam o ex-ministro (Pierce Brosnan), sua mulher (Olivia Williams, ótima) e sua assistente (Kim Catrall).
Trata-se de um estudo sobre o exercício abusivo do poder, o querer a qualquer preço, passando por cima de todas as regras, a falta de ética pessoal e o discurso encobridor de más intenções.
O personagem principal é um escritor fantasma, ou seja, aquele que escreve o texto mas não assina o nome no livro. Interpretado por Ewan McGregor, ele é chamado para reescrever as memórias do político inglês, já que o primeiro escritor fantasma desaparecera.
Há um mistério no ar… O corpo do primeiro escritor fantasma surgira em uma praia gélida e deserta. Suicídio ou acidente? Por que não coisa pior?
Transformado à sua revelia em detetive, o segundo escritor fantasma vai descobrindo fatos ameaçadores.
A primeira cena na qual aparece um carro estranhamente abandonado em uma balsa e a última, na qual não vemos mas sabemos o que aconteceu, mostram o quanto Polanski é consistente na criação de um clima de suspense.
Não por acaso, o polonês de 76 anos ganhou o prêmio de melhor direção por “O escritor fantasma” no último Festival de Berlim.
Mas, o que fez manchete em jornais do mundo todo, foi o escândalo envolvendo a figura de Roman Polanski. Mal terminada a filmagem de “O escritor fantasma”, em setembro de 2009, ele foi conduzido a prisão domiciliar na Suiça, acusado de crime de estupro nos Estados Unidos em 1977. O diretor finalizou a montagem do filme à distância e não pôde comparecer à entrega do prêmio em Berlim. Robert Harris, o co-roteirista e autor do livro em que se baseou o filme, falou em nome do diretor.
Mas, para os amantes do cinema, os filmes de Roman Polanski são obrigatórios. E estamos com sorte.Teremos a oportunidade de rever alguns deles em uma mostra que se inicia hoje e vai até o dia 13 de junho no Centro Cultural São Paulo (rua Vergueiro 1000, telefone 3397-4002). Assim, vamos poder assistir a filmes mais antigos como “O bebê de Rosemary” (1968), “Repulsa ao sexo”(1965) e a obras mais recentes como “O pianista”(2002), sem falar do imperdível “Chinatown”(1974).
E é grátis. Basta retirar o ingresso uma hora antes.
Quem gosta de Polanski na tela grande não pode perder essa chance.

O preço da traição

"O preço da traição" - EUA / Canadá / França, 2009

Direção: Chloe, Atom Egoyan

“Porno-soft ”? Se visto de um ângulo conservador, esse filme pode ser colocado nesse nicho.
Mas quem conhece o diretor egípcio naturalizado canadense, Atom Egoyan, sabe que o caminho não é por aí. Quem se lembra de “The sweet hereafter”, “O doce amanhã”, de 1997, sobre o sensível tema da morte das crianças de uma cidadezinha e “Exotica”, de 1994, um quebra-cabeças emocional que se passa em um cabaré, sabe que o diretor se interessa pelos profundos mistérios da natureza humana e situações – limite que expõem nossas fragilidades.
O roteiro de “O preço da traição” baseou-se no filme francês “Natalie”, de 2003, dirigido por Anne Fontaine. E foi escrito por uma mulher talentosa, Erin Cressida Wilson. Intrigou Egoyan que viu nele “o estudo de um casamento”.
O filme pode ser contado em poucas palavras como sendo a história de um triângulo amoroso que encena infidelidade, fantasia e erotismo.
Tem Julianne Moore como a esposa de meia-idade, Liam Neeson como o marido bonito e sedutor e Amanda Seyfried como a garota de programa. Contratada pela mulher para tentar seduzir o próprio marido, já que ela desconfia de sua fidelidade, a loura menina sexy vai fazer surgir o inesperado e o trágico.
Por que será que a médica ginecologista de sucesso, interpretada por Julianne Moore, não pensou em contratar um detetive para espionar o marido? Essa é a pergunta-chave que desvenda a motivação da conduta da dra Stewart.
Casada com um professor atraente, sempre cercado de jovens alunas, Catherine mostra, desde as primeiras cenas, que está com a auto-estima baixa. Seus ombros caidos, de costas para a câmara, são a imagem externa de seu mundo interno desabando.
Envelhecer nunca é fácil. Especialmente para uma mulher bonita, deprimida, que começa a deixar-se levar por paranóias e carências.
Além disso o marido bonitão fica cada dia mais charmoso. Às tantas ela diz para ele:
“- Você ficando mais bonito a cada dia e eu me sentindo velha, tão velha…”
Uma tremenda injustiça da natureza.
Quanta inveja começa a purgar no coração de Catherine que quer para ela a vida interessante e excitante do marido… Só que a inveja nunca foi boa conselheira e vai destruir ainda mais as chances de felicidade dessa mulher.
Tudo vai de mal a pior para Catherine que, além do mais, está perdendo o seu “bebê”: seu filho único entrou na adolescência e trocou seus mimos pelas menininhas em flor que traz para casa para passar a noite com elas.
Quando surge Chloe na vida dessa mulher elegante, carente e desnorteada que mora em uma casa contemporânea, só vidros transparentes herméticamente fechados, há como que a passagem de um vento fresco de verão que estremece folhas já de outono.
Catherine quer então se ver no espelho de Chloe. Por isso não contrata detetive. Ela quer a juventude da loura e suas histórias excitantes sobre a vida sexual do marido. Perdeu o rumo. E vai pagar caro por isso.
E preste atenção. Em um jogo de imagens bem ao gosto do diretor Atom Egoyan, o filme tem duas cenas finais. Na primeira, a realidade atinge a todos com sua inequívoca clareza. Na segunda, uma fantasia narcísica de poder é encenada para cegar os olhos impotentes de Catherine e os nossos perante a dureza dos fatos. Pura ilusão.
Você pode até escolher qual delas prefere. Mas não se esqueça: devemos nos responsabilizar pelas consequências de nossas escolhas em nossas vidas. Quem enfrenta a realidade, por mais dura que ela seja, pode tentar modificá-la. Quem quer se enganar perde essa oportunidade.