Tudo pode dar certo

“Tudo pode dar certo”- "Whatever works", EUA, 2009

Direção: Woody Allen

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Um gênio com QI 200. Físico. Rabujento, excêntrico, hipocondríaco. Mas, acima de tudo, um narcisista que pensa que o mundo gira em torno dele e que ele sempre tem razão.
Um quase Prêmio Nobel, como ele mesmo se intitula, sabe tudo sobre o universo e a vida e, como perfeito misantropo, analisa os relacionamentos pessoais como se estivesse em um laboratório.
Judeu passado em anos, acha que a solução para a humanidade transformar-se seria mandar todas as crianças passar duas semanas obrigatórias em um campo de concentração para aprender até onde pode ir a maldade humana.
Reduzido a professor de xadrez, este é o momento ideal para ele triunfar sobre a humanidade. Arrasa com os aluninhos e não raro atira as peças do tabuleiro em suas cabeças enquanto aterroriza as mães com gritos sobre a estupidez de seus rebentos.
“- Você deveria abrir uma escola de diplomacia “, ironiza um de seus três amigos com quem ele monologa em um restaurantezinho italiano.
Boris Yelnikoff (Larry David) sofre de ataques de pânico e durante um deles tentou o suicídio, atirando-se pela janela. Por sorte ou por azar, escapou da morte aterissando em um toldo. Isso tornou-o manco, o que não diminue o tamanho da sua arrogância. Conta sem remorsos que divorciou-se de Jessica (Carolyn McCormick), porque “o que lhe sobrava em ego, faltava em superego”.
E, em um achado que não é novidade mas que funciona, ele ignora a divisão tela/platéia e conversa conosco, criando assim uma cumplicidade inesperada.
Boris é o novo alter-ego de Woody Allen que, segundo alguns, escreveu esse roteiro em 1977, considerado o seu período mais criativo, engavetando-o em seguida. Lenda ou verdade?
O fato é que o diretor americano mais elogiado na Europa, volta a filmar em New York, reduzindo a cidade a espaços fechados, quando muito a mesas de restaurante na calçada.
Mas o principal nesse novo filme de Woody Allen é como ele nos faz rir com situações tragi-cômicas e reviravoltas inesperadas. Quase duas horas de puro humor inteligente.
A história envolve personagens que são achados desse grande observador da natureza humana que ele é: a quase menina Melody (Evan Rachel Wood), uma lindíssima Elisa de “My fair lady” do século XXI, sua mãe e pai (Patricia Clarkson e Ed Begley Jr), sulistas religiosos que só esperam um convite da vida para revelar sua verdadeira natureza e os amigos (Michael McKean, Adam Brooks e Lyle Kanove) que também entram na dança.
Boris, em meio a discursos ácidos, pouco a pouco vai se transformando perante os nossos olhos mas nunca dando o braço a torcer.
Através de uma garota de 21 anos, ignorante e belíssima que entra por acaso em sua vida, ele vai bancar o Professor Higgins tentando ilustrar a mente simplória de Melody com teorias da física aplicadas ao quotidiano.
Mas, como bem diz Heisenberg, a presença do observador influencia o objeto observado: Boris observa Melody que observa Boris e…
“Whatever works” (ou seja, se funciona para você, tudo bem) faz todo mundo sair do cinema comentando as novas piadas de Woody Allen com prazer.
Vá você também conferir. Pode ser que funcione para tirar você da mesmice das piadas sem graça do dia a dia.

Alice no país das maravilhas

"Alice no País das Maravilhas" - "Alice in Wonderland", Estados Unidos, 2010

Direção: Tim Burton

Crescer é um desafio. Quando Alice cai no buraco da árvore, dessa vez para fugir a um noivado, o País das Maravilhas está destroçado.
Passou um dragão por lá, a mando da Rainha Vermelha que, além de cortar cabeças, quer destruir também o que restou dos domínios de sua irmã, a suave Rainha Branca, e colocar para sempre a coroa em sua própria cabeça.
Claro que quem não é criança reconhece nessa metáfora a perda da idade da inocência, a destruição necessária do casulo da criancice para que possamos nos transformar em adultos. E escolher a vida que queremos.
Será que só somos felizes na infância? Outro filme que está passando (“As melhores coisas do mundo”) tem uma resposta a essa questão: podemos ser felizes também na idade adulta. Só que é mais complicado.
O diretor Tim Burton carrega nas tintas sombrias nesse filme em deslumbrante 3D em que cada cena é um espetáculo à parte.
Alice não veste mais o seu vestidinho azul com avental branco e sapatos pretos com meia três quartos. Já no mundo lá fora ela se recusa a colocar espartilho e nada de meias, para desgosto de sua mãe. Alice agora é uma feminista em processo.
O pior aconteceu para Alice. Seu rosto está pálido, seus ombros caídos e ela perdeu o brilho da menininha que ela foi um dia. Seu pai querido morreu…
Descendo ao mundo das maravilhas perdidas, Alice faz também uma descida às regiões do luto, que sabemos como são sofridas. E só há um caminho de volta. Passa pelo reconhecimento de quem somos e da percepção de que o que foi perdido não voltará, a não ser dentro de nós.
Por isso todos perguntam a Alice:
“- Qual é o seu nome? Quem é você?”
Alice se dá conta de que aquilo não é mais um sonho infantil. Porque perder a identidade e encontrar-se nas sombras é um pesadelo.
Mas ela se apruma, reencontra a chave perdida da imaginação e vence o dragão da morte do pai, reencontrando-o em seu coração.
Quanto à infância, quem quer acha, quem quer lembra.
Felizmente é o que acontece com Alice.
Os mesmos personagens da primeira história também estão lá e vão ter que passar pela mesma repaginação que Alice sofre. Para reconquistar o próprio brilho precisam urgentemente que Alice empunhe a espada e ponha ordem no seu reino.
Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco veste o seu papel como uma luva. Sua dança em homenagem a Michael Jackson surpreende e arrepia. Helena Bonham Carter está perfeita como a cruel e ambiciosa Rainha Vermelha e Anne Hattaway toda neve, prata e luar encanta como a Rainha Branca (de batom preto para não esquecermos que estamos em um pesadelo daqueles).
Um grande achado da figurinista Colleen Atwood foi vestir Alice com roupas de “top model” que ela vai aproveitando e refazendo conforme cresce ou diminue. Porque ela não perdeu a mania de comer o bolo e beber da garrafinha da primeira história e diminuir e aumentar de tamanho.
Mia Wasikowska empresta seu arzinho sexy e matreiro à personagem e faz com graça a Alice mocinha. Arrasa no modelo de tule preto e vermelho com faixa de estampa animal. E quando coloca a armadura reluzente parece um Arcanjo.
A moral da história é: aceite as transformações e encare as próprias encruzilhadas, sabendo que o que você escolher será para sempre você.
Alice, no fim do filme, livre como uma borboleta, parte para novas aventuras.
Afinal, já sabemos que ela não foi feita para ficar em casa obedecendo a marido.