Direito de amar
"Direito de amar" - "A single man", Estados Unidos, 2009
Direção: Tom Ford
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Se você acha que Tom Ford é apenas um estilista luxuoso que faz lembrar de marcas internacionais ( Gucci, Saint Laurent) que ele reergueu com seu toque de mestre, enganou-se.
Em uma entrevista à revista Vogue Brasil, Tom Ford conta como a crise econômica mundial quase fez naufragar seu sonho de fazer cinema e levar para a tela, a seu modo, o livro de Christopher Isherwood dos anos 60 que ele tinha lido aos 20 anos e relido há pouco tempo:
“Vinte e poucos anos haviam se passado desde que eu lera o livro e resolvi voltar a ele. E aí ele me tocou de uma maneira diferente, ainda mais profunda. Estava agora na meia-idade, tinha saído da Gucci e deixado o mundo da moda, um universo no qual coloquei muita energia, e de repente senti que tinha perdido a identidade. Não tinha mais uma voz dentro da cultura contemporânea e passei a lutar contra isso”.
Como não havia mais financiadores para o filme, Tom Ford desembolsou então sete milhões de dólares e foi procurar Colin Firth para viver o professor de literatura que pensa em se matar após perder o companheiro em um acidente de carro.
O diretor Tom Ford, em seu “début” cinematográfico, acertou em cheio na escolha do protagonista de seu filme. O inglês Colin Firth ganhou o prêmio de melhor interpretação em Veneza, o Globo de Ouro e foi indicado pela primeira vez para o Oscar. Só a interpretação dele já valeria ver o filme.
No elenco Ford colocou também a ótima Julianne Moore, que faz uma mulher decadente mas charmosa que tenta seduzir o requintado professor por puro medo da solidão.
George, homossexual assumido, vive no filme um luto complicado. Parece que a vida perdeu o sentido, já que tudo o remete às lembranças dos 16 anos passados ao lado do amado companheiro morto.
O título em português, “Direito de amar”, é uma tradução homofóbica já que sugere com condescendência que o professor e seu companheiro também podiam se qualificar para o nobre sentimento do amor. Ao desprezar o título ”Um homem só’, que poderia ser a tradução para “A single man”, o preconceito age às avessas. Uma lástima.
Mas quem se distancia dessa maneira de pensar, pode assistir a um belo e vigoroso filme.
Tom Ford cujo talento para a beleza e o requinte ninguém põe em dúvida, coloca na tela a dor de um homem e tudo que o leva à negação da vida.
Conta essa história em imagens magníficas. Uma delas: em câmara lenta um corpo masculino é visto afundando em águas turvas, à mercê de um sentimento de peso que invade George.
Em um outro achado estético deslumbrante, Tom Ford faz as cores do filme mudarem de quase um sépia para o colorido berrante do Technicolor dos anos 50, acompanhando o vai e vem de sentimentos de depressão e mania, vida e morte, que assolam o professor em seu luto. Para um momento inesquecível Ford usa um preto e branco suntuoso.
Um clímax inesperado encerra o filme fazendo com que o ator Colin Firth mereça todos os prêmios e o diretor Tom Ford os nossos aplausos.