Shame

“Shame” – Idem, Inglaterra,

Direção: Steve McQueen

 

A tela é uma cama com lençois azuis. Um belo homem está deitado nela, com a mão sobre o ventre. Imóvel por alguns segundos, deixa-se apreciar.

Surge o letreiro negro, “Shame”, sobre o azul dos lençóis.

Ele passa nu pela sala do apartamento quase monástico. Nas estantes de alumínio negro, não há objetos ou fotografias. Livros? Não sabemos… Mais parecem revistas, apostilas. Também não há quadros no apartamento. Grandes janelas de vidro e a vista lá fora denunciam New York.

Ele acessa a secretária eletrônica mas não pára, rumo ao banheiro.

“- Brandon… Atenda… Se está aí… Por favor…”, diz uma voz de mulher. Só nós ouvimos as súplicas que saem da máquina.

Na estação do metrô, vestindo lãs cinzas, de maneira sóbria e impessoal, Brandon está a caminho do escritório.

Este início do dia será repetido várias vezes e, a cada repetição, vamos conhecendo melhor o personagem Brandon Sullivan, na pele de Michael Fassbender, o ator do momento.

Com a mesma desenvoltura mecânica com que acorda e vai de metrô ao trabalho, ele segue um quotidiano que pode escandalizar alguns: masturba-se no banheiro durante o banho, fica horas diante do computador vendo pornografia e fazendo sexo virtual, transa na rua contra um muro. A cama dele é ocupada por várias mulheres, profissionais ou não, que se confundem, porque só pedaços delas são mostrados pela câmara.

No escritório inunda o computador de vírus ao frequentar sites pornográficos e vai muitas vezes ao banheiro, para se masturbar.

Nas ruas da cidade, no metrô ou no trabalho, ele é um tigre faminto à procura de presas.

Só que Brandon, infelizmente, nunca se satisfaz. A cada presa de que se serve, ele precisa de outras mais. Sexo para ele é como uma droga, a qual busca sem parar. Estamos longe do erótico ou do sensual.

Algo em sua mente precisa ser descarregado, para evitar que ele caia em um terreno perigoso. O impulso tirânico de procurar um buraco de carne para se livrar desse algo no outro, o invade sem cerimônia.

Há uma escalada da angústia porque Brandon tem medo de pensar sobre isso.

Réfem desse impulso descontrolado, ele vive uma existência oca, sem laços de qualquer espécie.

Até que, sem convite, aparece alguém em sua vida que o joga na crise da qual Brandon foge.

Sissy, a irmã (a excelente Carey Mulligan), que expõe sua carência, sua infelicidade e raiva voltadas contra si mesma (auto-mutilação e tentativas de suicídio), é o espelho que mostra o que ele tanto oculta de si mesmo: a fragilidade extrema, o medo da perda, os traumas do passado. A vergonha de não ser como os outros…

E ele corre, fatigando-se na noite da cidade, acompanhado pelo piano melancólico de Glenn Gould.

E é de Carey Mulligan o momento-revelação do filme, quando canta afinada e lindamente a canção “New York, New York”, como um longo e triste lamento, arrancando uma lágrima pesada dos olhos do irmão.

“Shame” é o segundo filme de Michael Fassbender, 34 anos, com o diretor inglês Steve McQueen (homônimo do ator americano), que já foi artista plástico e que agora também é cineasta competente. No último festival de Veneza, Fassbender ganhou o prêmio de melhor ator e o filme foi escolhido como o melhor pelos críticos internacionais.

“Shame” é um filme que fala sobre o homem contemporâneo ao mostrar personagens limítrofes, sem moralismo.

Se você não se assusta com a sexualidade, vá ver “Shame” e fazer o que Brandon não consegue: pensar sobre a vida e assumir suas escolhas como gente grande.

Este post tem 13 Comentários

  1. heddy dayan disse:

    esse steve mc queen nem é tão belo qto o querido ator, mas sendo o grande artista plástico que é, deve também ser um ótimo diretor. assim que eu puder, verei o filme, de título intrigante. Thanks, lele

    • Eleonora Rosset disse:

      Heddy querida,
      Bonito não mesmo! Mas talentoso e criativo. Além de co – escrever um roteiro que sai da mesmice e pesquisa a natureza humana.
      Quero ver ” Hunger” que não passou por aqui.
      Bjs da lele

  2. paulo octavio disse:

    Assisti a 2 filmes na semana passada , 1 dia depois do outro…” Drive ” e ” Shame “…e as semelhancas não foram somente nos títulos reduzidos de ambos. Apos assistir a ” Shame ” fiquei com a impressão que tinha visto o mesmo filme ( alias a atriz carey mulligan participa com destaque nos dois filmes )Explico..homem urbano solitário com cara de mau por causa da sua profissão enfrenta problemas de relacionamento.Ambos filmes poderiam/usaram o mesmo plot com diferentes nuances na execução ….los angeles x new york ; profissão relacionada ao cinema ( los angeles ) x profissao relacionada ao mercado financeiro ( nyc ) entre outras…. Se bem que em ” shame ” o diretor com certeza foi mais ousado e minimalista ( mas o de ” drive ” ganhou cannes )Gostei do filme mas achei que filme com “estilo europeu/minimalista” tem que ser dirigido e produzido fora de hollywood para não parece genérico ! bjs

    • Eleonora Rosset disse:

      Paulo querido,
      Não querendo dar uma de irmã mais velha e já dando, vc reduziu os filmes a seus esqueletos…Fazendo assim não dá mesmo para ver nenhuma novidade… Toda a gente humana, reduzida a ossos é mt igual. O recheio da carne é que é diferente.
      Assim em DRIVE, Ryan Gosling é frio mas se apaixona e protege Carey Mulligan.
      Em SHAME, Michael Fassbender é uma pessoaque evita qq tipo de relacionamento emocional. Carey Mulligan é afastada e temida. Mas o encontro com ela pode trazer alguma luz a Brandon.
      Eu diria que são dois filmes que se destacam da mesmice dos filmes em geral. Imperdíveis!
      Bjs

  3. Sonia Clara Ghivelder disse:

    Olá Eleonora
    Vamos pois chamar este filme de moderno. Ok. Mas a sexualidade humana não é moderna. Ela existe e faz tempo. O que é moderno é o tratamento que ela, a sexualidade, recebe neste filme.
    Relativo ao personagem( Brandon Silver) muito bem executado por Michael Fassbender , o ator e galã da vez, gerou uma atividade inconsciente e portanto sem racionalismos. Não acho que se trate apenas de um homem contemporâneo porque não nos cabe generalizar essa questão. Neste caso, com a devida reserva em se tratando de um assunto de largo espectro, vejo muito mais como uma neurose compulsiva, mais do que uma “modernidade”. De um modo geral a sexualidade permanece com os seus rótulos e clichês morais.
    É um filme delicado e difícil em alguns momentos. É quase como um questionamento sobre onde nos localizamos…
    É um filme “para maiores de dezoito anos” não no sentido “square” da palavra, mas um filme que deve ser assistido com maturidade e até mesmo apreciado.
    Momentos de lirismo, de selfishness desse personagem que se asusta com a possibilidade de amar.
    Carey Mulligan é uma atriz talentosa que nos mostra um sensível trabalho.
    Apenas “Shame” título que dá ao filme já é um preconceito! Mas o diretor não quer que o público ache. Ele nos deixa uma ambiguidade…
    Vale ver.
    Bjss

    • Eleonora Rosset disse:

      Querida Sonia Clara,
      Amiga, qdo falei em homem contemporâneo, estava falando das dificuldades da expressão natural da sexualidade, da solidão e mesmo da compulsão, seja pelas drogas, pelo consumismo etc que tanto afligem as pessoas nessa cultura século XXI, que mts vêzes nos oprime.
      Claro que a sexualidade acompanha a nossa existência desde sp. A ela devemos nossa existência.
      Fiquei intrigada tb com o nome do filme. Mas encontrei uma entrevista do diretor, Steve McQueen, que explica que a palavra ” shame” foi recorrente nas conversas com homens “viciados em sexo” que ele entrevistou nas pesquisas que fez para o filme. E, ele acrescenta, que para fugir dessa “shame”, desse não pertencimento ao admitido pelos outros, tais pessoas voltavam a se refugiar no sexo sem controle, num triste circulo vicioso, impeditivo de reflexão.
      Nessas pessoas, tal como no personagem Brandon, há uma procura equivocada de algo que se torna uma sexualidade não erótica, sem um prazer genuino.
      Espero ter esclarecido alguma coisa.
      O filme é mesmo para adultos. Gente que pode ver além da superficialidade dos comportamentos humanos e adivinhar a angústia que motiva esse sexo desenfreado e infeliz.
      Bjs

  4. sonia clara ghivelder disse:

    Então… lamentávelmente esse sexo desemfreado é tão sómente uma profunda angustia e “recherche de soi même”
    Enfim, temática fascinante.. Gostaria que os Drs.Freud/Jung, fizessem os seus comentários para esse filme…..!
    bjss
    Sonia Clara

    • Eleonora Rosset disse:

      Sonia Clara querida,
      É um assunto pouco explorado no cinema pq causa escândalo nos puritanos.
      Mas quem tem consultório sabe que a sexualidade é mais reprimida do que liberada…
      O principio do prazer , que Freud dizia ser o norteador da nossa vida, infelizmente se choca mts vezes com o principio da realidade e um superego muito rigido.
      Na minha opinião, e vc entendeu , o sexo mostrado no filme é um desafogo da angústia que não pode ser pensads pelo personagem que atua e não reflete sb. E a vida dele é uma consequência dessa armadilha que ele montou para si mesmo. Sem saida.
      Vc tem toda a razão. Excetuando o artigo do Calligaris, não vi nenhum outro da área da psicanálise se interessando pelo filme…
      Vamos esperar que apareçam mais opiniōes abalizadas sb assunto tão humano.
      Bjs

  5. Kiban Michel Bazi disse:

    Por que sempre julgamos os sexualmente promíscuos pretendendo que eles não estão autenticamente tendo prazer?
    O filme tem um ranço moralista, não acha?

    • Eleonora Rosset disse:

      Kiban Michel,
      Não sei quem disse, mas acho ótima essa frase:Tarados são aqueles que tem uma vida sexual melhor que a nossa.
      Mas no caso do filme, o personagem não é apenas promiscuo, é compulsivo. Ou seja, não existe um prazer saudável na sexualidade dele. Ele é levado ao sexo não pela antecipação do gozo mas para aliviar-se da angústia e novamente a mesma coisa depois de outra experiência sexual. Um circulo vicioso fatal do qual é vitima.
      Agora, quem pode e quer ter uma vida sexual intensa e gostosa, sorte dele!
      Bj

      • Kiban Michel Bazi disse:

        A nymphomaniac, according to Dr Alfred Kinsey, is simply “someone who has more sex than you.”

        • Kiban Michel Bazi disse:

          Assisti o filme.
          Não tive a impressão que sexo para ele era simplesmente alívio de tensão. Parece-me que era algo onde ele obtinha prazer. Seria prazer sexual em si, como comer uma comida deliciosa ou ouvir uma excelente música ou um prazer narcísico de mostrar para si mesmo que é o bom, o conquistador de mulheres? Achei que ele ficou de saco cheio com o aparecimento da irmã problemática. Qual a diferença do prazer supostamente narcísico duma mulher comprando bolsas e sapatos de grife para obter valor agregado em sua auto-estima? E nem sempre a auto-estima está em baixa, simplesmente é um processo de alavancar a auto-estima. Uma mulher bela gosta de exibir a sua beleza – o drama aparece quando envelhece e vira lixo sexual.

  6. david libeskind sirota disse:

    shame sexualidade e solidão !!!!

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