Assunto de Família

“Assunto de Família”- “Manbiki Kazoku”, Japão, 2018

Direção: Irokasu Kore-eda

Pai e filho numa loja se preparam para roubar tudo que puderem. Osamu (Lily Franky) e Shota (Jo Kariri) de uns 13 anos, fazem uma boa dupla. Pronto. Tudo que precisavam está na mochila do garoto.

A noite está fria. Parece que vai nevar, nota o menino. É quando se deparam com uma menina pequena, uns 5 anos, trancada fora de um apartamento no térreo, no terraço e mal agasalhada. Tristinha, ela treme mas não fala nada. O pai resolve levá-la para tomar uma sopa quente na casa deles.

Cinco pessoas moram numa casinha apertada entre edifícios altos, onde gente e coisas se amontoam como podem. Quando vê a menina chegando, a mãe Noboyu (Sakura Ando) reclama:

“- Aqui não é orfanato…”

Mas quando a avó Hatsue (Kilin Kiki) examina o corpinho magro e frágil de Yuri (Miyu Sasaki) e descobre hematomas e queimaduras, todos se comovem. Inclusive Aki (Mayu Matsooka) que sendo a mais apegada à avó,  poderia ter ciúmes da recém chegada.

A menina está feliz e ninguém fala em sequestro. Nem mesmo quando, dia depois, a TV dá a notícia do desaparecimento da menina que se chama Juri e não Yuri. Imediatamente a mãe corta o cabelo dela e escolhem um novo nome, Rin.

A mãe está cada vez mais próxima de Rin e se emociona quando a menina faz um carinho no braço dela, também com marca de queimadura. Ela trabalha na lavanderia de um hotel e tudo que encontra esquecido nos bolsos da roupa dos hóspedes, vai para o dela.

Aquela família pobre rouba o que não tem e não pode comprar com os magros salários do pai na construção civil e da mãe na lavanderia. Para não falar dos trocados que Aki ganha em frente a um espelho, satisfazendo o desejo dos homens que a olham. É a pensão da avó que realmente sustenta a todos.

Mas não é a pobreza, nem o fato de todos serem ladrões, que faz essa família ser diferente das outras. É outra coisa.

Durante o filme vamos nos afeiçoando a eles porque são naturalmente calorosos e genuinamente interessados uns nos outros. Ali há amor e solidariedade. Naquela casa simples escutamos muitas risadas quando todos se encontram à noite.

Kore-eda, diretor japonês, interessa-se pelos laços de afeto, que para ele são mais fortes que os de sangue, como mostra em “Nossa Irmã Mais Nova” e “Tal Pai Tal Filho”. E é um especialista em dirigir crianças. São cenas com tal naturalidade que une os adultos e os pequenos, que é difícil não se envolver.

E, quando no final nos surpreendemos com uma revelação, há uma emoção impossível de segurar. Muitos ficam com os olhos marejados.

“Assunto de Família” é um filme aparentemente simples mas que tem várias camadas, mistérios, fragilidades mas que também se nutre da força do ser humano. É universal.

Merecida a Palma de Ouro que ganhou no Festival de Cannes

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