Monsieur & Madame Aldeman

“Monsieur & Madame Adelman”- Idem, França 2017

Direção: Nicolas Bedos

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Alguém tecla rápido numa máquina de escrever. Uma casa de campo, um lago. Interiores de um gosto refinado. Triste, uma ainda bela mulher, marcada pelos anos, arruma-se diante do espelho. A filha chama:

“- Você não vem mãe?”

No funeral de um escritor de sucesso, ninguém menos que Jack Lang (ex Ministro da Cultura), faz o elogio fúnebre:

“- Estamos em luto por um poeta. Victor Adelman foi um dos homens mais engraçados e talentosos que eu conheci. Ele nos deixa Sarah, sua mulher da vida toda…”

Na recepção, depois de tudo, um jornalista (Antoine Gouy) se apresenta a Sarah. É um dos biógrafos do marido, vencedor do prêmio Goncourt, que quer saber mais sobre o escritor.

“- Você não acha que já são muitas biografias? Original seria você escrever a minha. Porque todos nessa casa estão pensando: Essa é a velha que matou o marido?”

E passa a recordar as quatro décadas e meia do casamento deles. Como fundo musical os The Platters cantam “Twilight Times” de 1971, seguida de várias outras canções como “You’re a Lady”de 1973. Quem, com mais de 60 anos, não se lembra?

E a pergunta que se quer fazer é: ela fala a verdade? Conta mesmo tudo que se passou? Ele era mesmo assim? E ela?

Claro que a resposta é uma só, já que a “verdade” é sempre subjetiva. O fato contado é uma lembrança trabalhada por um afeto.

E Sarah é inteligente, divertida, culta, narcisista na medida certa e adora seduzir e ser seduzida. Então, o retrato que ela faz do casal, é charmoso, romântico, diálogos na ponta da língua e de um humor juvenil e intelectual. Isso no início. Depois o humor ganha acidez e aparecem os lados escondidos dos personagens.

Ele (o próprio diretor e roteirista, Nicolas Bedos) é um homem com cara de menino bonito e temperamento rebelde, de uma família conservadora, pai autoritário e burguês (Pierre Arditi) e mãe refugiada na bebida. Frequenta há anos o divã de um psicanalista paciente (o formidável Denis Podalydès).

Ela (Doria Tillier, também roteirista e atriz estreando com  talento), alta e boa estrategista, belo corpo e presença marcante, de uma família judia pobretona, imigrantes mas com laços verdadeiros entre eles e um pai de inteligência brilhante e simpático.

Na versão de Sarah, ela teria sido a eminência parda e ele um homem que fazia tudo que sua musa queria. Pelo menos por um bom tempo. O casal teve, como todo mundo, altos e baixos.

De qualquer modo, o roteiro a quatro mãos, de um casal da vida real, é muito bom e nos leva a reviver nossos “anos dourados”, para quem viveu naquela época onde os tabus foram quebrados e um vento de liberdade soprava .

Se alguém quiser dizer que o filme é comercial, feito para o entretenimento das pessoas que ainda frequentam salas de cinema, eu diria que sim, por que não? Quanto mais que tudo é bem feito, bem escrito, bem interpretado. A maquiagem na velhice dos dois é um pouco estranha? Ora, estamos no cinema. O truque faz parte.

O importante é que Nicolas Bedos, em seu primeiro filme, acertou em quase tudo. Risos e lágrimas, humor e seriedade, sabedoria e loucura, são os ingredientes dessa comédia dramática que agrada ao público por onde passa.

Um ponto a mais para o cinema francês que sabe fazer sucesso sem ter a necessidade de ser vulgar.

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Dunkirk

“Dunkirk”- Idem, Estados Unidos, França, Reino Unido, Holanda, 2017

Direção: Chistopher Nolan

Desde a cena inicial, quando panfletos ameaçadores alemães caem do ar sobre os assustados soldados britânicos e franceses nas ruas de Dunquerque, uma cidadezinha francesa com longas praias frias e nenhum porto bastante profundo para abrigar navios de grande calado, você vai se sentir em pleno pesadelo.

Com os alemães levando vantagem no início da Segunda Guerra, final de maio de 1940, ganhando a batalha de Dunquerque, nada resta aos 400.000 homens do exército dos aliados, a não ser esperar.

Há uma luta sombria e melancólica contra o tempo. Só um milagre poderia salvar aqueles homens derrotados. Os alemães podem chegar a qualquer minuto e exterminar aquele exército que, ironicamente, vê ao longe as terras da Inglaterra, onde estariam a salvo, do outro lado do Canal da Mancha.

Miragem impossível.

Trata-se de uma espera terrível. O inimigo invisível ataca. Ouve-se o estrondo das bombas lançadas pelos aviões e submarinos afundando os navios ingleses. Na praia, o ricochetear das metralhadoras e explosões matam  homens anônimos.

Tudo é som e fúria. Medo, impotência, morte à espreita.

Jogando fora seu rifle e capacete, um soldado entra na água do mar, observado por seus companheiros que não se movem, petrificados. Todos hipnotizados, pensando se aquela não seria a melhor solução. Matar-se antes da morte certa, precedida de terror.

É o mago Chritopher Nolan que dirige esse filme de guerra sem sangue mas tão tenso e apavorante que chegamos a sentir na pele o que é estar numa guerra.

Também dele é a história contada em três palcos: terra, mar e ar.

Na terra, soldados jovens (Fionn Whitehead e Aneuris Barnard que se juntam depois a Harry Styles) fazem fila na praia, alvos sem defesa para as bombas lançadas dos aviões de nariz amarelo.

No mar, um pequeno barco de passeio, Mimosa, é requisitado, como muitos outros civis, para fazer a evacuação dos homens sitiados em Dunquerque.

Mr Dawson( Mark Rylance, ótimo), seu filho (Tom Glyn- Carney) e um amigo (Barry Keoghan) recolhem do mar um soldado enlouquecido (Cillian Murphy).

No ar, pilotos da RAF (Tom Hardy faz o principal) dançam uma coreografia mortal de perseguir e ser perseguido.

Em terra, a espera dramática durará sete dias, no mar levará um dia para atravessar o canal até a França e no ar, há uma hora para tentar abater os aviões inimigos.

A fotografia espetacular, fria e sinistra, de Hoyte Van Hoytema, alivia ou aumenta a tensão, conforme avança a dramática Operação Dynamo.

Filmado em câmaras IMAX, “Dunkirk” deve ser visto, de preferência, em salas que exibem o filme nesse formato. Nolan é um defensor da película, da granulação, das cores matizadas e como seu filme tem muito poucos diálogos, melhor não poderia ser. Porque o problema da filmagem em IMAX é que o diálogo tem que ser superposto à imagem, depois do filme pronto. Uma complicação a mais.

A trilha sonora de Hans Zimmer, com seus violinos estridentes, percussão que é como se um coração fosse explodir de tanto bater e o tique-taque de um relógio ouvido nessa corrida contra a morte, é a sonoridade ideal para completar a experiência sensorial que é “Dunkirk”.

O tema principal é o quanto a sobrevivência é importante para cada um dos indivíduos colocados nesse drama. Pacifista, como quase todos os filmes de guerra, há também uma lembrança sobre algo tão raro nos dias de hoje, a solidariedade.

Um grande filme.

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