Que mais posso querer

“Que Mais Posso Querer“ – “Cosa Voglio di Piu”, Itália /Suiça, 2010

Direção: Silvio Soldini

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As primeiras cenas do filme são de uma família se mobilizando para o iminente nascimento de uma criança.

Anna (Alba Rohrwacher) e seu marido Alessio (Giuseppe Batiston) são acordados no meio da noite para socorrer a irmã dela, que está em trabalho de parto. Em meio a falatórios, confusões e tom dramático, à italiana, lá se vão todos para o hospital.

Tudo corre bem e na tela passam os letreiros.

O que mais chama a atenção, é que o titulo do filme aparece em letras minúsculas, tudo junto, como se fosse uma só palavra: “cosavogliodipiu”.

O diretor, Silvio Soldini, que ganhou nove David di Donatelli (o maior prêmio do cinema italiano) com “Pão e Tulipas” em 2000, parece querer dizer algo importante com esse titulo, que é uma pergunta sem interrogação. É como se quisesse nomear um estado de alma.

Anna, a personagem principal, que tem uns 30 e poucos anos, é que está nesse estado de insatisfação inquietante que ela mesma não sabe nomear. Há uma busca em seu olhar. Um mal-estar em seu corpo.

Mas o que mais ela quer da vida?

Tem tudo. Por que a insatisfação?

Afinal ela é casada com um sujeito tranqüilo, que trabalha bastante em sua loja e que vive para agradá-la. É contadora em uma firma de seguros e parece ser querida por seus colegas. Pois bem, no dia em que uma delas se aposenta e ganha uma viagem, aquela pergunta inicial começa a tomar forma em sua mente.

Algo urgente clama em suas entranhas.

Com seus olhos expressivos, Anna parece querer perguntar a si mesma: mas o que há na vida além de casamento, filhos, trabalho e aposentadoria?

Tudo isso é muito pouco para ela, que quer mais.

E sai em busca.

Seu marido acomodado não serve para o que ela precisa.

A sexualidade exaltada será o guia de Anna para chegar onde ela quer e ainda não sabe: sentir-se desejada com volúpia, abandonar-se a um estado de paixão cega, conhecer-se em seus precipícios, alçar vôo para terras desconhecidas.

Quer um homem.

E o primeiro que aparece é Domenico (Pierfrancesco Favino). O atraente garçom do buffet que vai , por acaso, ao escritório onde ela trabalha, pedindo uma faca emprestada, será o escolhido pelos seus hormônios.

A atração física que se instala entre os dois não é questionada, nem precisa de explicações. Para Anna ser a fêmea que precisa ser, ele será o macho convocado.

Um início atrapalhado, beijos ardentes furtivos, encontros desajeitados sempre interrompidos, só fazem aumentar ainda mais o clima de exasperação.

E quando chega a noite no motel, no quarto vermelho, ornado de espelhos, encontram imediatamente a medida certa dos gestos e os passos seguros para o ato erótico.

Despem-se de suas roupas e seus corpos se encaixam sem atritos.

Não há palavras, nem coreografias. Poses, gritos e gemidos são dispensáveis. Aqui o sexo é natural.

Essa cena perfeita contagia com sua simplicidade intensa. A câmara não invasiva focaliza o que interessa.

O diretor Silvio Soldini consegue fazer um cinema de alta comunicação com o público, levando os atores (que passam uma química perfeita como casal), a compartilhar com quem os assiste uma verdade tocante.

Há muito de universal e primevo nesse amor sem rituais repetitivos e cansados.

Os corpos brilham. Entre Anna e Domenico é puro prazer e gozo.

Em um almoço de família, dias depois, uma parente repara:

“- Anna, o que está acontecendo? Está tão bonita! Qual é esse tratamento novo?”

Mas a realidade não tarda a invadir esse espaço que deveria ser só deles. Domenico é casado, pai de dois filhos amados e luta, com a mulher, para que a família sobreviva. A amante é para ele uma fuga dessa vida dura.

Anna sofre com a não disponibilidade que vê em Domenico. Mas o caso entre eles foi intenso e verdadeiro. Saciou o cio dela. Não foi uma relação perversa que escraviza e maltrata. Domenico não torturou seu corpo nem seu coração. Ajudou-a, mostrando-a para ela mesma.

Sofrida mas amadurecida, Anna está mais completa e pronta para a vida que a espera.

Talvez tenha compreendido que a pergunta que se fazia no inicio do filme é a marca indelével da natureza humana.

Somos todos insatisfeitos, mas saber disso coloca em nossas mãos a responsabilidade por nossos passos e a escolha dos caminhos que trilhamos em nossas vidas.

E colhemos as conseqüências sempre.

“Que mais posso querer” ensina essa lição sem moralismos.

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Ricky e Reencontrando a Felicidade

“Ricky”, França/ Itália, 2009

Direção: François Ozon

  

“Ricky”, França/ Itália, 2009
Direção: François Ozon

“Reencontrando a Felicidade”- Estados Unidos, 2010
Direção: John Cameron Mitchell

 

Estavam em cartaz em São Paulo dois filmes diferentes que tratam do mesmo tema: a perda de um filho.Ricky, infelizmente, agora só em video.

Sabemos que é um assunto pesado, triste e a dor mais terrível que pode afetar uma mãe.

“Ricky”, de François Ozon, é original, como todos os filmes do jovem cineasta francês. Com ele escapamos de um registro habitual, de dura e pura realidade, para a criação fantástica e o sonho.

Ozon inspirou-se na novela “Moth” (Mariposa) da inglesa Rose Tremain para criar “Ricky”, o seu bebê extraordinário.

O filme, que se chamou “Léger comme l’air” (Leve como o ar) em francês, mostra o caminho que, muitas vezes, palmilha a mãe em luto: a fuga da realidade e a criação de uma alucinação que consola e distrai da dor da perda.

Katie (Alexandra Lamy), mãe solteira, tem uma menina e dá a luz a um menino. No começo do filme vemos que ela se queixa a uma assistente social, numa delegacia, que o pai da criança (Sergi Lopez) desaparecera e que está muito cansada porque o bebê chora demais.

“-Não consigo mais cuidar dele”.

É a única alusão a um tipo de perda, a doação de um bebê para adoção.

Podemos imaginar a culpa e o sentimento de inadequação e, até mesmo, do horror de si mesma, que acompanha a mãe nesse ato.

Como lidar com um luto impossível?

Imediatamente, Ozon muda a narrativa para o registro do sonho. Uma outra história vai ser contada.

O bebê Ricky preocupa a mãe porque apresenta estranhos hematomas nas costas que evoluem para feridas abertas de onde saem apêndices esquisitos.

As suspeitas de maltrato recaem sobre o pai e ele abandona a casa.

Algo espantoso está acontecendo com Ricky, o bebê que precisa sair de casa para não morrer. Ele é um pássaro ou um anjo?

Precisa de espaços abertos, de ar? Ou de outro ambiente, outra mãe?

Ele é solto na floresta. A mãe, sabendo que seu bebê alado está bem assim, livre para voar, pode refazer-se de uma dor que quase a levou à morte.

O bebê fantástico libera a mãe e a irmãzinha de uma dor insuportável e a vida pode seguir o seu curso. A magia e o encantamento conduzindo a ação, propiciam paz de espírito para aquela família.

Talvez Ozon queira dizer que a imaginação, mais do que a loucura e a alucinação, é o caminho para se lidar com tudo aquilo que parece impossível.

Já em “Reencontrando a Felicidade”, titulo infeliz para “Rabbit Hole”(Toca do Coelho), que o tradutor considerou mais palatável, o drama aparece aos poucos, como se houvesse medo em se tocar no assunto. Quatro excelentes atores vão encená-lo.

O portão aberto num jardim bem cuidado, apenas sugere que algo inusitado se passou ali.

Nicole Kidman faz Becca, a mãe que não consegue superar a perda do filho e está cheia de raiva e desamor.

Howie (Aaron Eckhart) é o pai que se esconde para ver os vídeos do filhinho, morto há 8 mêses, no celular.

Não é possível nenhuma intimidade ao casal. Becca se mantém rígida e gelada, como se tivesse morrido também.

Ela foge de tudo e todos. Procura uma toca para se esconder e não pensar em nada.

Largou o emprego.

Não gosta das pessoas do grupo de auto-ajuda que o casal freqüenta. Não gosta do menu no restaurante. Não gosta mais da casa. Não gosta mais do cachorro que manda para a casa da mãe. Não gosta mais de si mesma.

Mas ela tenta se livrar daquele estado em que se encontra. Doa as roupas do filho, limpa o quarto dele, recolhe os desenhos pregados no armário, tira a cadeirinha do assento de trás do carro. Em vão.

A mãe de Becca (Dianne Wiest) tenta conversar com a filha. E descobrimos que também ela passou pela mesma dor. Seu filho morreu de “overdose”.

“- Não há comparação entre eles. Danny era um menino de 4 anos e Arthur era um drogado”, diz Becca com raiva para a mãe.

“- Mas era meu filho”, responde a mãe.

Um fio de esperança surge quando Becca procura Jason (Miles Taller). O garoto, que desenhava buracos para que seus personagens de história de quadrinhos alcançassem mundos paralelos, é o único com quem ela consegue conversar.

Pode parecer chocante à primeira vista, mas se lembrarmos que o luto envolve muita culpa, compreendemos que o garoto que atropelara Danny era o único com quem Becca se identificava.

Se ela não tivesse deixado o portão aberto por causa do cachorro… Se Danny não tivesse ido atrás dele… Se Jason não tivesse passado de carro por aquela rua naquele minuto…

Mas, falar sobre o assunto, aos poucos vai trazendo os dois para um lugar de mais paz e conforto.

Uma tarde, enquanto guardavam os brinquedos de Danny numa caixa, mãe e filha já podem conversar:

“- Isso vai embora?”, pergunta Becca referindo-se à sua dor.

“- Não. Já se passaram 11 anos e ainda está aqui… Mas muda. Um dia a carga se torna mais suportável…”

Becca chora.

Os dois filmes ilustram, cada um à sua maneira, porque falamos em “trabalho do luto”. Leva tempo, é sofrido e requer um grande investimento no amor a si próprio e na possibilidade de internalizar a figura do morto.

Dentro do coração da mãe, o filho pode viver e ser encontrado.

Ricky e Danny ensinam às mães, pais e filhos da platéia do cinema esse segredo.

 

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