O preço da traição

"O preço da traição" - EUA / Canadá / França, 2009

Direção: Chloe, Atom Egoyan

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“Porno-soft ”? Se visto de um ângulo conservador, esse filme pode ser colocado nesse nicho.
Mas quem conhece o diretor egípcio naturalizado canadense, Atom Egoyan, sabe que o caminho não é por aí. Quem se lembra de “The sweet hereafter”, “O doce amanhã”, de 1997, sobre o sensível tema da morte das crianças de uma cidadezinha e “Exotica”, de 1994, um quebra-cabeças emocional que se passa em um cabaré, sabe que o diretor se interessa pelos profundos mistérios da natureza humana e situações – limite que expõem nossas fragilidades.
O roteiro de “O preço da traição” baseou-se no filme francês “Natalie”, de 2003, dirigido por Anne Fontaine. E foi escrito por uma mulher talentosa, Erin Cressida Wilson. Intrigou Egoyan que viu nele “o estudo de um casamento”.
O filme pode ser contado em poucas palavras como sendo a história de um triângulo amoroso que encena infidelidade, fantasia e erotismo.
Tem Julianne Moore como a esposa de meia-idade, Liam Neeson como o marido bonito e sedutor e Amanda Seyfried como a garota de programa. Contratada pela mulher para tentar seduzir o próprio marido, já que ela desconfia de sua fidelidade, a loura menina sexy vai fazer surgir o inesperado e o trágico.
Por que será que a médica ginecologista de sucesso, interpretada por Julianne Moore, não pensou em contratar um detetive para espionar o marido? Essa é a pergunta-chave que desvenda a motivação da conduta da dra Stewart.
Casada com um professor atraente, sempre cercado de jovens alunas, Catherine mostra, desde as primeiras cenas, que está com a auto-estima baixa. Seus ombros caidos, de costas para a câmara, são a imagem externa de seu mundo interno desabando.
Envelhecer nunca é fácil. Especialmente para uma mulher bonita, deprimida, que começa a deixar-se levar por paranóias e carências.
Além disso o marido bonitão fica cada dia mais charmoso. Às tantas ela diz para ele:
“- Você ficando mais bonito a cada dia e eu me sentindo velha, tão velha…”
Uma tremenda injustiça da natureza.
Quanta inveja começa a purgar no coração de Catherine que quer para ela a vida interessante e excitante do marido… Só que a inveja nunca foi boa conselheira e vai destruir ainda mais as chances de felicidade dessa mulher.
Tudo vai de mal a pior para Catherine que, além do mais, está perdendo o seu “bebê”: seu filho único entrou na adolescência e trocou seus mimos pelas menininhas em flor que traz para casa para passar a noite com elas.
Quando surge Chloe na vida dessa mulher elegante, carente e desnorteada que mora em uma casa contemporânea, só vidros transparentes herméticamente fechados, há como que a passagem de um vento fresco de verão que estremece folhas já de outono.
Catherine quer então se ver no espelho de Chloe. Por isso não contrata detetive. Ela quer a juventude da loura e suas histórias excitantes sobre a vida sexual do marido. Perdeu o rumo. E vai pagar caro por isso.
E preste atenção. Em um jogo de imagens bem ao gosto do diretor Atom Egoyan, o filme tem duas cenas finais. Na primeira, a realidade atinge a todos com sua inequívoca clareza. Na segunda, uma fantasia narcísica de poder é encenada para cegar os olhos impotentes de Catherine e os nossos perante a dureza dos fatos. Pura ilusão.
Você pode até escolher qual delas prefere. Mas não se esqueça: devemos nos responsabilizar pelas consequências de nossas escolhas em nossas vidas. Quem enfrenta a realidade, por mais dura que ela seja, pode tentar modificá-la. Quem quer se enganar perde essa oportunidade.

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Os homens que não amavam as mulheres

"Os homens que não amavam as mulheres", Suécia /Dinamarca/Alemanha, 2009

Direção: Niels Arden Opley

“Millenium” foi o nome dado por Stieg Larsson , escritor sueco, ao que seria uma série de dez livros. O primeiro volume foi um sucesso de público em todo o mundo, o segundo também. E foi triste ficar sabendo que, aos 50 anos, depois de entregar o terceiro volume ao editor, Larsson morreu de ataque cardíaco em 2004.
Volumoso, “Os homens que não amavam as mulheres” é um livro que se lê correndo, acompanhando a vida agitada e perigosa do jornalista Mikail Blomkvist que, no início da história, acaba de ser processado por uma reportagem envolvendo uma grande corporação, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas, publicada na revista “Millenium” da qual é sócio.
Nesse momento ele é contratado para descobrir o paradeiro de uma mulher, desaparecida há 40 anos quando ela tinha 16 e que seu avô milionário crê que foi assassinada. E por um membro do clã familiar.
O filme, dirigido com eficiência pelo dinamarquês Opley, tem 152 minutos de duração e é bem fiel ao livro.
Quando Blomkvist (Michael Nyquist), um homem maduro mas atraente, vai até a cidadezinha sueca em uma ilha gélida com casinhas brancas pontuando uma paisagem verde pálida e encontra o chefe da família poderosa em sua mansão imponente mas austera, já estamos conquistados pelo mistério.
Mas a entrada em cena de uma garota magra, “piercings”e uma tatuagem de dragão em seu corpo nú esguio, faz o espectador ficar ainda mais atento.
Ela, Lisbeth Salander, (Noomi Rapace) , sempre de preto estilo “punk”, é a melhor coisa do filme. “Hacker”magistral, ela tem memória fotográfica e inteligência rápida. Frágil na aparência, o que a faz parecer indefesa, Lisbeth surpreende com sua pronta capacidade de assegurar a própria sobrevivência, já que conhece todos os truques das artes marciais.
Ela vai ajudar o jornalista no caso do mistério da mulher desaparecida e roubar a cena sempre.
Perversão sexual e ideologia nazista nas altas rodas suecas apimentam a história dessa investigação cheia de suspense e reviravoltas.
Como o segundo livro já virou filme também, “A menina que brincava com fogo” estréia em São Paulo no mês que vem.
Aconselho vocês a acompanhar esse primeiro capítulo para engatar no segundo que vai girar em torno a Lisbeth Salander, a orfã de passado nebuloso.
E façam isto antes que chegue por aqui a versão de Hollywood que já está sendo filmada. Prometo para vocês que os filmes suecos são sempre mais “sexy”.

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