Gabriel e a Montanha

“Gabriel e a Montanha” Brasil, 2017

Direção: Fellipe Barbosa

Na bela cena de abertura, com uma paisagem deslumbrante, ficamos sabendo o final da história trágica de Gabriel Buchmann, jovem economista que viajava por um ano pelo Oriente e África, em 2009, antes de começar seu doutorado sobre a pobreza no mundo, nos Estados Unidos.

Seu corpo é encontrado numa reentrância da rocha do Monte Mulanje no Malauí, 19 dias depois de seu desaparecimento, durante uma descida, sozinho, após atingir o cume. Morreu por hipotermia.

Ao longo do filme vamos percebendo que o que Gabriel (João Pedro Zappa, ótimo ator) tinha de simpatia e alegria de viver, tinha também de teimosia e arrogância. Apesar de avisado de que o lugar era perigoso, resolveu subir sozinho, mal trajado para o frio intenso e sem notar que a neblina poderia ser a sua pior inimiga, escondendo as sinalizações pintadas nas pedras.

Gabriel tinha pressa. Subiu assobiando e pulando de pedra em pedra, como se aquele fosse um lugar conhecido.

Por que? Foi descuido? Ignorância? Onipotência?

Essa pergunta ninguém pode responder. Inclusive porque poderia ter havido uma vontade inconsciente de não voltar.

Fellipe Barbosa (“Casa Grande”), colega de escola de Gabriel, resolveu fazer dele seu personagem, recriando seus últimos 70 dias. Refaz o trajeto dele por 4 países, que são os 4 capítulos do filme.

No capítulo 1, no Quênia, vemos Gabriel, o único “mzungu” (Branco) à vista, vestido como se fosse um habitante local, com o pano em volta do corpo e sandálias feitas de borracha de pneu. Recusa-se a ser visto como um turista. Mas fala inglês. Tem pouco dinheiro. Sua simpatia faz com que todos se aproximem dele, adultos e crianças. Divide a cama e comida com seus novos amigos. E está feliz.

“- É a viagem que eu idealizei fazer. Autossustentável.”

E no capítulo 2 o projeto é subir o Kilimandjaro, a mais alta montanha da África com quase 6.000 m, na Tanzânia, junto da fronteira com o Quênia. John Goodluck, o guia de Gabriel, diz que serão 5 dias mas Gabriel acha que dá para fazer em 4.

“- Por que tanta pressa?”

“- Tenho coisas para fazer. Semana que vem vou pegar minha namorada em Dar El Salom.”

À noite seu sono é agitado. Tosse muito.

Algum tempo depois, quase no topo, Gabriel sente cansaço e quer descer, Goodluck o ampara até o alto. Ele respira com dificuldade. Primeiro sinal que seu preparo físico não era bom, que a saúde fraquejava.

Mas Gabriel não presta atenção e lá vai ele fazer safári com a namorada Cristina (Carolina Abras, excelente) no jipe do guia Rashid. E uma briga entre eles, levanta outro ponto dessa história cruel:

“- Você veio se esconder na África quando todo mundo se desiludiu com você”, diz Cris, aludindo ao fato dele ter sido recusado em Harvard.

“- Não estou fugindo de ninguém. É a viagem dos meus sonhos”, retruca Gabriel.

Capítulo 3 na Zâmbia, as cataratas, Victoria Falls. Os dois curtem o lugar fotografando e namorando. E Gabriel perde tempo num café com internet e os dois perdem a hora de um passeio com elefantes e um “bung jump” no último dia de Cris na África.

O diretor usa só dois atores profissionais, os outros são pessoas que conviveram com Gabriel e que falam sobre ele em “off”.

Como é difícil aceitar que Gabriel executou um plano inconsciente de morrer na África. Mas tudo pode também ter sido um acaso. Acontece.

Aliás o que importa é que Gabriel realizou uma viagem de sonho em sua curta vida e estava feliz.

Curta ou longa a vida, a morte é sempre certa.

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