Antes do Inverno

“Antes do Inverno”- “Avant l’Hiver”, França, 2013

Direção: Philippe Claudel

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Naquela casa de vidro tudo parece impecável. Cercada por um lindo parque, ela nem parece habitada. Ou melhor, tudo está sempre tão perfeito, que nada ali denuncia o humano. Dir-se-ia um cenário.

Mas, aos poucos, um detalhe aqui, outro acolá, e a casa começa a ver seus habitantes palpitarem de vida.

Lucie, no fim dos 50 anos, não esconde o seu enfado, passando os dias a gastar sua energia no jardim e na cozinha, preparando o jantar para Paul, seu marido neuro-cirurgião, que passa muito pouco tempo em casa.

“- Por que você acorda tão cedo?” pergunta o marido à mulher.

“- Para poder te ver um pouco…” responde ela.

Mas não há reclamações nem brigas. Os dois, muito civilizados, ouvem música, tomam vinho tinto e comentam coisas sem importância.

Lucie é a melhor amiga e confidente de Gérard, psiquiatra que tem consultório na clínica de Paul, de quem é grande amigo. Os três personagens estão vivendo os últimos dias do outono de suas vidas, antes do inverno, ou seja, velhice e aposentadoria.

É nesse momento que muitas pessoas perguntam se viveram as vidas que queriam ter vivido. Perguntas difíceis porque não há respostas prontas, nem tempo para se fazer outras escolhas. Ou ainda há?

Esse é o tema do filme “Antes do Inverno” de Philippe Claudel, escritor e diretor de cinema. Seus personagens são expulsos do cenário tranquilo de suas vidas aceitáveis, quando buquês de rosas vermelhas começam a aparecer por toda a parte. Quem as envia? O que querem dizer?

Uma moça morena (Leila Bekti) parece perseguir Paul.

Alguma coisa terrível aconteceu porque a polícia interroga o grande neuro-cirurgião nas primeiras cenas do filme, antes do “flash-back”.

Os atores Daniel Auteil e Kristin Scott-Thomas estão soberbos na construção do casal que está junto há tanto tempo, que acham que tudo vai continuar assim até o fim.

Mas a vida encarrega-se de mexer com as pessoas e de tirá-las de um equilíbrio instável. São chamadas a responder perguntas que nunca fizeram a si mesmas ou, pelo menos, não em voz alta.

“Antes do Inverno” é um filme que mexe com a zona de conforto que todos os personagens construiram para si mesmos.

Aliás, tanto eles como todos nós. E, por isso, o filme talvez seja incômodo e melancólico para alguns. Quem não aguentar o tema, evite.

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A Culpa é das Estrelas

“A Culpa é das Estrelas” – “The Fault in Our Stars”, Estados Unidos, 2014

Direção: Josh Boone

Apesar de um leve pé atrás, gostei e chorei. E não tinha lido o livro.

Na minha época, mas mais grandinha que as meninas barulhentas que enchiam a plateia e perturbavam os adultos intrometidos que faziam “Chíu!”, foi o filme “Love Story”1970, que me fez soluçar.

Ao contrário do atual, o meu virou livro de sucesso só depois que estreou nas telas e foi escrito pelo roteirista do filme, Erich Segal.

Na minha época, o refrão que ficava era “Amar é nunca ter que pedir perdão”, encurtado para o “OK” de Hazel e Gus de “A Culpa é das Estrelas”, adaptado do best-seller de Josh Green.

O filme comove e emociona adultos e crianças porque trata com simplicidade e delicadeza da doença, da morte mas principalmente do primeiro amor.

Hazel e Gus estão doentes mas não recusam o que o coração comanda. Quem ainda não viveu isso, como as meninas da plateia, anseia por ele, ao mesmo tempo que o teme, mas quem já viveu isso há muito tempo, recorda com saudade.

Hazel Grace Lancaster e Augustus Waters encontram-se num grupo de ajuda para doentes jovens como eles. E como é encantador seguir os primeiros olhares.

Gus (Ansel Elgort) e Hazel (Shailene Woodley) sintonizados pela química que existe entre eles, passam para o espectador uma verdade difícil de ver em atores até mais tarimbados do que eles. E acho que isso acontece porque a entrega total dos dois a seus personagens, é visível.

A companhamos a garota que precisa de oxigênio, o tempo todo e o rapaz bonito e bem humorado que teve que perder uma perna para sobreviver, torcendo pelo casal. Não porque estão doentes, mas porque estão apaixonados.

O diretor Josh Boone, 38 anos, no seu segundo longa, dirige o filme fazendo a câmara acompanhar os protagonistas em belos cenários e suas cores são sempre solares e vibrantes, mesmo quando o inevitável acontece.

A mãe de Hazel (Laura Dern) e o escritor preferido de Hazel e Gus (Willem Dafoe), que eles encontram na viagem à Amsterdã, interpretados por atores famosos, não tem muitas cenas no filme. Os roteiristas Scott Newstadter e Michael H. Weber (“500 Dias com Ela”) decidiram assim. E fizeram bem porque o foco é o casal, responsável pelas lágrimas e pelos risos.

Na carta que escreve a Hazel, Gus diz que, na vida, todos nós seremos feridos ou seja, vamos sofrer. E que é um privilégio poder escolher quem vai fazer isso conosco. Ele refere-se ao amor, à morte e à sobrevivência de sómente um, que fica com a ausência e vive a perda. Mas se o amor continua a existir, mesmo na ausência do amado, valeu a pena.

Mesmo porque, a morte do próprio amor é sempre algo terrível.

Portanto, afaste suas ideias pré-concebidas e vá assistir ao filme que vai também ficar na história afetiva das pessoas sensíveis.

 

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