O Retrato de Dorian Gray

“O Retrato de Dorian Gray”- “Dorian Gray”, Inglaterra, 2009

Direção: Oliver Parker

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Oscar Wilde (1854-1900) morreu na prisão, vítima da crueldade do falso moralismo da era vitoriana na Inglaterra.

Homossexual, não podia viver livremente suas escolhas. Atormentado, criou um personagem que era sua patética confissão de que o mal o habitava.

“O Retrato de Dorian Gray”, publicado em 1890, é um livro cujas raízes estão no conflito do autor em tentar reprimir nele mesmo o que era proibido pelos costumes preconceituosos da época e que, ao mesmo tempo, faz uma declaração pública, a favor da punição aos que ousassem desafiar as regras, ou seja, condenando o próprio autor.

Oscar Wilde tentou de tudo para se ajustar ao modelo da época em que vivia mas falhou.

“O Retrato de Dorian Gray”, o filme, dirigido por Oliver Parker, é a história do anti-heroi Dorian Gray (Ben Barnes), que chega ingênuo e sem vícios a Londres, recriada com lirismo e fotografada em tons frios por Roger Pratt.

Logo no início do filme, vemos o jovem chegando à estação de trem onde é abordado por mendigos, prostitutas e rapazes “gay”. Dorian, que recebera uma herança do avô, passa cego por esses presságios e vai ao encontro de seu destino entre os membros fúteis da alta sociedade londrina.

Em um concerto beneficiente conhece o pintor Basil Hallward (Ben Chaplin) que, seduzido pela beleza de Dorian, pinta o seu retrato. E o faz de forma tão soberba, que vai desencadear o drama.

Lord Henry Wotton (Collin Firth, antes do Oscar), personifica aquele que vai arrastar Dorian a viver a filosofia de vida amoral e perversa que prega mas não pratica inteiramente. São discursos eloqüentes e cínicos que o frágil jovem Dorian incorpora e repete, tanto em palavras como nas escolhas que faz para a sua própria vida.

O sotão da mansão familiar herdada por Dorian Gray esconde segredos. Com suas paredes descascadas e janelas vedadas, dá o tom sombrio às memórias infantis, envolvendo Dorian e seu avô.

Cacos de espelho pelo chão, anunciam o fracasso da visão clara…O narcisismo maligno de Dorian vai ser o terreno fértil para pactos demoníacos.

Frente ao seu retrato, enamorado por sua própria figura, diz que faz qualquer negócio para manter a juventude e a beleza eterna.

Metáfora de um canto da mente de Dorian Gray aberto à perversão, o sótão será o lugar do retrato, escondido aos olhos do mundo, corrompendo-se à medida que o jovem vai se entregando à degradação e à luxúria.

O retrato espelha a alma de Dorian Gray e condena suas ações, que vão se tornando mais e mais repugnantes.

Sem amor e com uma curiosidade insaciável pelos prazeres mundanos, Dorian é um excluído.

Parece que Oscar Wilde previa o seu próprio futuro que não tardaria a chegar…

O filme é bem cuidado tanto na direção de arte quanto nos figurinos criados com riqueza de detalhes requintados por Ruth Myers.

E o seu grande mérito é reviver um clássico. Se bem que, adaptado pelo roteirista estreante Toby Finley, dobra-se ao gosto da juventude de hoje por filmes de horror com muito sangue, música tonitruante e até um beijo “gay”.

Espero que leve gente jovem ao cinema e que, seduzidos pelas imagens, redescubram o livro e fiquem sensibilizados por toda a sutileza, ironia e inteligência de Oscar Wilde.

Cópia Fiel

“Copie Conforme”, França, Itália, Irã, 2010

Direção: Abbas Kiarostami

Quando é que a sétima arte, o cinema, imita a vida?

Quando é que um filme torna-se um acontecimento para alguém?

Talvez quando um roteiro, escrito, dirigido e interpretado com sensibilidade, propõe temas que nos tocam profundamente e começamos a nos perguntar sobre nós mesmos. A história precisa nos comover e nos convidar a pensar. O filme fica na cabeça, as imagens voltando e nos estimulando para diálogos íntimos. A sós ou acompanhados.

Assim é com “Cópia Fiel”, o primeiro filme ocidental do diretor iraniano Abbas Kiarostami.

Uma mulher, Elle, (Juliette Binoche) sente-se atraída por um homem, James Miller (o barítono inglês, William Shimell). O filho adolescente dela é o primeiro a perceber. E ela se irrita por ser tão transparente assim…

Os dois trabalham com arte. Ela tem um antiquário. Ele escreveu um livro sobre a cópia de uma obra de arte, coisa tão antiga quanto os romanos e que pode valer mais que o original.

Vão se encontrar e andar juntos por um dia, pela Toscana, onde ela mora.

No começo é o livro dele e a questão da originalidade, do falso e do autêntico na arte, que parece ser o centro da história. Mas, logo, essas questões vão convergir para a relação afetiva dos dois. O discurso intelectual serve apenas como um pano de fundo para os sentimentos que já brotam com força:

“-Não acredito que você está sentado no meu carro!”, exclama ela, logo no início do passeio.

E, com a câmara fechada no rosto dos dois, vamos seguindo o diálogo. A bela paisagem da Toscana é ignorada.

Ela traz para a conversa a amiga Marie, que tinha sido a primeira a ficar intrigada com o livro dele. Elle, a francesa, conta para James, o inglês:

“- Ela diz, melhor uma cópia que o original. Por isso só usa jóias falsas. Assim não tem com que se preocupar.”

E, como quem não quer nada, acrescenta que Marie tem um marido apaixonado, um homem simples, que gagueja e que ela adora.

Ele autografa o exemplar de Marie e escreve: ”Você é original!”

“- Somos parecidos, eu e Marie”, comenta ele.

E é aí que surge a faísca que vai uni-los e separá-los durante aquele dia:

“-Não acho. Marie não quer convencer ninguém. Você sim, com o seu livro.”

“-Eu escrevi esse livro para ser honesto, para convencer a mim mesmo. Não é fácil ser simples.”

Ela retruca:

“-Mas não precisamos ser simples! Somos complexos!”

E, na parada para o café, surge a dona, uma italiana, que os confunde com um casal e comenta com Elle sobre os confortos do casamento.

Pronto. O jogo vai começar.

Ele saíra para falar ao celular e quando volta, ela diz:

“-Sabe que a dona do café nos confundiu com um casal casado?”

O rosto dela vai mudando, uma lágrima logo aflora e Elle instiga James a segui-la numa conversa íntima sobre um casamento de 15 anos.

E a dúvida nos assalta. Mas não se trata de desconhecidos? São mesmo casados e se separaram ou é tudo uma farsa?

Não importa. Ao topar o jogo, o inglês vai ter que acompanhar Elle, que dirige a ação.

Juliette Binoche, que ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes por essa atuação, disse em uma entrevista ao jornal Valor:

“Sim, ela conduz a ação! Isso não é maravilhoso? Porque, às vezes, são as mulheres que têm que arrancar as emoções dos homens! (Risos) As mulheres são capazes de despi-los de suas carapaças para que se revelem. Somos como deusas do amor, estamos aqui para revelar os homens. Se não fosse pelos homens, como poderíamos ser mulheres?”

O iraniano Abbas Kiarostami que apresentou ao mundo seu país e sua cultura, através de seu povo (“O Balão Branco” 1995, “Gosto de Cerejas” 1997, “Onde fica a casa de meu amigo?” 2000), em “Cópia Fiel” fala de algo que todo mundo entende: as glórias e os fracassos do amor no casamento.

Os sinos da Toscana dobram ou repicam para esse amor casado? Ou talvez apenas toquem para acordar quem mantém ilusões que sustentam relacionamentos equivocados?

Elle inveja o casal de velhinhos que vê sair da igreja. Será que ela sabe dos auto-enganos que tiveram que ser superados para que acabassem juntos a vida?

Mais perguntas que respostas…Cabe ao espectador pensar sobre elas.

É bom lembrar que Kiarostami aproveita também para denunciar ao mundo, através de sua opção de filmar na Itália, que seu país sofre nas mãos de um regime autoritário que inibe a liberdade de expressão.

Em entrevista ao jornal O Globo, quando perguntado sobre a opressão no Irã, Kiarostami, 70 anos, com 40 de cinema no currículo, citou uma declaração de outro cineasta iraniano, Asghar Farhadi, que ganhou o Urso de Ouro esse ano em Berlim:

“Vivendo sob tamanha pressão, não sei se paro de filmar e passo a me expressar a partir de atos políticos radicais ou se devo continuar filmando, sabendo que as reflexões propostas pelos nossos filmes podem mudar mentalidades e esclarecer pessoas.”

Por enquanto, Abbas Kiarostami escolheu seguir fazendo filmes.

Sorte nossa.