Um Inverno em Nova York

“Um Inverno em Nova York”- “The Kindness of Strangers”, Estados Unidos, 2019

Direção: Lone Scherfig

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O título original fala mais a respeito do filme do que a tradução: “A Bondade de Estranhos”. Vamos ver uma história delicada que mostra a gentileza de gente que não conhece mas ajuda a personagem principal.

A gentileza com que tratamos aqueles que não conhecemos é uma das mais importantes qualidades do ser humano. Importar-se com quem não conhecemos é o que mantém uma sociedade bem organizada. Gentileza e bondade são a cola que nos une uns aos outros e é muito necessária quando passamos por dificuldades.

Precisamos pensar nisso e deixar que nosso coração assuma as rédeas dos nossos impulsos generosos. Nesse filme da diretora dinamarquesa Lone Scherfig, ela traz personagens que fazem o bem sem esperar retribuição, apenas porque existe empatia com o sofrimento alheio.

Mas não pensem que se trata de um filme piegas, nem adocicado.

A diretora do filme também escreveu o roteiro que é perfeito. É um filme coral, como dizem os franceses, no qual várias histórias se cruzam, tecendo uma rede que une todos os personagens.

Uma cadeira jogada pela janela por um rapaz bravo, torna-se o centro das atenções dos filhos de Clara (Zoe Kazan, atriz maravilhosa), que fugiu de casa no meio da noite e atravessou a ponte para Nova York. A mãe e os filhos nunca haviam estado na cidade que os acolhe. Os meninos estão animados. Não entendem a situação de sem teto em que estão metidos. Pensam que estão de férias. A cadeira vai aparecer de novo e será um bom augúrio para Clara.

Ela procura o pai de Richard (Esben Smed), marido dela, que não quer ajudar Clara. Acha que ela tem que voltar para o filho, policial violento, que surrava as crianças.

Dada a situação, Clara vai ter que se virar. Vai encontrar pessoas que não conhece e de quem não espera grande coisa.

Em um restaurante russo, Clara rouba comida para os filhos. O dono, Timofey (Bill Nighy) vai ser um dos personagens gentís na vida de Clara.

Outros vão aparecer. Andrea (Alice Riseborough), que é enfermeira num hospital e tem um grupo de ajuda numa igreja e Marc que leva um amigo advogado para esse grupo. Tem também Jeff (Caleb Landry Jones), que foi quem jogou a cadeira pela janela quando foi despedido.

O restaurante russo vai ser um dos cenários principais, onde vão acontecer os encontros de Clara com as pessoas que vão ajudá-la por pura bondade.

O filme vai ter um ritmo emocional de acordo com o que acontece. Há momentos de puro deleite e outros em que ficamos com pena dos personagens. E torcemos pelos pares amorosos que se formam.

Mostrar o melhor das pessoas é a proposta desse filme.

E “Um Inverno em Nova York” aquece nossos corações fazendo isso. Não deixe de ver.

Memórias de Verão

“Memórias de Verão”- “Geçem Yaz”,Turquia, 2021

Direção: Ozan Açiktan

Quase todo mundo se lembra da própria adolescência com saudades. Éramos belos, divertidos, vivíamos numa turma de amigos. Tudo eram risadas e um mal estar escondido.

É sobre essa ambiguidade que o filme do diretor turco Ozan Açiktan, 43 anos, se debruça. A camara tem imagens do alto, nas quais o mundo parece tão imenso e as pessoas uma coisinha à toa. E closes que mergulham no escuro dentro de seus personagens. Lá estão as dúvidas, os medos, as inseguranças, a tentação de acabar com tudo, o outro lado da vida sem preocupações aparentes.

O sol é onipresente nas praias e no mar azul de Bodrum, às margens do mar Egeu, em 1997. Não era um lugar sofisticado. Ao contrário.  A natureza permanecia intocável, as casas antigas e sem luxos. Os bares se aproveitavam do escuro da noite e da luz das estrelas para os embalos de todas as noites. Bebia-se muito e rolavam baseados.

Deniz (Faith Berk Sahin), que tem 16 anos, chegou com o pais e a irmã mais velha Ebru (Asilhan Malbora). Por dentro agitado, Deniz vai rever o amor de sua infância, Asli (Ece Çesmioglu), amiga de sua irmã, loirinha e atrevida. Segura de si. Pelo menos parece.

Sabemos como as meninas amadurecem mais cedo do que os meninos e Ali vive com o pai e vê a mãe muito pouco. Não sabemos o porquê.

Quando se reencontram, depois de muito tempo, ele parece uma criança e ela uma mulher adulta.

“- Você cresceu! As bochechas sumiram!”, diz ela.

E ele fica sem graça. Tinha sonhado com esse momento e aconteceu tudo diferente. Deniz se encolhe em sua timidez.

Na piscina do clube ele nada muito bem e é elogiado. Mas as conversas entre os amigos tem outro assunto:

“- Perdeu a virgindade?” pergunta um deles.

“- Eu não.  E você?”

O sexo borbulhando, hormônios exaltados e onde está a coragem de enfrentar a primeira vez? É como pular daquela rocha alta sobre o mar. Quem se atreve?

Deniz vai acabar pulando e percebe sua autoestima crescer e a confiança em si mesmo aumentar.

O pulo da infância para a idade adulta também se anuncia mas não é fácil nem obrigatório. Vai depender da vontade de enfrentar os perigos do mundo e do amor. É preciso poder fazer o luto pelo corpo infantil e ver os pais com outros olhos.

O filme de Ozan Açiktan é delicado e não tem tragédias para mudar o rumo da história. Tudo se passa com simplicidade e é internamente que o mundo pode ser visto como perigoso.

Trata-se de um filme de passagem de uma fase da vida, que não volta nunca mais, para outra com mais responsabilidades. Não há idade certa para isso acontecer.

E como o tempo passa rápido, 1997 parece longe para os que viveram o verão em Bodrum ou Ipanema.

E as memórias? São subjetivas. Cada um com a sua.

E entendemos a última frase de Deniz, voltando para a cidade:

“- Só não quero me esquecer.”