O Inocente

“O Inocente”- “El Inocente”, Espanha, 2021

Direção: Oriol Paulo

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Essa é uma daquelas séries que deixam o público amarrado. Por que? Em seus 8 episódios, temos uma história com muitas reviravoltas, sexo, atores que são escolhidos a dedo para combinar com seus personagens, direção impecável e produção empenhada nos mínimos detalhes. Os espanhóis tem mostrado talento nas séries e filmes que tem nos proporcionado no streaming.

“O Inocente” já caiu bem no gosto do público, mal estreou, porque o ritmo encontrado foi perfeito, fornecendo uma forte gama de segredos aos diversos personagens, apresentados um a um, com esmero. E quanto suspense! É daquelas series que é melhor não saber nada antes de ver.

A primeira cena já aguça nossa curiosidade. Um rapaz olha a câmara. Tem o seu cabelo sendo raspado. Seu rosto está acabrunhado. Onde está? O que aconteceu?

Mateo Vidal (Mario Casas), um cara sensato, ótimo estudante de Direito, estava numa boate com o irmão e um grupo de amigos, quando na saída, antes dos outros, percebe uma garota bonita dançando e flertando com ele. Ele vai e aceita dançar com ela. Mas logo viu um outro se aproximando, que devia ser o namorado e foi se afastando.

Sai à rua e começa a confusão. Dois grupos vem atrás dele e se enfrentam aos socos e empurrões. Muita testosterona, drogas e bebida.

E foi um ponto final na vida tranquila de Mat. Um empurrão dele num dos rapazes fez um estrago mortal. Dani caiu e bateu a cabeça na guia da calçada. Morreu ali mesmo. Acusado por homicídio culposo (quando não há a intenção de matar), Mateo Vidal foi condenado a 4 anos de prisão.

A vida na cadeia não foi fácil para Mat, que nunca voltou a ser o mesmo. Vemos sua expressão ficar dura e seus ombros, agora musculosos, indicarem que ele carrega um peso grande nas costas. Mas por que? Ele sabe que a morte de Dani foi um acidente. Não queria sua isso. Algo mais deve ter acontecido.

Enquanto estava preso, Mat sofre grandes perdas na família e quando é solto leva muito tempo para se refazer. Havia uma garota que ele conheceu quando teve licença para sair por causa da morte dos pais num acidente. Passaram juntos uma noite na praia. Oito anos depois, eles se reencontram por acaso.

Olivia Costa (Aura Garrido), uma bela garota de olhos claros e óculos, tinha voltado aos seus cabelos escuros naturais. A morena foi a responsável pelas mudanças em Mat. Apaixonados, eles esperam um bebê e decidem casar-se.

Mas não havia terminado ali o calvário de Mat. Olivia vai desaparecer e ele vai procurar por ela enfrentando tudo e todos que parecem surgir de seu passado.

Baseado no livro de Harlan Coben, adaptado pelo diretor Oriol Paulo (“Um Contratempo”), Guillan Clua e Jordin Vallejo, o roteiro traz muitos personagens interessantes à cena, cada qual com seu segredo e suas mentiras, quando não perversões.

Somos arrastados com Mateo aos mais diversos cenários onde pessoas eram, no passado, muito diferentes do que se tornaram depois.

A minissérie encomendada pela Netflix merece ser vista por quem gosta de suspense e de observar a natureza humana em seus piores e melhores momentos.

É uma história que mistura elementos agressivos e compassivos. Vingança e perdão. Exploração do sexo das mulheres e romance. Heróis e vilões. Tem de tudo, mas bem amarrado e nada fica sem explicação.

Por falar nisso, prestem bastante atenção à cena final.

A Última Nota

“A Última Nota”- “Coda”, Canadá, 2019

Direção: Claude Lalonde

“- Sem música nossa vida seria um erro, ” diz a voz da narradora que continua, “os filósofos alemães tendem ao exagero mas isso faz sentido. Tentei ser pianista… até perceber que tocar piano frente a um auditório, principalmente com milhares de pessoas, é colocar-se num lugar de extrema fragilidade. “

E vemos o pianista famoso internacionalmente, Henry Cole (Patrick Stewart), tocando para uma plateia atenta. Vestido num fraque impecável, com agilidade e força, ele executa o final de uma peça difícil.

Angustiado, ele se precipita para fora da sala e acende um cigarro. Respira fundo. Atrás dele vem correndo seu agente:

“- O que aconteceu? ”

“- Você se dá conta do que é tocar para tanta gente? Não vieram apenas para ver alguém tocar. Eles vieram por causa do perigo que eu enfrento. Vem para ver a tragédia do erro. “

Fragilizado, ele ouve a ovação da multidão. E volta para terminar o concerto.

No camarim, pessoas o esperam. Ele nota a moça bonita e jovem (Katie Holmes) que chega por último. E ela pergunta:

“- Por que a “Fantasia”? É porque se trata de um grito de desespero depois que ele se separou de Clara? “

Ele a olha com intensidade e diz:

“- Sabe o que Schumann respondia quando perguntavam isso para ele? Ele sentava no piano e tocava outra vez. ”

“- É verdade que o senhor não tocou por três anos? ” questiona outro dos presentes.

Foi a gota d’água. Ele sai irritado sem responder.

Quando volta ainda sem folego, batem na porta delicadamente. Ela entra e diz:

“- Meu nome é Helen. Desculpe por minha pergunta. Sou jornalista do New Yorker. Mas não quis me intrometer…”

“- Música nunca é sobre desespero. É uma celebração. Uma vitória. “

E vamos ver aquele homem importante e reservado, viúvo recente, aceitar que Helen, muito mais jovem que ele, entre em sua vida para ajudá-lo a se recuperar da tristeza do luto.

Belas locações em Nova York, Londres e principalmente uma cidadezinha nos Alpes suíços, Sils, que Helen apresenta para Henry. E ela conta do lago azul e de suas caminhadas em torno a ele.

Foi lá, diz ela, que Nietzsche se inspirou e construiu a ideia, olhando uma determinada rocha, do “eterno retorno”. O que leva Helen a se perguntar, como a narradora do filme, se o filósofo queria dizer que tudo se repete sempre ou que a vida de todos tem um ápice e quando lá chegamos está na hora de começar a viver outra vida?

Na cena final é o pianista Serhyi Salov que ouvimos tocar. Henry depois do concerto vai ao lago, encontra a pedra de Nietzsche, senta-se num banco e recorda a vida. E nós com ele.