O Destino de uma Nação

“O Destino de uma Nação”- “The Darkest Hour”, Reino Unido, 2017

Direção: Joe Wright

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Tudo o que vocês vão ver vai se passar no mês de maio de 1940, em Londres. Ali será o palco onde vão ocorrer fatos importantes nos bastidores de Segunda Guerra.

A Inglaterra e a França estão perdendo a guerra para os alemães e seus tanques, que encurralaram soldados ingleses e franceses nas praias de Dunquerque, sob pesada artilharia aérea e em terra.

Dada essa situação angustiante, muitos imaginam que não será difícil uma invasão alemã na ilha da Grã Bretanha. É o horror.

O filme de Joe Wright concentra-se então no braço de ferro que o Parlamento enfrenta. De um lado o Primeiro Ministro Neville Chamberlain (Ronald Pickup), perde a confiança de seus pares e é obrigado a renunciar ao cargo. De outro, o político Wiston Churchill (1974-1965), do partido conservador, consegue o apoio do partido liberal, o que o qualifica para o posto de Primeiro Ministro.

Seu nome é o único capaz de agregar o Parlamento.

Assim sendo, em 10 de maio de 1940, vemos ele de robe, em sua cama, tomando seu reforçado café da manhã, já empunhando o famoso charuto e assustando a nova secretária Elizabeth Layton (Lily James, ótima).

A interferência de Clemmie (Kristin Scott-Thomas, sempre excelente), mulher de Churchill, foi essencial, não só para manter a secretária mas para ele ser levado a perceber como o estresse dos últimos dias o tinham transformado num ser rude e grosseiro.

Ora, comenta ela com graça, afinal chegara o dia que ele esperava desde criança. Era hora portanto de celebrar e fazer o que ele sabia fazer tão bem.

O ator Gary Oldman, impressionante nos detalhes da movimentação corporal, fala e maneirismos de Churchill,  merece todos os prêmios que já ganhou e ainda vai ganhar.

Na verdade é sobre o personagem que ele interpreta com tanta perfeição que se concentra o filme.

Vamos ver como ele consegue ter a ideia de salvar 300.000 soldados, condenados à morte nas praias de Dunquerque. Manda recrutar a frota civil, todos os barcos disponíveis, para a evacuação dos soldados, que não era possível de outra forma. Churchill consegue transformar assim, essa derrota na guerra em uma vitória pessoal.

O filme de Chistopher Nolan, “Dunkirk” mostra com arte esse episódio conhecido como Operação Dínamo.

Churchill, em sua hora mais escura, ou seja, sendo pressionado a assinar um tratado de paz com Hitler, mostrou a todos uma força interior que o sustentou, não sem dificuldades.

Ele abomina o tirânico Hitler, que já se considera dono da Europa e vai dobrá-lo. Isso exigiu um grande esforço e sofrimento para os ingleses. Cruelmente bombardeados, passando por horrores e perdas imensas.

Mas a ilha recusou-se à entrega sem luta. E isso se deve às posições adotadas por Churchill, que conseguiu vencer os que acreditavam que o tratado de paz era a melhor saída.

Com o apoio do rei George VI (Ben Mendelsohn, maravilhoso), que passa para o seu lado, Winston Churchill ficou para sempre reconhecido como a figura mais importante na vitória dos Aliados sobre Hitler e a Alemanha nazista.

“O Destino de uma Nação” é um bom filme que ensina às novas gerações fatos que talvez desconheçam e que mostram a coragem e o patriotismo de um líder que não se deixou abater e que salvou o mundo ocidental e seus valores democráticos.

120 Batimentos por Minuto

“120 Batimentos por minuto”- “120 Beats per Minute”, França, 2017

Direção: Robin Campillo

Não é um filme fácil.

O assunto ainda é tabu, não só no Brasil. Mas o cinema também se ocupa em mostrar coisas que não queremos  ver. E, se consegue fazer isso com o tato e a delicadeza necessárias, alcança sempre um maior público.

Esse filme do diretor franco-marroquino Robin Campillo ganhou o prêmio da crítica no Festival de Cannes 2017.

E foi merecido porque Campillo consegue mostrar o ativismo da comunidade gay na França nos anos 90, através da Act-up. O trabalho deles foi essencial para melhorar o tratamento da AIDS no país e sua prevenção.

Nem todos os ativistas eram sopositivos mas assim eram vistos pela sociedade maior, preconceituosa contra a homossexualidade, chegando a pensar que a AIDS seria um castigo, dada a liberdade sexual praticada pelos rapazes gays.

Claro que esse modo de pensar é falso. Porque se doença fosse castigo e os que bebem e morrem de câncer no pâncreas e os que fumam e morrem também dessa doença no pulmão? Castigados todos?

Então a Act-up, organização da qual o diretor e roteirista fez parte, documenta suas ações em prol do aumento da pesquisa e melhor distribuição de medicamentos, para lidar com a epidemia de AIDS na França no começo dos anos 90. Seus atos, bem agressivos até, eram dirigidos contra o governo e as companhias farmacêuticas. Não seriam ouvidos e nem levados a sério se não fosse desse modo. Acabavam quase sempre sendo presos mas marcavam sua presença e sua luta.

Mas o filme não se restringe a mostrar o ativismo da Act-up. E essa é a sua força. Porque quanto mais humana fica a história, envolvendo pessoas na sua vida íntima, maior é a conversa e o impacto com o público.

Claro que é essencial que haja empatia e que se possa encarar a homossexualidade de forma não preconceituosa para poder deixar-se envolver.

Assim, o filme conta a história de um casal que se forma durante as assembleias da Act-up.

Nahuel Pérez Biscayart é Sean, rapazinho alegre, esperto, que se comunica muito bem com os outros ativistas. E Arnaud Valois faz Nathan, um pouco mais velho que Sean e que não tem AIDS. Eles vão viver amizade, companheirismo e uma história de amor.

É duro acompanhar o calvário de Sean quando a doença se instala plenamente e faz sofrer.

O companheiro Nathan ajuda com carinho e conquista o espectador, que se dá conta de que existem muitas formas de amar e que ver uma pessoa amada morrer é uma das piores coisas que pode acontecer a alguém.

Um sonho de Sean mostra o Sena se transformando num rio de sangue, metáfora bela e triste para o que acontecia com ele e muitos outros jovens.

“120 Batimentos por Minuto” é realista e faz pensar não só na morte do outro mas também na nossa. Isso é difícil mas salutar.