À Procura

“À Procura”- “The Captive”, Canadá, 2014

Direção: Atom Egoyan

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Pedofilia é tabu. Assunto difícil de ser tratado num filme, sem que haja um apelo quase irresistível para mostrar imagens que chocam. Não é o caso de Atom Egoyan, diretor que consegue falar de inocência roubada com delicadeza. Em “À Procura”, há inclusive uma tentativa sincera de alertar para o problema, sem tapar o sol com a peneira.

Aquele pai desesperado (Ryan Reinolds), que deixou a filha no carro, no fim de um dia gelado nas montanhas canadenses, para vê-la desaparecer sem deixar vestígio, causa pena. Ele foi comprar uma torta para o jantar, depois de pegar Cassandra no ensaio da dupla de patinação com o  amiguinho Albert, quando o inesperado drama começa.

E pior. Ninguém acredita nele. A mãe de Cass (Mireille Enos) culpa o marido de ter abandonado a filha e a polícia desconfia dele. Seu negócio vai mal, ele está falido, não pode ter vendido a filha para gente inescrupulosa?

Participamos do calvário do pai porque somos os únicos a ver Cassandra (Alexia Fast) nas mãos de uma rede bem organizada de pedófilos na internet, que tem entre seus membros, pessoas importantes da sociedade local.

Em “flashbacks”o diretor conta a história de Cassandra, 10 anos de idade, uma bela menina loura que se transforma, 10 anos depois, em uma mocinha sem brilho, tristonha, que faz tudo que seu dono (Kevin Durand) manda fazer. Como já não interessa sexualmente, Cassandra desempenha o papel de aliciadora de novas crianças pela internet.

Vemos na tela, menos em Cassandra e mais em outra moça que trabalha para a rede de pedofilia, o que tecnicamente é conhecido como “Síndrome de Estocolmo” e que tem esse nome desde 1973, quando sequestraram funcionários de um banco na Suécia. Mantidos presos no cofre, enquanto os sequestradores conversavam com a polícia, os sequestrados passaram a mostrar simpatia por seus algozes, rejeitando inclusive o auxílio do governo,  mostrando-se mesmo ligados emocionalmente aos que os aprisionavam, defendendo-os até.

A hipótese mais aceita para esse tipo de comportamento é a entrada em cena de um mecanismo de defesa, estudado pela psicanálise, conhecido como “identificação com o agressor”. O trauma da vítima transforma-se em uma ligação emocional com o seu algoz, numa tentativa de eliminar o perigo. Colocada numa situação de total impotência, a vítima tende a transformar seu agressor na figura de uma mãe poderosa, com direito à vida e à morte, mas que poupa sua vítima. O temor extremo transforma-se em uma espécie de laço amoroso.

Em seu filme, Egoyan trata todos os personagens com a mesma dureza. Ninguém escapa. Todos ficam presos na história de Cassandra e não vivem suas vidas. O pai, a mãe e até a própria polícia, na pele da investigadora Nicole Dunlop (Rosario Dawson) e do detetive Jeff ( Scott Speedman).

Atom Egoyan, 54 anos, filho de pais armênios, nascido no Egito, vivendo no Canadá, é o diretor do brilhante “O Doce Amanhã – The Sweet Here and After”1998. Em “À Procura” não mostra o mesmo desempenho mas consegue realizar um filme interessante que faz pensar nos perigos do progresso, quando novas tecnologias são usadas por gente do mal.

Michael Kohlhaas – Justiça e Honra

“Michael Kohlhaas – Justiça e Honra”- “Michael Kohlhaas”, França, 2013

Direção: Arnaud de Pallières

É raro vermos um filme como esse.

Adaptação de um romance escrito em 1810 pelo alemão Heinrich Von Kleist (1777-1811), lançado no Brasil pela Civilização Brasileira, faz o público viver o ambiente do século XVI na Europa.

Quase sentimos o rude toque das roupas pesadas em nossa pele, o vento no rosto ao galopar pelas colinas em meio à neblina, o cheiro dos cavalos nas estrebarias, o calor do fogo das tochas e flechas incendiárias, o medo e o destemor que habitam  o ser humano.

O romance colocava a ação na Alemanha, dividida em vários estados entregues à nobreza. O filme faz a história deslocar-se para a França, na região do Languedoc, sob a princesa Marguerite de Angoulême, Rainha de Navarra, irmã do rei de França (Roxane Duran), uma das primeiras mulheres da literatura francesa.

Michael Kohlhaas, um comerciante de cavalos, leva uma tropa para a feira, quando é confrontado por um servo de um barão, que exige que ele pague pedágio pela passagem por aquelas terras.

Indignado, porque sabe que a cobrança é ilegal, mas cortês, Kohlhaas deixa dois cavalos negros magníficos como garantia e um de seus servos para cuidar deles e sai em busca dos papéis exigidos.

Quando volta, seus cavalos foram tão maltratados, assim como seu servo, que Kohlhaas fica furioso.

Homem de princípios rígidos, ele exige reparação. E aí começa uma disputa judicial complicada, porque o barão, homem influente, conduz o processo a seu favor.

A mulher de Kohlhaas, Judith, bela e apaixonada pelo atraente homem que a desposou, vai interceder por ele junto à princesa mas é também tão maltratada pelos soldados, que morre ao voltar para casa. Sua filha pequena Lisbeth (Mélusine Mayance) e o pai e marido amoroso, a enterram com seu vestido novo, aos pés da casa de pedra onde habitam.

Revoltado, Kohlhaas resolve fazer justiça com as próprias mãos. Reune um exército informal de camponeses, comerciantes e homens sem posses e lidera uma guerra contra a cidade da princesa. Sua sede de vingança é seu guia.

Há um encontro de Kohlhass (que lê a Biblia traduzida) com Lutero, onde o dissidente da Igreja Católica primeiro o condena, depois o apoia.

O filme conta uma história sobre o conflito entre o que um homem de princípios sente em seu interior, quando se vê injustiçado e o que prevê a lei dos homens.

Mads Mikkelsen, o magnífico ator dinamarquês, com sua presença carismática, não poderia ser um melhor Michael Kohlhaas.

O diretor, Arnaud de Pallières, 53 anos, assina um filme de uma beleza incrível, com muitos “closes” fechados sobre os rostos dos personagens, que fazem o espectador ficar muito próximo do que se passa no íntimo deles, além de uma reconstituição de época deslumbrante, sob uma luz solar intensa e um escuro sombrio, que refletem com esplendor, a ambiguidade do tema.

Raro mesmo.