A Comunidade

“A Comunidade”- “Kollektivet”, Dinamarca, Suécia, Holanda, 2015

Direção: Thomas Vinterberg

Oferecimento Arezzo

Um professor de arquitetura (Ulrich Thomsen), Erik, herda do pai um casarão perto do mar, em Copenhague. Ele pensa em vender o imóvel, dado o alto custo de manutenção. Mas sua filha adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansen) adorou a casa e sua mulher, a apresentadora de televisão, Anna (Trine Dyrholm, fantástica), convence o marido a convidar pessoas interessantes para viver com eles em comunidade e assim dividir as despesas.

Ela não esconde uma certa monotonia na vida do casal e pensa que o convívio com novas ideias iria oxigenar o ambiente familiar.

Dito e feito. E os convidados começam a chegar. Cada um tem um motivo para querer mudar para a casa aprazível.

Estamos nos anos 70 e há uma atmosfera “hippie” no ar, “faça o amor não a guerra” e um gosto por roupas diferentes das tradicionais. Todo mundo quer ser jovem e feliz.

No começo, a convivência na comunidade é alegre e festiva. Canta-se muito, há banhos em pelo no mar gelado, muita bebida, comida e cigarros.

O primeiro sinal de que algo não vai bem ou que a vida é cheia de surpresas mesmo, atinge o habitante mais jovem da casa, um menino de 6 anos, que tem um problema cardíaco e desfalece em plena noite de Natal.

Todos sabiam dessa doença da criança mas, o próprio pai brincava dizendo que ele contava essa coisa de que não ia viver muito para atrair e interessar as meninas.

Havia algo de errado naquelas pessoas da comunidade. Uma alegria forçada que não combinava com a realidade.

O roteiro escrito pelo diretor e por Tobias Lindholm (os mesmos de “A Caça”, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro), inspira-se nas experiências do próprio Thomas Vinterberg, que cresceu numa comunidade “hippie”.

Talvez, por isso, a personagem da menina adolescente pode ser um alter-ego do diretor e personifique mesmo a peça fundamental de toda a história, já que ela descobre o amor justamente quando vê o casamento de seus pais desmoronar. Ela observa os adultos e começa a vida amorosa com medo de sofrer.

Os atores principais, excelentes, protagonizaram o filme mais famoso de Thomas Vinterberg, do movimento Dogma, “Festa em Família” de 1998 e são o principal foco do filme.

Anna, que era a que mais queria viver a ideia de comunidade, é a que é mais prejudicada, já que o marido não embarca como ela nessa aventura. De repente, sua vida foge do seu controle e ela tem que enfrentar o fato do passar dos anos.

“A Comunidade” sugere uma reflexão de que a vida não é o que se sonha e que quanto maior for a idealização, maior o sofrimento e a decepção.

Um filme menor de Thomas Vinterberg mas digno de nossa atenção.

O Bom Gigante Amigo

“O Bom Gigante Amigo”- “The BFG”, Estados Unidos, 2016

Direção: Steven Spielberg

“- Todas as coisas ruins saem de seus esconderijos e o mundo é delas”, diz às 3 da manhã a pequena Sophie (Ruby Bamhill), a órfã insone, que zanza pelo orfanato embrulhada em sua colcha de retalhos e seu gato e aproveita sua insônia para ler um livro de Dickens com uma lanterna. De óculos vermelhos, ela acredita que é às 3 da madrugada que é a hora das bruxas e não meia noite como todo mundo pensa.

E, curiosa, abre a janela e olha a rua escura londrina, onde bêbados fazem algazarra. Sophie ameaça chamar a polícia e eles correm. Ela tem autoridade.

Mas o que é aquela sombra enorme que se aproxima?

Sophie volta para a cama correndo.

Mal sabe ela que aquilo que se aproxima de sua janela vai levá-la para viver grandes aventuras.

Com sua enorme mão, o gigante carrega a menina apavorada em sua colcha, para uma terra misteriosa, escondida nas nuvens.

Nós, na plateia, vemos, maravilhados, todos os detalhes daquela enorme criatura, de pés gigantescos e orelhas imensas (que ouvem todos os sussurros da noite), o Grande Gigante Amigo (na voz e alguns traços de Mark Rylance, Oscar por “Ponte dos Espiões”, também de Spielberg), que é a alma do filme.

Primeiro assustada mas logo encantada, Sophie e BFG ficam amigos. No fundo, os dois solitários adoram ter a companhia um do outro. E Sophie, que pensava que todos os gigantes do mundo comiam crianças, aliviada percebe que BFG, ao contrário dos outros, adora crianças.

Emocionada, escuta seu novo amigo contar a história do menino que morava naquela casa e que teve um triste fim por causa dos outros gigantes, muito maiores do que ele, que habitam a Terra dos Gigantes e dormem debaixo da grama.

BFG, ao contrário dos outros, é vegetariano e gentil e sua profissão é caçar sonhos e colocá-los em garrafas onde cintilam em cores variadas. Guardados em prateleiras no seu laboratório, depois são soprados por BFG nas crianças que dormem.

Steven Spielberg, o mágico diretor de filmes para crianças, que os adultos adoram, mistura pessoas de verdade com figuras animadas por tecnologia e cria um mundo de fantasia e beleza em seu novo longa.

Há o medo e o horror na figura dos gigantes maus mas há também delicadeza, espiritualidade e encantamento, especialmente quando visitamos a grande árvore e o lago dos sonhos, com Sophie e o gigante.

O humor aparece nas piadas sobre, digamos, os efeitos da digestão e no final do filme, quando Sophie leva seu amigo grandão para falar com ninguém menos que a Rainha Elizabeth II (Penelope Wilton de “Downton Abbey”).

O filme é dedicado a Melissa Mathison que faleceu depois de escrever o roteiro, adaptado do livro de Roal Dahl de 1982, com a mesma poesia que havia no seu roteiro para “E.T.”

John Williams, responsável pela música do filme, como sempre, um mestre do som que comanda emoções.

Saimos do cinema ainda em transe, com as imagens fascinantes que acabamos de ver. Tudo funciona às mil maravilhas, principalmente o tema da amizade que une Sophie e o BFG, criaturas tão diferentes no tamanho mas tão parecidas no amor que sentem em seus corações.