A Pedra de Paciência

“A Pedra de Paciência”- “Syngué Sabour” Afeganistão, França, Alemanha, Reino Unido, 2012

Direção: Atiq Rahimi

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Conta uma velha lenda afegã que, se alguém encontrar uma pedra mágica e, se esse alguém contar para ela todos os seus sofrimentos e segredos, a pedra vai escutar. E, um dia, arrebentará. Vai desfazer-se em pedacinhos. E, nesse dia, quem a encontrou e falou com a pedra, vai se libertar de todas as suas dores.

Presa da guerra na qual seu marido foi ferido com uma bala na nuca e, desde então dependente dela, já que seu estado é vegetativo, aquela jovem e bela mulher está sempre a seu lado, na casa humilde, igual às outras, num quarteirão da cidade semi-destruída.

No Afeganistão (imagina o espectador, já que o lugar não é nunca nomeado), agora são as milícias armadas de metralhadoras, tanques e bombas que amedrontam a população, que foge de suas casas.

Ela não pode sair de perto dele. Mas leva suas duas filhas para a casa da tia, que virou prostituta, depois de ser repudiada pelo marido por ser estéril.

A sobrinha e a tia são mulheres que não tem voz, num lugar onde mandam os homens, que tem direitos até sobre a vida delas. Casam-se muito jovens, com homens mais velhos, escolhidos por seus pais e vão morar na casa dos pais dele. Se não conseguirem ter filhos, seus maridos pegam uma segunda mulher e elas são abandonadas ou servem como criadas na casa da sogra.

Vamos ser as únicas testemunhas do longo monólogo que a mulher sem nome vai entoar, dirigindo-se ao marido que está de olhos fechados. Sua respiração é o seu único sinal vital.

Quando ela sai, coloca a burca amarela e esgueira-se entre os escombros para comprar soro e colírio para o marido ou visitar as filhas na casa da tia.

A jovem tem um belo rosto, olhos tristes e uma boca que nunca sorri.

A bela e talentosa Golshifteh Farahani, a mais famosa atriz iraniana, de 31 anos, vive fora de seu país, onde moram seus pais e para onde pensa nunca mais voltar. Ela mora em Paris, por quatro anos já no exílio e filma nos Estados Unidos e na Europa. Ganhou fama com o filme “Procurando Elly” de 2009, do premiado diretor iraniano Asghar Farhadi de “Separação”.

Em “A Pedra de Paciência” ela faz essa mulher que, cansada de rezar pela recuperação do marido inconsciente, como manda o mulá, inicia uma conversa com ele, onde fala de seus sofrimentos com a brutalidade dele e de seus segredos mais íntimos. Abre sua alma e seu corpo. Ele vira a pedra de paciência dela.

O filme é baseado no romance que o diretor afegão Atiq Rahimi, de 52 anos, escreveu. Ele nasceu em Cabul mas vive há tempo em Paris e ganhou o Goncourt, o mais famoso prêmio de literatura da França, em 2008, por “A Pedra de Paciência”.

O roteiro do filme foi escrito por Rahimi em parceria com Jean-Claude Carrière, 82 anos, que foi colaborador de Luis Bunuel.

“A Pedra de Paciência” é um filme que marca por causa de sua tristeza e beleza comoventes.

Lucy

“Lucy”- Idem, França, 2014

Direção: Luc Besson

Intrigante e belo, mesmo quando é muito violento. Assim é “Lucy”, o novo filme do diretor francês, 55 anos, Luc Besson.

Uma célula se dividindo é a primeira imagem na tela. As esferas brilham e se interpenetram. Em “off” uma voz de mulher pergunta:

“- A vida começou há um bilhão de anos. O que fizemos com ela?”

Cenas de grandes metrópoles com muita gente apressada nas ruas, tráfico pesado, cacofonia de ruídos. Na noite, luzes, música berrando, bebidas, drogas. Excitação.

As cenas se passam ora em Taiwan, envolvendo Lucy, ora em Paris, onde o professor Norman faz uma palestra.

“- Você sabia que a primeira mulher chamava-se Lucy?” pergunta um cowboy que tenta convencer uma bela loura a entregar uma maleta. Ela se recusa e ele acaba algemando a maleta no pulso dela.

Aturdida, ela cai sob o domínio de uma gangue de traficantes de Taiwan. Uma droga, de uma bela cor turquesa, será contrabandeada para capitais da Europa, de uma forma violenta e cruel.

Lucy vai passar por experiências terríveis e ao mesmo tempo inefáveis.

O professor em Paris pergunta aos alunos:

“- Vocês sabem que não usamos todo o potencial de nosso cérebro? O golfinho usa e desenvolveu um radar perfeito.”

Na tela vemos cenas da natureza. Animais seguindo seus instintos de caça e procriação.

“- Fomos os únicos a desenvolver cultura”, continua o professor, “mas paramos de usar o potencial do nosso cérebro. A evolução precisa de uma revolução.”

 Enquanto ele expõe suas teorias a alunos atentos, Lucy é exposta à droga que colocaram dentro de seu corpo, num recipiente que estoura.

Uma extraordinária experiência vai começar para ela. Lucy vai ser o primeiro ser humano a experimentar o total uso de seu cérebro, efeito da droga desconhecida. Vai se tornar uma super- mulher. Não vai ser fácil mas será fascinante assistir a isso.

Scarlett Johansson ( “Ela”, “Sob a Pele”) atua  com intensidade, sensualidade e talento para convencer a plateia sobre o que acontece em seu corpo.

E Luc Besson cria mais uma de suas heroínas (“Nikita”e “O Quinto Elemento”) com suspense, ação, violência e imagens deslumbrantes.

O filme explora de forma superficial e lúdica teorias da nova Física e mesmo ideias da psicanálise, como por exemplo a existência de um inconsciente coletivo em todo o ser humano, que o conecta a toda a história da humanidade.

Lucy vai experimentar uma nova realidade psíquica, telepatia, levitação, ação à distância com o pensamento, acesso às memórias alheias e às próprias, as mais antigas. É comovente sua conversa pelo telefone com a mãe.

Ela se transforma rapidamente e, com mais droga em seu corpo, ao conseguir usar 100% da capacidade de seu cérebro, vai nos aturdir com uma genial viagem no tempo.

O filme vai agradar a quem gosta de divertir-se com novas ideias e especular sobre a natureza humana.

Além disso, é um filme bonito de se ver, os efeitos especiais são muito bem usados e a dupla Scarlett Johansson e Morgan Freeman é muito competente.