Dukhtar

“Dukhtar”- “ Daughter-Filha”, Paquistão, 2014

Direção: Afia Nathaniel

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Um rio de águas azuis leva numa canoa vermelha uma mulher vestida de rosa, com longos cabelos escuros. Ela olha a estrada brilhante que o sol ilumina no rio.

Mas tudo era um sonho que faz com que ela acorde intrigada. A jovem mãe de uma menina de 10 anos, casara aos 15 com um homem bem mais velho que ela.

Assim é no Paquistão, onde duas meninas constroem uma casa de bonecas com lascas de pedras. A mesma pedra das montanhas que rodeiam aquele vale com picos nevados.

A mais jovem diz que quer ter uma casa como aquela:

“- Então você vai ter que esperar. Só mulheres casadas tem direito a ter uma casa. ”

A pequena é inocente e a maior acha que não é a hora de contar o que sabe. Diz apenas:

“- Depois de casar você também vai ter filhos. ”

“Como é que se faz um bebê? “ pergunta a pequena.

“- Isso também é um segredo. ”

Mas a menina insiste e finalmente a maior responde  que quando sua irmã casou, disse para ela que quando um rapaz olha uma moça e ela também olha para ele, um bebê começa a crescer na barriga dela.

“- Por isso seu pai não deixa você sair de casa “ acrescenta.

A aldeia em que vivem está muito longe do resto do mundo. A vida é simples e as cores que vestem as mulheres são belas como as árvores amarelas do vale. Mas a paisagem dos picos é só rocha e neve.

Infelizmente, a natureza humana é a mesma em toda a parte. E o pai da menina pequena, que é um chefe local, vai ter que seguir a tradição cruel que não leva em conta os sentimentos das mulheres.

Há uma inimizade antiga com um grupo que vive não longe dali. Muitos já morreram por causa dessa inimizade. A única coisa que pode fazer cessar uma  vingança sem fim é a filha do líder casar-se com o chefe do outro clã. A paz será selada com esse casamento.

Agora entendemos o ar tristonho da mãe da menina. Ela mesma tivera um destino igual, casando-se com um marido muito mais velho e rude, porque seu pai assim decidira.

E quando chega um amigo para visitá-los, a troca de olhares do homem bem mais jovem que o chefe e a mãe da menina, adivinhamos que vai acontecer algo inesperado. Ele aproveita um momento a sós com ela e sussurra :

“- Sei que você é infeliz. Eu queria ter pedido você em casamento mas seu pai já havia dado sua palavra… mas se ficar viúva…”

A vida das mulheres não é fácil nessas montanhas. Sofrem sozinhas e obedecem ao pai e ao marido. Aliás os homens vivem brigando, se vingando pela lei do olho por olho, são desconfiados e rudes.

Mas um ato de rebeldia pode mudar essa sequência de injustiças e crueldade.

O filme “Daughter” é singelo e além de mostrar a tradição desse povo, vai também seguir mãe filha em sua busca pela liberdade e o direito de decidir a própria vida.

Crimes de Família

“Crimes de Família”- “Crimenes de Família”, Argentina, 2020

Direção: Sebastián Schindel

Um estreito corredor de ladrilhos e ao fundo, uma porta com um visor de vidro opaco. Há alguém se movimentando lá dentro. A porta se abre e uma mulher, quase que em silhueta, sai descalça e com passos lentos. Algo obscuro e sombrio é um sentimento que paira no ar.

Em seguida, a câmera mostra os retratos emoldurados da família, distribuídos entre os móveis da sala de estar. Uma casa de classe média alta, deduzimos.

Alicia (Cecilia Roth, uma das maiores atrizes da Argentina) recebe três amigas para uma aula de ioga e chá com bolos, em sua casa. Uma delas pergunta sobre o filho de Alicia, algo que a perturba mas que não é esclarecido. Um segredo?

Depois que saem as amigas, a dona da casa vai até a cozinha, onde comenta com Gladys, a empregada, que ela deveria começar um regime:

“- Você tem que se cuidar. Olha essa barriga … Não está grávida novamente, espero. Aqui não há lugar para mais um. ”

Mas um menino de uns 5 anos, que também está na cozinha, interrompe Alicia, que chama de “Tia”, para mostrar seus desenhos. Ela responde com carinho ao pedido da criança.

Toca o telefone. É um chamado do presídio. Daniel quer falar com a mãe. Qual será o crime que cometeu?

Na próxima cena, num hospital, Gladys pede ajuda mas não é atendida. Está algemada à cama. Outro crime?

Depois vemos Alicia e seu marido (Miguel Ángel Solá) que estão visitando o filho deles na prisão. Daniel é um rapaz jovem, bonito, cabelos e olhos claros mas com um semblante angustiado. A mãe o abraça e o pai pede que conte o que aconteceu.

“- Sempre a Marcela. Sabe como ela é. Não me deixa ver o meu filho. Eu fui na casa dela e ela fez um escândalo e me denunciou. Tem aquela coisa de não poder chegar perto dela por causa da sentença do juiz…”

Entendemos que Daniel estava preso porque tinha sido acusado de abuso e tentativa de homicídio por sua  mulher, de quem estava separado. Ela o acusava também de ser viciado em crack.

O diretor Sebastián Schinel, disse em uma entrevista:

“- É um filme sobre mulheres, uma história de três mães que são capazes de tudo por amor a seus filhos.”

Schindel baseou-se em dois crimes da vida real para escrever o roteiro. Tais crimes não tinham nada a ver um com o outro, salvo a questão de “agravo pelo vínculo”, ou seja, havia uma relação íntima entre o acusado e a vítima.

Schindel continua:

“- Decidi combinar dois casos que nada tem que ver para que aconteçam na mesma família que tem como matriarca Alicia, que vai ser a protagonista involuntária desta tragédia, na qual, talvez atuando com as melhores intenções, toma as piores decisões. “

A pandemia foi a responsável pelo lançamento do filme na NETFLIX e o diretor diz ter gostado dessa chance de mostrar seu filme a milhões de espectadores.

Que terminarão de ver o filme com olhos marejados.

“Crimes de Família” é comovente.