Cenas de um Casamento

“Cenas de um Casamento”- “Scenes From a Marriage”, Estados Unidos, 2021

Direção: Hagai Levi

Oferecimento Arezzo

Hoje em dia, casamento que dura 10 anos é considerado um bom casamento estável. Mas e se um dos dois resolve que quer mais da vida, que não está convencido de ter experimentado tudo aquilo que queria viver, que a relação é até confortável mas chata?

Pois isto é o que aconteceu com Mira e Jonathan (Jessica Chastain e Oscar Isaacs, ambos maravilhosos atores), os dois em torno dos quarenta anos. Eles tinham tudo para ser felizes, sem muitos questionamentos.

O fato de Mira ser a provedora da casa parece que não é caso para mágoas entre eles. Ela é vice-presidente de uma empresa de tecnologia e tem pouco tempo para a família, a filha de 5 anos e o marido. Mas quando está em casa mima Ava e há carinho entre o casal.

Jonathan é professor de filosofia numa universidade e ótimo pai para a filha única do casal. Tem mais tempo livre e fica em casa com a menina, trabalhando em suas aulas, sempre disponível e tranquilo.

Mas, percebemos que há algo que preocupa Mira, desde o começo, quando respondem a uma entrevista sobre o casamento, para uma tese de uma aluna da universidade.

O casal vai passar por um trauma aparentemente sem consequências mas 9 meses depois foi o momento escolhido por Mira para querer por um ponto final no casamento. Jonathan é pego desprevenido e fica assustado com a súbita decisão de sua mulher.

Os dois passaram por algo perigoso sem dar a devida atenção e tempo para reflexão.

São 5 episódios com a passagem do tempo sendo percebida por detalhes como um corte de cabelo, novos interesses da filha e curiosidade sobre os novos parceiros de ambos.

Mas uma coisa é certa. Ao longo dos encontros vemos que existe ainda entre eles aquela química de antes. Mira, principalmente, mostra que deseja o marido mesmo que já esteja vivendo com outro homem.

A série da HBOMAX inspirada na do diretor sueco Ingmar Bergman dos anos 70, levanta questões importantes e que forçosamente ficam sem resposta. Não há manual para conseguir um casamento perfeito. É tudo uma questão de um jogo interno de emoções que instiga a querer ficar ou partir. E pode haver arrependimento.

É interessante notar que numa das cenas finais ouvimos baixinho a canção “Retrato em Branco e Preto” de Chico Buarque: “Já conheço os passos dessa estrada…” Não por coincidência.

O roteirista e diretor israelense Hagai Levi optou por uma solução original para cada início de episódio. Vemos os cenários e a chegada dos atores para a cena a ser filmada. E no final, os dois atores terminam e saem abraçados pelo estúdio, sorridentes, cada um indo para o seu camarim.

Seria isso um aceno para a importância da amizade e cumplicidade em um casamento como comentário do diretor? Talvez. O certo é que é difícil encontrar uma resposta à pergunta sobre como conseguir um casamento feliz.

Cada um vai ter que encontrar sua proposta.

O Lado Bom da Vida

“O Lado Bom da Vida”- “Silver Linings Playbook” Estados Unidos, 2012

Direção: David O. Russell

O que é a normalidade? O que é a loucura?

Difícil responder de forma simples. A maioria de nós habita um espaço entre essas posições. Caminhamos para cá e para lá. Alguns ficam na fronteira. E é por isso que entendemos perfeitamente como é fácil passar para o lado de lá e não voltar mais ou custar a voltar.

Quando isso acontece, remédios e terapia ajudam, claro, mas há uma variável imponderável que pertence à nossa própria posição frente à vida e seus revezes.

“O Lado Bom da Vida” é um filme que retrata pessoas que tem dificuldade em aceitar o lado ruim da vida. Rebelam-se. Surtam. Não aceitam frustrações. Perdem a possibilidade de avaliar o que está acontecendo. E não conseguindo elaborar estratégias alternativas para lidar com o acontecido, cedem a impulsos agressivos e auto-destrutivos. Vão ladeira abaixo, sem freio.

Pat Solano (Bradley Cooper, comovente) não aguentou a traição da esposa Nikki e surtou. Seu lado violento explodiu. Foi internado no manicômio judiciário e lá ficou oito meses. O filme começa quando sua mãe (Jacki Weaver) vem buscá-lo e levá-lo para a casa dos pais.

Pat, desesperadamente, quer provar para os outros que está curado, que tudo está bem e que sua ex-esposa vai perdoá-lo e voltar para ele. Mas, está proibido por ordem judicial, de aproximar-se dela.

A mãe e o pai (Robert de Niro, incrível no papel do pai parecido com o filho e culpado por não aguentar se ver nele) tentam ajudá-lo mas estão assustados e com medo por não saber como lidar com o filho desajustado. Mas tentam.

É aí que surge Tiffany, alguém muito parecida com Pat. Ela também age ao invés de pensar e se posicionar frente aos dramas da vida dela.

Jennifer Lawrence já ganhou vários prêmios com esse papel. Muito justo. Ela ilumina as cenas em que aparece, conseguindo transmitir desespero, ansiedade e aflição mas também aquele algo no seu olhar que nos leva a pensar que ela vai lutar sempre para se levantar e se equilibrar novamente.

Ela é a segunda chance de Pat.

O diretor David O. Russell trabalha com delicadeza, fazendo ora a câmara seguir os atores com a mesma pressa em que os personagens vivem, ora os mostrando em “closes” que espelham que pararam de fugir de si mesmos. É uma câmara que adiciona a dimensão do mundo interno dos personagens sem precisar de palavras.

O filme parece dizer que não basta ser otimista e ter esperança. É preciso mais. Lutar pelo que queremos e insistir frente às dificuldades. Ou mudar de ideia e de direção.

“O Lado Bom da Vida” não é drama nem comédia. Faz rir e chorar como a vida.

Afinal, não há nada de ruim que não tenha algo bom. Concordam?