O Agente Secreto

“O Agente Secreto” – Brasil, 2025

Direção: Kleber Mendonça Filho

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No prólogo, o diretor põe na tela imagens conhecidas para anunciar o ano dos fatos do filme, 1977. É o ano para o qual o filme empurra a plateia para reviver e lembrar-se do que foi aquela época.

Diga-se de passagem que não é fácil recordar-se do que se quer esquecer.

Na paisagem agreste surge um fusquinha amarelo na tela. Há um posto de gasolina. Lá o protagonista da história vai começar sua volta ao Recife, sua terra natal.

Mas há um cadáver encoberto por uma folha de jornal, perto do posto. Quem é? O que aconteceu? Perguntamos nós ao frentista. Ele responde que já se passaram dois dias e a polícia não apareceu.

Mais, que não nos preocupemos com nada porque nada disso tem a ver conosco. E eis que chega a policia com sirene ligada. E nem olham o morto. Vieram para achacar o motorista do fusca que, sincero, diz que não tem dinheiro mas cigarro serve? Sim. Qualquer coisa serve. E revistam o carro. Procurando o quê? Desolados viram que não há nada no carro.

E vamos começando a ver a história de Armando, codinome Marcelo, que procura documentos da mãe para poder fugir para longe. Está na lista de procurados.

E o filme segue, como se fosse um teatro encenando uma peça em vários palcos, cada um deles  contando a mesma história mas sem cronologia. Cabe a nós na plateia procurar e colar a história aos pedaços. Como se fosse um desfilar de lembranças. Assim o Recife dançando o frevo, o carnaval, personagens bizarros, a perna cabeluda, a gata de duas faces.

E no meio da balburdia um filho encontra o pai. E a pergunta é sobre a mãe. Onde é que ela está?

Na pensão de dona Sebastiana (a carinhosa Tania Maria) que acolhe os refugiados, pai e filho vão se encontrar e se consolar, em um cenário de muito sangue derramado.

No final, o olhar de um menino que passou por tudo isso, é vago. Relembrar tudo aquilo é mexer nas cicatrizes que ainda doem no seu coração.

Kleber Macedo nos entrega uma visão política intrigante do nosso Brasil. Um elenco brilhante, roteiro de tirar o fôlego e um inspirado Wagner Moura, merecem todos os prêmios.

Sonhos de Trem

“Sonhos de Trem”-“Train Dreams”, Estados Unidos, 2025

Direção: Clint Bentley

Uma natureza bela e intocada espera a chegada de Robert Bentley ao pequeno povoado onde os lenhadores bebem e comem, ao som de cantos e histórias. Descansam do trabalho do dia.

Estamos no início do século XX e aqueles homens vão derrubar árvores imensas para que o caminho da ferrovia se abra. As sequóias vão morrer para depois renascer.

Bentley é órfão, nunca conheceu os pais e vai adotar a vida dos lenhadores. Ele é um homem forte. Mas músculos e barba escondem um olhar doce e melancólico.

Algo incrível vai acontecer quando ele passa pela igrejinha local. Uma mulher jovem e bela vem falar com ele e assim começa o paraíso do lenhador.

Não se largam mais. Deitados na grama alta, eles seguem o por do sol, que deixa tudo dourado.

O amor uniu aqueles dois sem nenhum trabalho. Era para ser assim. E os dois se entregam à materialização, uma casa, ali ao lado do rio, que canta com águas agitadas, aprovando os planos de Robert e Gladys.

Logo serão três. E a cada ida e volta de Robert é uma alegria passear com a bebê no colo, mostrando o mundo que é só deles. Uma fotografia na cidadezinha marca esse momento feliz.

A voz do narrador vai nos contando a história do casal que se amava tanto e das idas e vindas de Robert. O lenhador lembra a lenda de Ulisses e Penelope. O sonho da volta assegura o trabalho do lenhador.

E foi assim até o dia do fogo. Ele não chega a tempo. E começa um luto pesado. Procura as duas. Ninguém as viu. Ele não acredita que sumiram e espera que voltem.

Nem quando aparecem os filhotes de cães existe consolo para aquela dor amarga. Robert abandona as árvores e vaga, procurando até não saber o que procura.

O grito final ”Por que?” ajuda a por para fora o fogo que queima por dentro. E ele pensa: ” será uma punição pela morte das árvores?”

Joel Edgerton nos faz pensar em seu destino. O ator nos chama para viver com ele alegrias e sofrimentos. Aprendemos com ele o que é um luto pesado que continua a nos levar cegamente, guiados por aquele amor que estará sempre vivo no nosso coração. De sonho em sonho, sempre conosco, revivendo na lembrança.

O filme foi indicado à lista dos melhores do Oscar 2026 e o protagonista, Joel Edgerton, ao prêmio de melhor ator.