Nostalgia da Luz

“Nostalgia da Luz”- “Nostalgia de la Luz”, França, Alemanha, Chile 2010

Direção: Patricio Guzmán

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O que podem ter em comum astrônomos, arqueólogos e buscadores de corpos de desaparecidos?

“- A célebre imagem da Terra azul vista do espaço, ostenta uma única mancha marrom: é o deserto de Atacama, no Chile”. Com essas palavras, o narrador de “Nostalgia da Luz”, o roteirista e diretor Patricio Guzmán, nos apresenta o cenário do seu filme.

Lá, conta ele, a atmosfera é límpida e permite uma melhor observação das estrelas. Por isso, aí foram construídos gigantescos telescópios, com ajuda internacional, para que um grupo de cientistas procure responder à pergunta: de onde viemos? Escutam as estrelas e esperam registrar a energia do Big Bang que, de um passado ultra longínquo, espera com seus mistérios.

E o clima ultra seco do deserto é favorável para os arqueólogos, explica o narrador, que pesquisam os desenhos de lhamas e outros personagens inscritos nas pedras desde a pré-história. Até mesmo corpos, desse povo que habitou o lugar há 1.000 anos, ficaram preservados, mumificados pelo ar seco, enterrados na areia milenar. Contam a história do passado histórico do Chile.

Mas e aquelas mulheres, que parecem tristes e desoladas, com pequenas pás cavocando o solo duro e catando pedacinhos de ossos branqueados pelo sol, que a câmera mostra? Olham para baixo, atentas, movidas por um macabro elo com o passado mais recente, dos fins do século XX.

São vítimas da ditadura de Pinochet que matou seus entes queridos. Elas procuram seus corpos. Só encontram rastros. O passado esconde seus mortos. Para onde os levaram?

Assim, diferentes passados unem astrônomos, arqueólogos e buscadores de corpos de desaparecidos no mesmo deserto de Atacama, conta o narrador.

Patricio Guzmán, 73 anos, escreveu o roteiro e dirigiu o documentário “Nostalgia da Luz”, titulo emprestado do livro do francês Michel Cassé.

Arte, ciência e política estão presentes nas imagens poéticas de nebulosas distantes, na beleza das paisagens de areias vermelhas, no espanto com as descobertas arqueológicas e no desespero calado das mulheres que procuram seus desaparecidos.

Nascido no Chile, Guzmán também é uma vítima da ditadura cruel que matou milhares de pessoas e exilou outras tantas. Ele vive na França e volta ao país natal só para filmar.

Mestre dos documentários, Guzmán figura na lista do British Institute dos 50 maiores de todos os tempos, com “Batalha do Chile” e esse “Nostalgia da Luz”.

Numa das imagens finais, observamos crateras da Lua e não percebemos a transição imperceptível para a superfície de um crânio humano, que aos poucos se revela.

O sublime e o horrendo, o deslumbramento e o pavor, se tocam de maneira magistral nesse documentário magnífico. Quem gosta de obras primas, não pode perder.

Ida

“Ida”- Idem , Polonia, 2013

Direção: Pawel Pawlikowski

 

O silêncio dentro dos muros do convento, só é quebrado pelo murmurar das orações e os passinhos leves das freiras e noviças.

É o fim do inverno e a neve tomba também em silêncio. Os preparativos para a mudança de estação incluem devolver a imagem do Sagrado Coração ao seu lugar. Nos braços das noviças, ele vai.

Para Anna (Agatha Tizebuchowska), prestes a fazer seus votos, a rotina é quebrada pela notícia que recebe da madre superiora. Ela que é orfã, e que viveu desde sempre no convento, tem uma tia que pede sua visita.

Os olhos de Anna, muito abertos, quase assustados, são o que denuncia a emoção da notícia. Mas muito mais a espera.

Wanda Cruz (Agatha Kuleska), a tia de Anna, abruptamente comenta ao vê-la vestida de hábito:

“- Então você é uma freira judia”,diz ela com ironia, fumando sem parar, um copo de bebida na outra mão, enquanto um homem anônimo se veste e sai pela porta do apartamento.

E Anna, que fica sabendo que se chama Ida e que seus pais desapareceram durante a Segunda Guerra, olha para si mesma na foto, bebê no colo de Rosa, sua mãe.

Em alguns dias, ela vai viver o que nunca sonhou viver em seus 18 anos de vida regrada e calma.

A história da família delas é trágica. E a tia precisa da sobrinha para trazer à tona um segredo.

“Ida”, já premiado na Europa e dirigido por Pawel Pawlikowski, 58 anos, nascido na Polonia e criado na Alemanha e Itália e finalmente na Inglaterra, foi indicado para o Oscar de melhor fotografia e ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar 2015.

Filmado em preto e branco, onde se vêem todos os matizes de cinzas, “Ida” mais mostra em imagens do que fala. São poucos e secos os diálogos. Muitas vezes, o recorte do enquadramento da câmera diz mais sobre o sentimento reinante do que palavras.

Sensível, tocante e tendo como assunto os traumas do Holocausto, “Ida” é também uma reflexão sobre escolhas de vida. As duas personagens tomam caminhos diferentes para se proteger daquilo que nunca vão poder esquecer.

É um filme breve e corajoso, que toca em feridas delicadas, deixadas pela violência e culpa. Mas com cuidado, pedindo a atenção e não o julgamento do espectador que tenha sensibilidade.