Um Fim de Semana em Paris

“Um Fim de Semana em Paris”- “Le Week-End”,Reino Unido, França, 2013

Direção: Roger Michell

Oferecimento Arezzo

Quem não adora Paris?

Para os britânicos é só pegar o trem em Londres e logo se chega lá.

Meg e Nick vão comemorar seus 30 anos de casados na Cidade Luz. Mas, se tudo neles é antecipação, uma nota dissonante já se faz ouvir:

“- Você está com os euros?”pergunta ela. “Você perde tudo!”

“Daqui a pouco perco você”, responde ele, meio brincando, meio sério.

Mas, quando chegam, os rostos iluminados, aproveitam do céu azul e brincam que sabem falar francês.

Na frente do hotel que reservaram, porque foi lá que passaram a lua de mel, há decepção nos olhos de Meg.

Parece que o passado traz lembranças de um outro hotel mais… Meg não sabe bem o quê.

Mas, definitivamente, a cor das paredes do quarto no último andar, por onde se sobe levando as próprias malas, por uma escada íngreme, porque ninguém ajuda, não é a mesma.

E Meg decide ir embora, Nick atrás, ouvindo as últimas desculpas e promessas do diretorzinho jovem do hotelzinho chinfrim.

Pegam um táxi e o “tour” por Paris traz novamente energia ao casal. E o Arco do Triunfo, a Place de la Concorde, a Notre Dame, tudo enche os olhos de Meg, que não se cansa de pedir outra volta ao taxista,

E, de repente:

“- Pare!”

E deixa o marido para discutir o preço da corrida com o taxista. Alguém já pega as malas.

Ela vai direto à recepção do Plaza Athenée. Uma moça elegante responde que, infelizmente, estão lotados.

 A decepção carrega o semblante de Meg mas Nick  olha todo aquele fausto e fica aliviado. Sentam-se no sofá de veludo do hall do hotel e estão trocando farpas, quando a mesma moça aproxima-se deles:

“-Vocês estão com sorte. Temos uma suíte por dois dias.”

E, do luxo da escadaria, com seus bronzes, mármores e passadeira macia, vão direto à suíte onde orquídeas, frutas exóticas e almofadas de seda os esperam. Ao sair ao balcão, a Torre Eiffel é vizinha deles:

“- É maravilhoso! Vamos brindar”, diz Meg, pegando um champagne e taças no frigobar.

“- Vai com calma…Já gastamos muito. Como vamos reformar o banheiro? Precisamos falar sobre a escolha dos azulejos.”

“- Ladrilhos?”, fala Meg com enfado.

E o casal vai continuar assim, indo do céu ao inferno, no meio das frases trocadas.

Nick parece ser um homem amedrontado, apesar de guardar ainda um charme juvenil quando quer usá-lo.

Percebe-se que adora Meg e que ela, de um jeito majestático, aceita a adoração. Mas sua beleza também está indo embora e o sexo que ele pede, ela pode dar mas nega, com a certeza de que ele vai ficar ali com ela.

Há amor entre eles mas sustentado por um clima agridoce.

O diretor Roger Michell (de “Um lugar chamado Nothing Hill”)1999, escolheu ótimos atores para viver o casal inglês, Lindsay Duncan e Jim Broadbent, maravilhosos e convincentes.

O roteiro é um acerto de Hanif Kuraishi.

Jeff Goldblum, o ex-colega de universidade, é o peso que vai desequilibrar algo que está por um fio.

Meg e Nick existem na vida real. Isso incomoda o espectador desavisado que pensa que vai ver Paris e suas luzes e acaba testemunhando um longo casamento que se alimenta de uma cumplicidade necessária.

 

Amor à Primeira Briga

“Amor à Primeira Briga”- “Les Combattants”, França, 2014

Direção: Thomas Cailley

A juventude é uma época de incertezas. Sempre foi e será assim, porque é próprio de um momento da vida onde acontecem mudanças no corpo e na vida.

Arnaud, uns 18 anos, acabou de perder o pai, trabalha com o irmão mais velho na marcenaria que herdaram e a presença da mãe ao lado deles não é opressiva.

Madeleine, tem a mesma idade, é bonita, musculosa e brava. Falta nela um pouco de descontração, talvez um quê de feminilidade. Está sempre na defensiva.

Quando os dois são escalados para fazer um combate corpo a corpo na praia, ela, que parece mais forte do que ele, vai vencer a luta mas, surpreendentemente, ele morde o braço dela.

Vemos o olhar de surpresa que ela lança para ele. Mas não denuncia o golpe baixo. Ao contrário, aquela mordida provocou algo nela.

E a vida vai aproximando os dois, ou melhor, Arnaud vai se chegando e ela, sempre muito fechada.

Em meio a um trabalho de marcenaria que os irmãos fazem no jardim da casa de Madeleine, ele salva uma fuinha que caiu na piscina e a leva para Madeleine que não conseguira o resgate:

“- Vamos devolvê-la à vida selvagem”, diz Madeleine.

“- A mãe vai rejeitá-la. Está com cheiro de cloro. Vai morrer de fome. Você não quer adotá-la? Ser a mãe dela?”

“- Não posso. Em setembro vou para o exército” e devolve o bichinho para ele.

“- Tudo bem. Vou cuidar dela.”

E Madeleine, que está curiosa sobre Arnaud, mas não dá o braço a torcer, leva pintinhos congelados para a fuinha dele e aceita o convite para jantar que a mãe faz.

Conversando, Madeleine mostra seu medo do futuro, onde ela imagina que a espera um mundo agressivo e destruído. Não é só a crise que acontece na França que ameaça os jovens com desemprego. Ela vê realmente, um mundo sombrio à sua frente, com contaminação nuclear, seca, fome e epidemias.

Por isso resolveu alistar-se no exército, onde pensa que vai aprender a sobreviver num mundo hostil.

Na verdade, Madeleine teme o mundo dos afetos e posa de valentona. Arnaud, que parece frágil, convida a moça para dançar, ser mais alegre, mais feminina. Ele a convida para o amor.

Uma lição importante vai ser aprendida. A sobrevivência precisa ser vivida plenamente, senão qual é a graça?

O filme do jovem diretor e roteirista Thomas Cailley, 36 anos, mostra que acreditar nos estereótipos sobre o macho e a fêmea impede uma plena possibilidade de amadurecimento. E os jovens atores Kévin Azaias e Adèle Haenel são excelentes. Ela ganhou o César, o Oscar francês de melhor atriz e o filme levou todos os prêmios da mostra “Um Certain Régard”, para primeiros filmes.

“Amor à Primeira Briga” foi um sucesso de público na França, valendo-se do boca a boca.

 Agradará a brasileiros também.