Marvin

“Marvin”- Marvin ou La Belle Éducation”, França, 2017

Direção: Anne Fontaine

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O close inicial é o de um rosto jovem se preparando em frente ao espelho, que somos nós, a plateia. É um ator. Finnegan Oldfield é Martin Clément, que já foi Marvin Bijou. Vai contar a história de sua vida, num cenário onde vemos um espelho d’água cor de sangue, uma escada e uma cadeira.

Apenas dois personagens nessa peça escrita pelo próprio ator. Ele e ela, sua mãe, interpretada pelo ícone do cinema e do teatro francês, Isabelle Huppert, que faz ela mesma.

Mas o filme dirigido por Anne Fontaine (“Agnus Dei” e “Coco antes de Chanel”) se inspira no livro de Edouard Bellegueule e não tem uma narrativa linear. Nossa compreensão da vida e da personalidade de Marvin, desde quando era um garoto entrando na adolescência até a idade adulta, é criada com “flashbacks” muito bem montados.

Assim, no início vemos um Marvin solitário, perseguido por garotos mais velhos que batem nele e o obrigam a atos contra sua vontade, passam batom em sua boca e o chamam de “viadinho”.

Também vemos sua ingenuidade e a vida que leva numa família pobre e tosca. Pai bruto, mãe distante e ignorante. Um meio irmão mais velho e também brutal e um irmãozinho menor.

“- Pai? O que é “viado”? Li no cartaz do ponto de ônibus. Escreveram “Viados Sujos.”

“- Você sabe. Um degenerado. Um doente mental. ”

E Marvin, anos mais tarde, pensa alto:

“- E eu me lembro que pensei então que eu não era louco. Se ser “viado” é ser doente mental, então eu não era “viado”, porque não era louco. ”

E o mesmo menino que sofria com o “bullying” dos mais velhos, na verdade era sensível, carente, alguém que não pertencia a esse ambiente brutal onde nascera e vivera até então.

E quando o desejo por um corpo masculino aparece nele na piscina da escola, olhando aqueles que o maltratavam, a mente de Marvin sofre com a incompreensão do que se passava com ele. Desejos contraditórios. Culpa.

Sua salvação vai ser as aulas de teatro e a nova diretora da escola que percebe o quanto aquele menino precisava de uma mão amiga.

Mas mais importante que tudo, Marvin precisava se conhecer e gostar de si mesmo. Aprender que ele não era o “errado”. Ele era apenas diferente dos outros meninos. Mas existiam os iguais a ele.

E Anne Fontaine dirige seu filme com inspiração e a dose certa de emoção, seguindo o caminhar de Marvin em direção a si mesmo.

A auto aceitação, mais difícil do que o papel de vítima, faz Marvin dar-se o nome de Martin e mudar de sobrenome. Bijou pra Clément, o nome da diretora que foi sua tutora e amiga.

E então, concluir em sua peça teatral autobiográfica que a realidade é subjetiva. E que, portanto, podia olhar também o seu passado e sua família com outros olhos.

Marvin conseguiu reinventar-se.

Ferrugem

“Ferrugem”- “Rust”, Brasil, 2017

Direção: Aly Muritiba

A adolescência é sempre difícil. Todos sabemos disso. Insegurança, sentimento de inadequação, estranheza envolvendo o corpo que se modifica e perda do mundo da infância. Idealizações são substituídas por realidades ainda assustadoras. É um período de sentimentos exacerbados e grande fragilidade.

Foi sempre assim, mesmo que os cenários tenham mudado.

“Ferrugem” começa com uma excursão dos adolescentes de uma escola a um aquário. Meninos e meninas tiram selfies, falam alto e riem.

As “sereias”, com seus rabos falsos nadando pelo aquário, chamam mais a atenção dos adolescentes do que os peixes da Amazônia, que deveriam ser observados para o trabalho da aula de Biologia.

O professor se esforça dando explicações que mal são ouvidas.

A câmera se aproxima do rosto de Tati (Tifanny Dopke), 16 anos, que troca olhares com Renet (Giovanni de Lorenzi).

Na frente deles, em meio às pedras do fundo do aquário, um peixe verde que mais parece uma cobra, assusta com a boca aberta:

“- Sabia que um choque desse peixe pode matar quando ele se sente ameaçado? ”, diz Tati meio que provocando Renet.

Eles ainda não sabem mas vai começar uma tragédia, contada por um excelente roteiro, escrito pelo também diretor Aly Muritiba a duas mãos com Jessica Candal.

Na primeira parte do filme, Tati, que brigou com o namorado Nando e perdeu o celular, é alvo de “bullying” na escola. Um vídeo íntimo dos ex namorados é do conhecimento geral. Caiu no whatsapp de um aluno e se espalhou.

No corredor que leva às salas de aula, Tati percebe que algo estranho aconteceu. É recebida com assovios e gritos de “Gostosa!” e “Tá famosa, ein?”

Ela vai sentir o golpe, deprimir e com medo da reação dos pais quando o vídeo aparece num site pornográfico, vai se desesperar. Entrega-se à sua própria auto- destruição e comete uma loucura.

Na segunda parte do filme observamos Renet e sua raiva de tudo e de todos. Sofre as consequências de um ato impulsivo. Está brigado com a mãe e não quer falar com ela. Ciúmes e uma reação de ataque machucaram todos os envolvidos.

Em “Ferrugem”, os adultos se comportam de uma maneira que não ajuda esses adolescentes. Tati tem pais ausentes e nenhum diálogo com eles. Por sua vez, Renet está com ciúmes e raiva da mãe (Clarissa Kiste) que se separou do pai dele e está grávida do segundo marido. Ela é a única que busca compreender o que se passou para ajudar o filho.

“Ferrugem” fala de algo que não é novidade mas que é sempre bom lembrar. Nessa nossa era de comunicação ao alcance de todos e que invade a vida privada, nunca é demais ter muita cautela e respeito pelos outros.

O título do filme lembra a característica corrosiva que pode atacar os vínculos interpessoais.

No Festival de Gramado “Ferrugem” levou o prêmio de melhor filme brasileiro, melhor roteiro e melhor desenho de som.

Um filme muito bem realizado, que surpreende e ajuda a pensar num problema que não tem respostas prontas.