A Vida em Si

“A Vida em Si”- “Life Itself”, Estados Unidos, 2018

Direção: Dan Fogelman

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Estranhamos o início do filme.

Um narrador (Samuel L. Jackson) fala de heróis e vilões e do último álbum de Bob Dylan. Aparece um rapaz gay de 25 anos e… Como? Ah! Era um roteiro que foi descartado por Will (Oscar Isaac), que está fazendo terapia com Annette Bening.

Ainda não entramos na história que vai ser contada, por outra narradora, e que, não se assustem, terá cenas de ficção misturadas com as verdadeiras. É a tese do narrador “não confiável” que, por várias razões, conta uma versão diferente do que se passou na realidade. Mas isso só vai acontecer na primeira parte do filme, ou melhor, primeiro capítulo.

Will está muito deprimido. Barba selvagem, olhar perdido, boné enfiado na cabeça.

Na sessão, a terapeuta trabalha as lembranças dele. Ele conta algumas verdadeiras e outras encobridoras da realidade, muito difícil de suportar. Ficamos sabendo que estivera internado e toma remédios fortes que mistura com bebida.

Fala pela primeira vez sobre sua mulher Abby (Olivia Wilde), que o abandonou, grávida.

“- Você tentou falar com ela depois disso? “

Vemos cenas do casal na cama com o cachorro. Abby insiste que Will ouça com atenção o disco de Bob Dylan, que ela adora. Will nem tanto. Ele adora ela, que é linda, loura e está grávida de 8 meses.

Voltam outras lembranças de como se conheceram e se casaram. Ela quer um cachorro e filhos depois:

“- Meus pais morreram muito jovens. Eu tinha 6 anos. Não sei se vou ser boa mãe…”

Começamos a perceber que algo muito trágico acontecera com os pais de Abby. E que poderá acontecer algo muito trágico também com ela e com Will. E acontecem acidentes, suicídio, abuso de crianças órfãs. Mortes e nascimento.

Dan Fogelman é o diretor e roteirista de “A Vida em Si” e o criador de “This is Us”, uma série de sucesso. Parece que ele se saiu melhor na série porque o filme tem muitos personagens, idas e voltas e surpresas terríveis e abruptas. Tudo muito condensado. Não dá tempo para o público se refazer de um trauma e logo acontece outro. É a vida. Mas teria que ter mais tempo e mais recheio.

O filme conta em cinco capítulos a história de uma família através de quatro gerações, nos Estados Unidos, Nova York e Espanha, Andaluzia. Os cenários são belíssimos, especialmente nos olivais andaluzes e os atores se saem bem, com destaque para Olivia Wilde e Oscar Isaac. Annette Bening também. São os atores da primeira parte do filme, os que tem mais tempo na tela.

Os outros, como Olivia Cooke que faz a filha de Abby e Will, ou como os da história do triângulo amoroso do terceiro e quarto capítulos que envolvem a família Gonzalez (Antonio Banderas, Laia Costa e Sergio Peres-Mencheta) e o menino Rodrigo (Alex Monner), não tem tempo de marcar seus rostos e emoções. Tudo muito apressado. Daria um outro filme.

Conclusão, para fazer um bom filme não basta um bom roteiro e excelentes atores. O público tem que ter tempo para se envolver com os personagens. Aqui isso só é conseguido no primeiro capítulo.

Mas ainda assim tem bons momentos.

Maria Callas – Em Suas Próprias Palavras

“Maria Callas – Em Suas Próprias Palavras”- “Maria by Callas”, França, 2017

Direção: Tom Volf

Os aplausos no final da sessão são a reação espontânea da plateia a esse documentário sobre Maria Callas, uma lenda da ópera do século XX.

Dirigido pelo francês Tom Volf, ator e diretor, deixa a própria Maria falar. As palavras que precedem o documentário ilustram o que vamos ver nas imagens, tanto as tão conhecidas como outras que vamos descobrir aqui:

“- Há duas pessoas dentro de mim…nunca fiz nada com falsidade… descobrirão a mim inteira no que faço.”

A câmera de TV nos mostra Maria em preto e branco nessa entrevista em inglês em 1958. Bela e majestosa fala de si mesma com reserva mas sem timidez e conta como é difícil um artista ser feliz. Principalmente para alguém como ela que se dedicou tanto à carreira.

A vida alternativa que ela não viveu a assombra como um fantasma:

“- Teria preferido ter filhos e uma casa. Mas destino é destino. Não se pode fugir. ”

Uma ambição de viver a vida no palco, a Callas, se alterna com Maria, principalmente nas cartas que ela escreve aos amigos, lidas com emoção por Fanny Ardant, atriz que a interpretou no cinema em “Callas Forever” de 2002 dirigido por Franco Zeffirelli.

O “bel canto” jamais foi melhor encarnado do que nessa voz divina e trabalhada com afinco na técnica, aliada a uma interpretação única das heroínas das óperas que ela cantava. Ela foi tão grande soprano quanto foi atriz nos palcos do mundo.

A americana, nascida em Nova York em 2 de dezembro de 1923, segue para a Grécia com a família durante a Segunda Guerra. Lá ela, que tocava piano desde os 8 anos, vai aprender com Elvira Hidalgo a usar sua voz:

“ – Com aquela boca, aqueles olhos que falavam, quando a vi pensei: essa vai ser alguém. “

E as imagens mostram que sua figura mudou ao longo dos anos. Sobrancelhas grossas afinaram, o nariz foi remodelado com maestria, a cintura se estreitou e a voz cresceu, límpida e potente.

Todas as salas importantes a receberam com ovações.

Mas também vemos a chegada da “pior noite” de sua vida, em 1958, quando a “Norma” foi interrompida em Roma com o teatro lotado, inclusive o Presidente da Itália:

“- Arrastaram meu nome na lama. Eu estava sem voz. No dia seguinte meu linchamento começou. “

Mas são tantas as imagens inesquecíveis. Ela de negro e camélias no cabelo na “Traviata”. Passeando no jardim à beira do lago na casa que o marido Battista Meneghini comprou para ela. Nos inúmeros aeroportos, sempre elegante, vestida com peles e levando seu cãozinho Toy. De veludo negro e um broche deslumbrante cantando sedutora “L’amour est un oiseau rebelle” da “Carmen”. De vermelho e diamantes e a “Casta Diva”. À beira da piscina, consciente da câmera que a observava, não esconde um olhar triste.

E a mulher brilhante, queimada de sol e feliz com Aristóteles Onassis, o grande amor de sua vida, no verão de 1964 na Grécia:

“- Eu o amei profundamente. Me sentia muito feminina com ele. “

“La Divina” vai sofrer no fim de sua vida mas foi amada e ainda o é por pessoas que só ouviram sua voz em discos, depois de sua morte em Paris, aos 53 anos.

“- Tive a sorte de ter algo em mim que eu podia dar para o público. “

E nos acordes finais de “O Mio Babbino Caro” deixamos o cinema com lágrimas nos olhos.

Belíssimo!