Spotlight:Segredos Revelados

“Spotlight: Segredos Revelados”- “Spotlight”, Estados Unidos, 2015

Direção: Tom McCarthy

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 Certos assuntos são difíceis e penosos. Quando a natureza humana mostra seu lado sombrio, doentio, acusar apenas resolve a questão?

No caso dos padres suspeitos de pedofilia em Boston, que o filme “Spotlight” encena, há vítimas que merecem que se faça justiça. Proteger crianças de pessoas perversas é um dever de todos. Mas tratar desse assunto de forma escandalosa a quem interessa?

Ora, quando o jornal “The Boston Globe” começa a ter baixa nas vendas em 2001 e muda de editor, os jornalistas de um grupo apelidado “Spotlight”, são chamados para escrever algo que faça a primeira página voltar a brilhar em suas manchetes.

Alguém se lembra de que notícias de casos de pedofilia na Igreja Católica em Boston, tinham aparecido no jornal há alguns anos. Mas a matéria não havia prosperado. Talvez fosse o caso de aprofundar a busca dessas notícias? Um escândalo envolvendo a Igreja Católica de Boston, com toda a força que ela tinha na cidade, certamente iria vender jornais.

O novo editor Marty Baron (Liev Schreiber) estimula então o grupo comandado por Walter Robinson (Michael Keaton), os jornalistas  Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) a investigar o assunto e levantar documentos que possibilitassem ao jornal publicar o escândalo.

O trabalho dos jornalistas foi árduo e longo. Extremamente dedicados, a ponto de prejudicar sua vida pessoal, eles pesquisam e chegam ao nome de algumas vítimas de abuso, ocorridos anos atrás, que preferiam o anonimato e são entrevistadas. A maioria é de pessoas desajustadas, de classes menos favorecidas e que culpam os fatos do passado por suas vidas destruídas.

Um grupo chefiado por uma dessas vítimas de abuso chega a dizer que elas são os “sobreviventes”. Muitos outros haveriam se suicidado.

Outro foco de pesquisa difícil era encontrar o nome dos suspeitos e descobrir o que tinha acontecido com eles. E o choque é grande quando concluem que esses padres tinham sido deslocados de suas paróquias para outras, depois de um tempo em casas de recuperação e tratamento, após as denúncias. E mais. O número era muito maior do que se tinha pensado inicialmente. Tudo com o conhecimento e a cooperação da Igreja Católica, numa tentativa de não tornar públicos esses tristes acontecimentos.

E, como havia processos, um advogado se encarregava da defesa e cobrava 20 mil dólares para sumir com os documentos, apesar da lei determinar que eram públicos.  A família da vítima ganhava algum dinheiro para que se calasse.

Depois de muitas noites sem dormir e um trabalho coroado de êxito, a reportagem ganhou o prêmio Pulitzer de jornalismo.

O caso foi muito comentado e causou mudanças na Igreja Católica, tanto em Boston quanto no Vaticano.

O atual Papa Francisco pediu perdão publicamente às vítimas desses crimes e mostra uma grande preocupação com o assunto. Não só com a pedofilia mas com padres que cometeram outros atos criminosos, que são afastados de suas funções mas precisam ser mantidos pela Igreja.

Os mais esclarecidas não se mostram surpresos com tudo isso. Afinal, seria muita inocência querer que não haja todo tipo de gente entre os que procuram a Igreja Católica para se tornar padres.

Um outro filme, chileno, de Pablo Larrain, “O Clube”, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim 2015, tratou do assunto mas sem a finalidade de causar escândalo, tão presente no caso do “The Boston Globe”.

Voltando ao filme, “Spotlight” tem um elenco bem escolhido, a direção consegue manter um ritmo de “thriller” quase o tempo todo e o filme foi indicado para o Oscar de melhor filme, atriz coadjuvante para Rachel McAdams, ator coadjuvante para Mark Ruffalo, melhor roteiro adaptado e montagem.

Os críticos de cinema, em sua grande maioria jornalistas, louva o filme e lamenta que esse tipo de jornalismo investigativo que demanda tempo, dedicação e recursos financeiros, já tenha quase desaparecido, em tempos de internet e de pessoas pouco interessadas em ler jornais.

 

A Garota Dinamarquesa

“A Garota Dinamarquesa”- “The Danish Girl”, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha

Direção: Tom Hooper

Eles são bonitos, jovens, elegantes e artistas. São pintores e vivem em Copenhague, Dinamarca. Estamos em 1926.

Gerda (Alicia Vikander, ótima) é retratista e Einar (Eddie Redmayne, maravilhoso) pinta paisagens, lembranças de sua terra natal. Estranhamente, temos a impressão de que sempre pinta a mesma paisagem, com pequenas variações e se esforça muito para achar as cores certas. Há algo que Einar procura…

Já Gerda é mais espontânea, criativa e um dia sugere que o marido use as meias da amiga bailarina Ulla (Amber Head) para que ela possa terminar seu retrato. Os dois brincam e riem.

Gerda e Einer Wegener parecem um casal feliz. Numa manhã inspirada, ela usa o rosto do marido para pintá-lo como uma mulher nua, fumando com piteira, numa pose lânguida. O retrato faz sucesso com o “marchand” dela, que quer comprar todas as telas com a modelo, que Gerda diz ser uma prima do marido.

Surpresa e encantada, ela leva as boas notícias para casa. Ela não sabe que acaba de abrir uma caixa de Pandora, que vai afetar para sempre a vida dos dois.

A princípio relutante, Einar inventa uma personagem, Lili, e o casal leva a brincadeira mais longe, a ponto dele ir vestido de mulher no baile dos artistas.

É fascinante ver Einar dar vida a Lili, a mulher dentro dele. Os gestos, olhares, posição de cabeça, braços e mãos, jeito de andar, vão se aperfeiçoando e não vemos mais Einar. Mesmo quando vestido de homem, Einar é Lili.

Há uma verdade intensa nessa mudança de identidade, que Einar vai levar até as últimas consequências.

O roteiro do filme foi escrito por Lucinda Coxan, baseado no livro de David Ebershoff e que, por sua vez, é uma biografia, com toques de ficção, de Lili Elbe, nome adotado por Einar Wegener, o primeiro transexual a tentar uma operação de mudança de sexo.

O filme é comovente e belo. A “designer” de produção, Eve Stewart, escolheu e montou os mais belos cenários. Paco Delgado encanta com os figurinos e Danny Cohen mostra paisagens deslumbrantes. O mestre Alexandre Desplat ajuda a emoção, escolhendo as notas certas.

Tom Hopper de “O Discurso do Rei”2010, “Les Miserables” 2012, 43 anos, acrescenta mais um sucesso à sua lista.

E os atores são um par de talentos difícil de encontrar. Eddie Redmayne, o mago das transformações, torna-se Lili Elbe perante os nossos olhos, que se enchem de lágrimas por ela. E Alicia Vikander, forte e bela, convence como a companheira leal e amorosa, apesar da angústia e aflição que vive sua personagem. Os dois estão na lista do Oscar 2016, merecidamente.

“A Garota Dinamarquesa” é um filme imperdível porque testemunhamos o sofrimento psíquico que sofre uma pessoa transexual, que o grande público preconceituoso talvez nem perceba que existe.

E há também um deleite para os olhos pela beleza das imagens e um show de interpretações.