Um Amor em Cada Esquina

“Um Amor a Cada Esquina”- “She is Funny That Way”, Estados Unidos, 2014

Direção: Peter Bogdanovich

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Ele ficou 12 anos sem filmar. E é o lendário diretor de um clássico, “A Última Sessão de Cinema” de 1971. Tinha 32 anos na época e dirigiu um dos mais belos e tristes filmes sobre os jovens numa cidade americana pequena nos anos 50.

Agora, aos 80, Peter Bogdanovich convidou atores engraçados jovens e mais velhos para fazer uma comédia divertida.

Assim, vamos ver Jennifer Aniston, Will Forte, Cybill Sheperd, Richard Lewis e até Quentin Tarantino numa ponta brevíssima, e os mais velhos, Austin Pendleton e George Morfogen, todos em ótima forma.

A história do filme é contada numa entrevista a uma jornalista, e mostrada em “flashbacks”, pela jovem e bela atriz revelação, Isabella Patterson, a antiga Izzy (Imogen Poots).

Tudo começa quando um diretor de teatro de Los Angeles, Arnold Albertson (Owen Wilson), hospeda-se num hotel em Nova York. Ele vai comandar os ensaios para uma nova peça da Broadway mas falta escolher uma das atrizes.

A mulher do diretor, Delta (Kathryn Hahn) é famosa e fará um dos papéis, ao lado do ator Seth Gilbert (Rhys Ifans), seu antigo “affair”. Na peça há um triângulo, envolvendo uma garota de programa.

Aliás, o diretor da peça, que passa muitas noites sozinho, gosta de garotas de programa. E é então que já na primeira noite em Nova York fica conhecendo Izzy (Imoge Poots) que faz esse trabalho mas sonha em ser atriz.

Eles passam bons momentos juntos e, para a surpresa de Izzy, o diretor oferece 30.000 dólares para ela deixar a prostituição e realizar seu sonho.

Arnold tem essa estranha mania de presentear as garotas de programa com enormes somas de dinheiro mas não quer vê-las novamente. Isso vai ser motivo de cenas hilárias, com algumas delas reconhecendo seu benfeitor e correndo atrás dele para renovar os agradecimentos e relatar em voz alta como ele mudou  suas vidas. E isso acontece sempre nos piores momentos, como vocês podem imaginar.

Encontros e desencontros, surpresas e perseguições vão fazer a graça dessa comédia leve e divertida.

Um filme agradável de se ver.

O Anjo

“O Anjo”- “El Angel”, Argentina, Espanha, 2018

Direção: Luis Ortega

Buenos Aires, 1971. Num bairro de gente rica, um garoto de 17 anos pula a grade e invade a propriedade, uma casa imensa. Despreocupado, ele atravessa o jardim e entra pela porta de vidro aberta. Vai andando casa adentro. Serve-se de uísque, põe na vitrola o disco “El Extraño de Pelo Longo” e dança com naturalidade e graça. Depois rouba o que encontra nas gavetas do quarto e sai com a moto que encontra na garagem.

Ele começa a invasão da casa perguntando em voz alta:

“- Será que mais ninguém quer ser livre? Eu sou ladrão de nascimento. “

Quem diria que o dono da cara de anjo, cabelos louros encaracolados, boca vermelha, olhos claros e bela figura vestida em jeans e tênis, que prezava a liberdade, viria a ser o prisioneiro que está por mais tempo na prisão argentina?

É como se Carlos (Lorenzo Ferro, novato excelente) não entendesse que fazia algo errado. Os primeiros roubos ele dá de presente aos amigos e as joias para a namorada e sua irmã gêmea. Em casa conta para os pais que as coisas que ele traz são emprestadas. Como a moto por exemplo.

Carlitos vem da classe média e seus pais, Aurora (Cecilia Roth, ótima) e Hector (Luis Gnecco) desconfiam da origem de tanta coisa. Ele é filho único, de pais carinhosos e atentos mas que não sabem o que fazer com o filho.

Na verdade, o poder de sedução de Carlitos era a sua maior arma. Todos ficavam hipnotizados com sua presença que emanava um carisma infantil, quase que paralisante. Era como se a fachada angelical impedisse ou tornasse impensável imaginar que ele era uma criatura do mal.

Mas houve uma escalada nas ações desse garoto que roubava por prazer. Ele passou a usar armas depois de tornar-se parceiro de Ramón (Chino Darín, filho de Ricardo, o maior ator argentino) e seus pais criminosos (Mercedes Morán e Daniel Fanego). Não demorou para tornar-se um assassino.

A sexualidade de Carlos era dúbia. Nesse ponto ele parecia mesmo uma criança. Pelo menos como foi mostrado no filme de Ortega, 38 anos. O verdadeiro Carlos Robledo Puch era assim? Dizem que haveria muito de ficção na criação do personagem que também seduziu o diretor e, por sua vez, o público também.

Na Argentina, “El Angel”, produzido pelos irmãos Almodóvar, foi o filme mais visto de 2018, apesar de alguns censurarem o clima atrativo que cerca um criminoso narcisista, psicopata, que agia como se o mundo lhe pertencesse, roubando e matando sem remorsos nem escrúpulos.

Carlitos foi chamado de “Anjo da Morte” pela imprensa argentina da época que produziu manchetes escandalosas e poéticas como “ Loucura, Amor e Morte”.

“O Anjo” é um filme atraente, com ótimos atores e produção impecável. Mais um argentino de excelente qualidade.