Salt

“Salt” – Estados Unidos, 2010

Direção: Phillip Noyce

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Filmes de ação não fazem o meu gênero. Mas fui ver “Salt”, ainda que de pé atrás.

Aliás, fui ver Angelina Jolie. E tenho que confessar que me diverti. O filme é ela. Pulando, escalando, correndo, lutando, matando gente ruim. E sem quebrar uma unha. Mentira. Vi uns arranhões no joelho e algum sangue no rosto e na camisa rasgada, quando ela enfrenta um pelotão sozinha.

Sim, porque a gata Jolie sempre cai em pé, além de ter sete vidas e muito fôlego. E, de quebra, esbanja beleza com seus olhos de uma cor que mais ninguém possui, como canta Roberto Carlos. Para não falar daquela boca que só fica linda nela.

“Salt” não quer ser um filme realista. Longe disso. É pura fantasia e entretenimento. O diretor e roteirista, o australiano Phillip Noyce, consegue engatar uma coisa na outra usando, além de muita ação, reviravoltas de enredo, surpresas, complôs e jogo de espelho. E por isso a gente fica se perguntando o filme inteiro: quem é Salt?

Aparentemente Evelyn Salt, a personagem de Jolie, é uma agente da CIA e ponto final. Mas, por trás daquela aparência mansa esconde-se uma fera ferida (outra vez o Roberto).

Casada com um biólogo alemão que encontrou no borboletário de um museu, sem mais aquela, ela se transforma de borboleta em aranha.

E mais não conto porque seria estragar a graça do filme.

Mas podemos falar um pouco de Angelina Jolie.

O roteiro de “Salt” tinha sido imaginado para Tom Cruise que desistiu do projeto porque percebeu que iria fazer mais do mesmo. Achou o roteiro muito parecido com “Missão Impossível” e foi rodar “Encontro Explosivo”com Cameron Diaz, também em cartaz em São Paulo.

E dá para entender porque Cruise não quis e Angelina pegou correndo. “Salt”só tem graça com uma mulher no papel principal. Faz toda a diferença. Mérito dela ter percebido isso.

Aliás, Angelina Jolie estreou cedo no cinema, aos 6 anos, em um filme com o pai, o ator John Voight, em 1982. Mais tarde foi modelo, estudou cinema na Universidade de New York mas apareceu mesmo para o grande público só em 1998, através de um papel num filme para a TV, no qual fazia Gia, uma top-model drogada que morria de AIDS.

Colecionou vários prêmios em sua carreira, desde então, mas o principal foi o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2000 que ela mereceu pelo papel de uma sociopata no filme “Garota Interrompida”, ao lado de Winona Ryder.

Mais tarde, em 2005, durante a filmagem de “Mr e Mrs Smith”, conheceu Brad Pitt e daí em diante mantém um relacionamento que parece que deu alguma estabilidade à Jolie que tinha fama de rebelde, dois casamentos desfeitos e um filho adotivo.

Hoje, o casal mais bonito do cinema tem no total seis filhos, sendo três adotivos e três biológicos. E aquela que colecionava tatuagens e punhais, não falava com o pai e se drogava, tornou-se embaixadora da Boa Vontade da ONU e frequentemente participa de missões humanitárias para ajudar refugiados na África, Cambodja e Paquistão.

A antiga “ovelha negra”de Hollywood transformou-se e parece que quer esquecer o passado sombrio. Dizem que de tudo que ela ganha uma grande porcentagem vai para a caridade.

Angelina Jolie conseguiu mudar o seu destino e dar exemplo de bom caráter.
Ela merece o sucesso que tem.

O Bem Amado

"O Bem Amado", Brasil, 2010

Direção: Guel Arraes

O Brasil quer rir do Brasil?

Guel Arraes, o diretor do filme “O Bem amado”, pensa que sim e explica, em uma entrevista que deu a Luis Carlos Merten:

“… O que me atrai é o humor. Até por ter convivido internamente com esse mundo da política, sempre fui atraído pela peça de Dias Gomes (1962) que deu origem à novela (1973) e à série (1980). Odorico Paraguaçu virou o emblema do político brasileiro. Existem muitos Odoricos por aí e eles acham o personagem divertido, são os primeiros a rir. Mas nenhum assume que Odorico é o retrato deles, daí o meu desejo de fazer o filme.”

Vindo da televisão (Armação Ilimitada), o diretor de “Lisbela e o prisioneiro” e o “Auto da Compadecida”, filmes onde o lirismo conversava com a graça do nordeste do Brasil, em “O Bem Amado” quer falar de política. Diz ele na mesma entrevista:

“Era o personagem que me interessava, o retrato que ele fazia do Brasil. O país mudou. O Odorico da ditadura não podia ser o mesmo da democracia. E com ele mudou tudo. A sátira política virou uma farsa.”

E, realmente, o Odorico de Marco Nanini é muito diferente do de Paulo Gracindo que marcou época com seu terno de linho amarfanhado e charuto na boca.

Agora o cabelo é daquela cor alaranjada duvidosa, o prefeito veste-se de maneira espalhafatosa e usa colete, chapéu, cartola, comendas e anéis. Mais para o patético e ridículo.

Os tempos são mesmo outros e o narcisismo desabrido ataca o prefeito Odorico e faz disso a sua marca. Pavão misterioso?

Do antigo Odorico o novo só conservou o linguajar pitoresco que o povo copiava nos anos setenta e a obsessão de inaugurar o cemitério, custe o que custe. Sua administração também é marcada por todos os defeitos da politicagem e Guel Arraes, que também assina o roteiro, dá destaque às práticas fraudulentas que tanto alimentam as manchetes escandalosas dos nossos jornais.

As engraçadas Cajazeiras, senhorinhas carolas e alcoviteiras do passado, são agora três irmãs solteiras tão espalhafatosas quanto o prefeito que, querendo ser “sexy”, se insinuam para qualquer macho que apareça mas preferiam mesmo o lugar de primeira dama de Sucupira ( Andréa Beltrão, Zezé Polessa e Drica Morais).

O público de “O Bem Amado” se diverte, principalmente aqueles que só gostam de rir, mas há momentos em que o ritmo do filme, muito acelerado mas repetitivo, cansa.

O elenco estelar de atores da Globo está à altura do que é pedido pela trama. São todos profissionais competentes e bem dirigidos.

Para mim, o ponto alto fica a cargo de José Wilker, que faz o cangaceiro Zeca Diabo com alma. Tem o mérito de resistir à caricatura e ser o personagem mais contundente do filme.

As paisagens de Alagoas, brevemente mostradas, dão vontade de viajar e conhecer as águas turqueza e as falésias de areia, tão fotogênicas.

E a trilha sonora sem defeito vai de Caetano Veloso, Zélia Duncan, Zé Ramalho e Jorge Mautner. Uma delícia.

Guel Arraes, filho do ex-governador Miguel Arraes, figura de proa na oposição à ditadura militar, faz uma bela homenagem a seu pai mostrando-o no grande comício das “Diretas já”, que foi um momento importante na reconquista da democracia no Brasil.

Talvez esse seja o momento mais tocante do filme quando se vê que não só de Odoricos vive a política brasileira.

E mais ainda, eu diria que pensar nas próprias “maracutaias” não faz mal a ninguém. Isso não é privilégio dos políticos. Rir é bom e eu gosto mas por que não tirar conclusões mais amplas desse filme em tempo de eleições importantes no nosso país?