Mãe

“Mãe”- “Mom”, Índia , 2017

Direção: Ravi Uyawar

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Pouco conhecido no Brasil, o cinema indiano tem um público fiel em seu país e começa a ser bem distribuído pelo mundo.

“Mãe” conta uma história que envolve um estupro coletivo. Infelizmente são ocorrências não raras na Índia. Portanto, é mérito do filme trazer o assunto para que possa estimular uma maior reflexão pela sociedade indiana e condenar o ato com veemência.

A personagem principal é interpretada por Sridevi, grande estrela do cinema da Índia, que morreu tragicamente em fevereiro de 2018, aos 54 anos, devido a um acidente num hotel em Dubai, onde a atriz passava uns dias com o marido, o produtor Boney Kapoor. Sua morte causou comoção em seu país, onde era adorada.

“Mãe” nos mostra porque Sridevi era tão famosa. Uma atriz bela e expressiva. Emociona a todos pelo calor de sua interpretação.

No filme, Devik é a segunda esposa de Anand e tem duas filhas. A mais velha é sua enteada Arya (Sagal Ali, ótima) que tem 18 anos e não aceita a madrasta. Apesar do carinho e cuidados sinceros demonstrados pela mulher do pai, a garota não suporta nada que venha dela. Isso causa um problema para o pai de Arya mas sua mulher mostra paciência e acredita que vai conquistar a menina. Compreende que ela está muito chocada e ressentida com a morte da mãe.

Mas vai ser preciso acontecer uma tragédia para que a garota consiga enxergar o que está diante de seus olhos. E entender porque culpa a madrasta pela morte da mãe. Muito regredida, coloca a madrasta no papel da “mãe má” que roubara a “mãe boa”. E além disso via nela a bruxa que enfeitiçara o pai para assumir o papel de mulher dele.

O tema do filme é a vingança. O clima é o de uma tragédia grega. Mas as imagens não são cruas. A violência é mais sugerida que mostrada.

As imagens são belas, com um uso especial da cor que é uma marca registrada dos indianos e a música é o contraponto, composta pelo inspirado A. R. Rahman, que ganhou um Oscar por “Quem quer ser um milionário”.

Mas o brilho maior de “Mãe” é a atuação de Sridevi como a mãe que salva sua filha do coração de mergulhar na depressão ou mesmo na loucura, fazendo com que possa desfrutar assim da vida que está à sua frente.

Namastê.

O Sonho da Borboleta

“O Sonho da Borboleta”- “The Butterfly‘s Dream”, Turquia 2013

Direção: Yilmaz Erdogan

A vida de três poetas turcos, é contada nesse filme para lembrar e homenagear os que viveram essa história real onde “a poesia está na vida e não na morte”, como disse um deles.

Os dois poetas jovens, pobres e muito amigos, lutavam para sobreviver mas sem perder o humor e as brincadeiras entre eles. Viviam à procura de palavras que expressassem o que sentiam em seus corações. E carregavam consigo uma alegria verdadeira em compartilhar os poemas, lidos ou declamados o tempo todo.

E o amor era buscado, apesar da timidez e da falta de oportunidades que os distanciavam das estudantes da escola local, frequentada pela classe social à qual os dois não pertenciam.

O terceiro poeta homenageado no filme, Behcet Necatigil, incentivava os dois rapazes e tornou-se muito apreciado na Turquia, mas na época era apenas professor.

O sonho dos dois rapazes era ter seu poema publicado na revista literária. Toda semana buscavam seus nomes na capa da revista e a decepção era enorme. Mas Muzaffer Tayyp Uslu e Rustu Onur não se abatiam, nem desistiam de sua vocação.

Obrigados a trabalhar nas minas de carvão por uma lei que vigorava na Turquia, ambos contraem a tuberculose que era uma doença incurável na época. Mas apesar da pobreza e da doença tiravam o melhor da vida, que sabiam curta.

Muzaffer, um dos jovens, conta a história que dá título ao filme:

“Um dia, um místico sonhou que era uma borboleta. E acordou confuso. Teria sonhado que era uma borboleta ou era uma borboleta que sonhara que era ele? ”

O filme tem uma beleza rara, fruto do talento do conhecido Gokan Tirvaki, que mostra a cidade de Zunguidak, no Mar Negro, oferecendo aos nossos olhos paisagens à beira mar, bosques verdejantes e a beleza escondida nas coisas do dia a dia dos jovens poetas.

Dirigido, roteirizado e também atuado por Yilmaz Erdogan no papel do professor, o filme foi indicado pela Turquia ao Oscar.

Belo, delicado, uma ode à amizade e à poesia, “O Sonho da Borboleta” é outro exemplo do espírito que tem o cinema que nos vem da Turquia, fruto de uma cultura mística e milenar.