Um Pequeno Favor

“Um Pequeno Favor”- “A Simple Favour”, Estados Unidos, 2018

Direção: Paul Feig

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Já nos créditos iniciais, ao som de uma música francesa que diz “Elle est jolie comme une poupée” ou seja, “Ela é bonita como uma boneca”, “Um Pequeno Favor” é um filme feminino. Na tela, desfilam como fundo, detalhes de rostos, copos de Dry Martini, bolsas e sapatos num closet e uma faca elétrica.

Anna Kendrick e Blake Lively, tão diferentes uma da outra, vão se tornar melhores amigas depois de se encontrar na escola dos filhos delas. Uma coisa leva a outra e assim, acontece uma tarde regada a Gin Martinis e confissões, na bela casa contemporânea de Emily, que é Blake Lively, loura e linda, corpo perfeito, cabelão, alta e ácida mas principalmente sedutora e manipuladora.

Já Stephanie Smothers é Kendrick, suburbana, baixinha e bonitinha. Viúva, mãe exemplar, baixa autoestima, fica embasbacada com Emily, ex modelo e seu quadro enorme retratando sua “Origem do Mundo” ou seja, o que está entre suas pernas, pendurado bem à vista, naquela casa refinada.

Emily é casada com um escritor bonitão (Henry Golding) e é executiva de uma empresa que lida com moda, em Nova York. Pega o metrô todo dia de Connecticut para o trabalho. Não conseguiu uma babá e por isso pede a Stephanie, sempre prestativa, um pequeno favor. Vai ter que fazer uma viagem curta e, já que seu filho Nicky estuda na mesma escola que Miles, filho de Stephanie, será que ela poderia ficar com ele até a sua volta? O pai está em Londres cuidando da mãe que teve um acidente.

A “grande” amiga, louca para ganhar pontos e não perder tudo que Emily traz para sua vida, até então um marasmo, aceita prontamente a incumbência. E, em seu vídeo diário de receitas e dicas para mães, Emily começa a aparecer como personagem principal. Principalmente depois que some, sem deixar vestígios.

“Um Pequeno Favor” não se leva a sério e mesmo quando vira “thriller” continua comédia, agora com tintas “noir”, trazendo à tona o passado de pecados das duas protagonistas. Mas sempre sem perder o toque divertido.

Paul Feig dirige com humor essa história de segredos bem guardados e suspense, dando espaço para as duas atrizes que formam um duo com ótima química.

Com figurinos que chamam a atenção e definem bem as personagens e cenários interessantes, o filme baseado no livro de Darcey Bell de 2017, faz a plateia seguir os passos das duas protagonistas, inclusive nos “flashbacks” esclarecedores do passado, mas só para os mais atentos. Os distraídos podem se perder nas reviravoltas do filme.

Brigitte Bardot e Serge Gainsbourg na trilha sonora são referência do “chic” almejado.

Sem ser profundo nem raso, “Um Pequeno Favor” quer divertir e consegue.

Sem Data, Sem Assinatura

“Sem Data, Sem Assinatura”- “Bedoune Tarik, Bedoune Emza”, Irã, 2017

Direção: Vahid Jalilvand

Tudo acontece muito rápido. Uma moto é atingida pelo espelho do carro que teve de desviar de outro e está caída ao lado da avenida escura.

Imediatamente, o homem que causou o acidente estaciona e vai ajudar a família que estava na moto. Um bebê chora no colo da mãe e um menino de uns 8 anos está ao lado do pai que conduzia a moto.

“- O meu filho bateu a cabeça”, diz o pai aflito.

O homem do carro se ajoelha para examinar o menino:

“- Está com náuseas? Sua cabeça está doendo? Eu sou médico. ”

Acrescenta que pagará os estragos na moto e o hospital para o menino. O médico parece preocupado. Não deixou chamar a polícia porque sabia que seu seguro não estava em dia.

“- Vou dar uma carona até o hospital e pago o conserto da moto. ”

Tira a carteira do bolso e diz para o pai da família:

“- Pegue o quanto quiser para o conserto. Tem um hospital aqui perto. ”

Mas o homem põe a moto em pé e diz que vai sair dali com a família. O carro do médico segue atrás e ele buzina sinalizando a entrada do hospital. Mas a moto segue em frente.

Mal sabia o dr Nariman (Amir Aghaee), médico legista respeitado que ali começaria um drama. Tanto para a família de Moose (Navid Mohammadzadeh), quanto para ele próprio.

Perplexo, ele vê no dia seguinte, o corpo do menino no necrotério. Tinha chegado pela manhã cedo e ia ser autopsiado para determinar a causa da morte.

Atordoado, ele ouve falar que o exame laboratorial indicava intoxicação alimentar e botulismo. Mas ele não consegue se convencer. Para ele o menino tivera uma concussão cerebral por causa do acidente. Os sintomas são os mesmos nos dois casos.

A família do menino é avisada e vemos a mãe (Zakiyeh Behbahani) culpar o marido pela morte do filho.

Ele fica louco de dor e raiva e corre ao abatedouro onde comprara barato carcaças de galinha.

Outro drama acontece.

O filme, dirigido e com roteiro do iraniano Vahid Jalilvand, 42 anos, mostra o conflito interno em que a culpa arrasta tanto o médico como o pai do menino, de modos diferentes, mas igualmente terrível, para um inferno.

De quem é a culpa pela morte da criança?

Mesmo depois da justiça ser acionada, não importa a decisão do juiz. Fica claro que cada um dos homens envolvidos nunca vão se livrar dessa culpa que os perseguirá para sempre.

O filme tem cores desbotadas, quase cinza, combinando com a situação de dor e luto que toca a todos.

“Sem Data, Sem Assinatura” mostra o Irã e seus problemas sociais mas também ultrapassa fronteiras e fala do humano, sob o peso e o jugo da culpa, sempre na sombra e da qual não nos livramos quando ela cai em cima de nós e é acolhida. Se somos éticos, claro.

O filme foi premiado no 74º Festival de Veneza, na mostra Orizzonti, como melhor direção e melhor ator para Navid Mahammadzadeh.

Seco, envolvente e trágico.