Emily em Paris – Segunda Temporada

“Emily em Paris - Segunda Temporada”, Estados Unidos, 2020

Direção: Andrew Fleming e outros

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Quem viu a primeira temporada, certamente esperava a segunda. Ficamos atraídos pela série criada por Darren Star, que traz uma jovem executiva de 20 e poucos anos vinda de Chicago e se deslumbra com Paris, “Cidade  das Luzes”, a Tour Eiffel, o Sena, praças com fontes, parques, recantos deliciosos, comida divina e muitas outras descobertas. Nessa época de poucas viagens como é lindo rever Paris.

Emily Cooper vai se jogar no “glamour” de seu emprego na agência “Savoir” que trabalha no marketing de produtos de luxo.

Só que tem um pequeno detalhe. Ela não fala uma palavra de francês. E lá vai ela para um curso para aprender a lingua e isso acaba por aproximá-la de um jovem inglês negro atraente mas nada romântico.

Emily vai tentar transformar esse rapaz. Os dois tem química e ela, que ainda pensa em Gabriel, o Chef da Normandie, bonitão e simpático, vai focar em Alfie. Mas, dúvida cruel, um ou o outro? O fato é que Gabriel namora com Camille, amiga de Emily, mas paquera Emily. Ela vai tentar se afastar dele. Vai conseguir?

E infelizmente, ela já tem inimigos de sobra, ou melhor, pessoas que acham que ela não entende nada, nem nunca entenderá o que é o luxo para os franceses, que pouco tem a ver com dinheiro.

A dona da agência Sylvie Grateau ( Philippine Leroy-Beaulieu), por exemplo, uma parisiense chiquérrima, acha que Emily precisa aprender muito ainda sobre o mundo da moda e do luxo.

E, mesmo quando a americana jovem tem boas ideias, que são aprovadas, ela faz questão de dizer que, entre elas são só negócios, nada de pessoal.

Mas o foco da série são os “looks” de Emily. Não se sabe onde ela descola as roupas que usa e acessórios combinando. São criações de Patricia Field, divertidas e exageradas. E chamam a atenção. Uma capa metalizada azul e vermelha e um vestido preto e branco que revive uma coleção dos anos 80 de Saint Laurent, sem esquecer o vestido vermelho de mangas quase asas, são os mais bonitos. Mas é roupa para mulheres muito jovens e lindas.

São saias curtíssimas e tops “oversize”, tudo muito extravagante.

Os personagens em torno a Emily são bem interessantes. Tanto os colegas da agência, quanto sua companheira de quarto, a chinesa Mindy, rica herdeira escondida em Paris que canta divinamente (Ashley Park) e também a americana grávida ( Kate Walsh), que gosta de Emily e não aprova a francesa Sylvie.

Os 10 capítulos são curtos e dá para maratonar. E vem aí a terceira temporada certamente. Porque no final ainda resta a dúvida cruel de Emily.

Veremos.

A Mão de Deus

“A Mão de Deus” - “E estata la mani di Dio”, Itália, 2021

Direção: Paolo Sorrentino

Voamos baixo sobre o oceano, em direção a Nápoles, que brilha ao sol da tarde. Aproximando mais já escutamos o burburinho da cidade. Falatório, gritos de crianças, buzinas no trânsito parado e uma fila de mulheres esperando o ônibus que não chega.

Uma bela e sensual morena (Luisa Ranieri), com um vestido branco sobre a pele, se destaca. De dentro de uma Rolls-Royce negra e antiga alguém chama:

“- Patrizia!”

Ela se aproxima e o homem se diz San Genaro, o patrono da cidade, que parece conhecer tudo sobre aquela mulher que não podia ter filhos.

Esse início surreal mostra que o diretor e roteirista Paolo Sorrentino (“A Grande Beleza”) filma aqui sob a influência do grande Fellini. A mesma iluminação magnífica claro-escura, o palácio decadente com um enorme lustre de cristal caído, aceso em todas as suas lâmpadas e Patrizia reconhecendo o pequeno monge milagroso, saído de uma lenda local.

O homem ordena que beije a cabeça do menino enquanto agarra o belo traseiro da confusa Patrizia. O menino põe dinheiro na bolsa dela.

“- Agora você vai ter quantos filhos quiser!”

Na verdade, quando ela chega tarde em casa e o marido, furioso, bate nela, compreendemos que a realidade comum daquelas pessoas que vão desfilar na tela será um misto de verdade e sonho. Às vezes pesadelo.

O alter-ego de Sorrentino é Fabietto (Filippo Scota) que tem 17 anos em 1980. Introvertido, é com o seu olhar que  vamos ver os personagens que o cercam. Pai e mãe (Toni Servillo e Teresa Saponangelo) que, amorosos, se comunicam com assovios, o irmão mais velho, Marchino (Marlon Joubert) que quer se artista de cinema mas que almeja, no máximo, ser figurante num filme de Fellini. E a sua musa, tia Patrizia, de quem é o sobrinho predileto.

Todos são tipos vistos com um humor sarcástico. Até mesmo quando não aparecem, como a irmã de Fabietto que está sempre trancada no banheiro e não é vista.

Da risada da mãe dele que adora encenar as próprias piadas, até o conselho do pai que diz que a primeira vez é a mais importante e que, portanto, pode ser com qualquer uma, tudo se passa com leveza.

E é com o seu amor platônico, sua musa, que está internada num hospital psiquiátrico, que ele sonha quando chega sua primeira vez.

Tudo parece ser engraçado nesse mundo particular que vê Fabietto viver, até que a força dos acontecimentos traz a maturidade de repente. A graça não resiste como uma defesa eficiente frente à vida como ela é.

Paolo Sorrentino se vale de uma frase do ídolo do futebol, Diego Maradona, que, jogando numa Copa do Mundo na Itália contra os ingleses, faz um gol de cabeça, ajudado “pela mão de Deus”, para o titulo de seu filme. Uma malandragem muito usada no mundo napolitano, um microcosmo que não pode ser totalmente compreendido, porque como diz a Baronesa, são todos muito complexos.

E Fabietto, ao invés de estudar filosofia, escolhe ser diretor de cinema, onde a realidade não tem vez, como teria dito Fellini.

“A Mão de Deus” é um filme que tem uma doce e melancólica nostalgia pelo passado que não volta mais.

Vale ser visto.