Bridgerton

“Bridgerton”- Idem, Estados Unidos, 2020

Direção: Julie Anne Robinson

Oferecimento Arezzo

Inglaterra, Londres, 1813, período Regency.

A narradora (voz de Julie Andrews) informa que estamos no começo da temporada social. Duzentas jovens solteiras de boas famílias procuram estar no seu melhor momento porque serão apresentadas à Rainha naquela noite.

Vestidos e joias saem de baús e cofres para encantar os olhos reais. A Rainha Charlotte observará cada detalhe sentada em seu trono. Uma será a escolhida. E se casará com o melhor dos partidos disponíveis. E as outras terão que se contentar com os outros rapazes.

No pátio do castelo real chegam as carruagens com os convidados. As mães dão os últimos conselhos às filhas. O tapete da sala do trono será percorrido por mocinhas que tentam fazer seu passo mais leve, esboçando o sorriso mais delicado. Finalmente vem a reverência perante a rainha. A graça com que cada uma nasceu é o que vai destacá-la.

E vemos aquela que é chamada de “diamante raro” pela rainha, que desce do trono para levantar o rosto lindo de Daphne Bridgerton (Phoebe Dynevor), exclamando:

“- Impecável, minha querida ”, depois de dar um beijo em sua testa.

Mas ao contrário do que parecia, outra bela se destaca entre todas. Ela veio do interior e é prima da família Featherington, que a acolheu. Faz sucesso e isso irrita a Rainha que não gosta de perder suas apostas.

A narradora, Lady Wistledown, pseudônimo de quem escreve o jornalzinho de fofocas mais lido no reino e que ninguém sabe quem é, conhece a fundo os presentes naquela noite. E logo na manhã seguinte todos leem avidamente as notícias. Uma frase se destaca:

“ Mas sabemos que quanto mais uma jovem brilha, mais cedo irá se queimar. “

A qual das jovens são dirigidos os maus augúrios?

Na noite seguinte, no baile de Lady Danbury, uma presença inesperada dá um encontrão com Daphne. Ele é um homem alto, elegante e belo, o Duque de Hastings (Regé-Jean Page). Uma corrente elétrica tanto une quanto repele aqueles dois.

Baseado nos livros de romances históricos de Julia Quinn, que venderam 10 milhões de exemplares só nos Estados Unidos, “Bridgerton “ foi filmado em belas locações na Inglaterra. Vemos detalhes preciosos como as carruagens, os criados de libré e perucas brancas, passeios a cavalo em magníficos parques com árvores centenárias, palácios onde os bailes se sucedem com danças e fogos de artifício.

Porém, a maior atração que deu o que falar, e que diferencia esse filme dos outros de época, é a presença de um elenco inesperado, no qual se misturam as cores de pele. Assim, a Rainha Charlotte é mestiça, Lady Danbury é negra, bem como o personagem mais atraente, o Duque de Hastings, filho de pai negro e mãe mestiça. Ele, aliás, é protagonista de cenas sensuais onde exibe seu corpo perfeito.

O filme é produzido por Shonda Rhimes, uma poderosa presença nas séries da televisão americana, conhecida por seguir uma tendência atual de escolher o elenco sem levar em conta a cor da pele. Talvez o filme fique um pouco estranho a olhos não habituados a ver a aristocracia inglesa dessa maneira. Mas a série não é realista. É ficção.

Existem até defensores da ideia, apoiada por historiadores que a consideram verdadeira, que a Rainha Charlotte e toda uma série de personagens históricos negros teriam sido “embranquecidos” nas pinturas da época.

Seja como for, “Bridgerton” diverte em nove episódios, e desde o início prega a mistura da moda contemporânea com a de época, bem como desafia posturas racistas e homofobicas, que hoje em dia não são bem vistas em lugar nenhum, por gente de bem.

Tabula Rasa

“Tabula Rasa”- Idem, Bélgica, 2017

Direção: Veerle Baetens, Jeroen Perceval, Gene Bervoets

Um dos melhores momentos em séries da Netflix, com 9 episódios, “Tabula Rasa” vem da Bélgica.

É a história de Annemie D’Haeze (Veerle Betens) ou Mie, como ela gosta de ser chamada, que se muda com o marido Benoit (Stjin VanOpstal) e a filha pequena Romy (Cécile Enthoven), para uma casa que tinha sido dos avós de Mie, no meio de uma floresta.

É bom avisar que não vamos ver um filme de terror. A série pode até mesmo parecer pertencer ao gênero, mas depois nos damos conta que se trata de um thriller psicológico, com um roteiro que usa, com muito engenho, os processos que acontecem na mente humana quando precisa de defesas frente à realidade difícil de aceitar.

Assim, Mie sofre de uma amnésia que a impede de lembrar tanto de acontecimentos de seu passado quanto do presente. Ela precisa usar um caderno onde desenha e anota recados para si mesma, sobre o que descobre e o que precisa fazer. Essa amnésia comprometeu o estado de mente de Mie em um acidente de trânsito, envolvendo o carro que ela dirigia, com a filha pequena no banco de trás.

O tempo é importante no contar essa história e, dessa forma, vamos voltar ao passado e retornar ao presente várias vezes. E assim completamos aos poucos o quadro que Mie quer lembrar mas ao mesmo tempo quer esquecer.

E nos perguntamos: qual terá sido o trauma que levou Mie a precisar da amnésia e talvez de alucinações?

Há várias reviravoltas na história que é contada do ponto de vista de Mie, que está internada em um hospital psiquiátrico. Ela não sabe porque está lá e nós também não sabemos. Um inspetor da polícia tem interesse em interrogá-la, porque parece que ela foi a última pessoa a estar com um homem que desapareceu. Ela teria algo a ver com esse sumiço?

O fato é que a série é tão bem montada que prende o espectador, que tenta fazer como Mie faz, ou seja, juntando os pedaços que aparecem e desaparecem da memória, preenchendo assim os buracos de sua mente seguindo pistas que imediatamente são anotadas ou desenhadas no caderno.

E a gente não larga facilmente dessa série. “Tabula Rasa”, que é como se diz em latim quando uma mente está vazia, prende todo mundo que gosta de desvendar segredos.

Eu adorei.