Coringa

“Coringa”- “Joker”, Estados Unidos, Canadá, 2019

Direção: Todd Phillips

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O rosto expressivo de Joaquin Phoenix, em close. Ele faz com os dedos aquele sorriso largo e impossível da máscara de palhaço, mas de seus olhos brota uma lágrima negra de rímel, enquanto ele se maquia com os outros homens-cartaz, num quartinho sujo.

O vemos numa rua decadente, com tudo em liquidação, seu cartaz de ponta cabeça. Distraído, não se dá conta do grupo mal intencionado de adolescentes que rouba seu cartaz.

Ele corre atrás, é quase atropelado, rolando pelo capô do carro, de peruca verde, chapeuzinho ridículo, jaqueta xadrez, tropeçando em seus sapatos de palhaço. Até chegar num beco onde leva uma surra dos ladrões.

A tela mostra “Joker” em letras garrafais.

E Joaquin Phoenix ri. É um riso, mais que isso, uma gargalhada que termina num soluço. Ou num gemido.

Na próxima cena, sem maquiagem, ele encara uma assistente social:

“- É impressão minha ou o mundo está ficando louco? “

Ela concorda que os tempos estão difíceis e pergunta:

“- E você Arthur? Anda escrevendo? Posso ver? ”

“- Eu tenho usado como um diário…mas também escrevo piadas, coisas engraçadas. Acho que já te contei que quero fazer “stand up”?

“Só quero que a minha morte faça mais sentido do que a minha vida. ” A moça lê essa frase no caderno amassado, letras borradas, desenhos, manchas de tinta.

“- Será que poderia pedir para aumentar a minha medicação? ” Ela responde que ele já toma sete remédios.

“- Não quero me sentir tão mal nunca mais. ”

Mal sabe ele que logo vai ficar sem remédios, nem assistente social, por causa do corte do orçamento da área de saúde.

No ônibus brinca de fazer caretas com um menino negro e a mãe reclama. Ele desanda a rir sem parar.

“- Acha graça ainda por cima? ”

“- Desculpe ”diz entre risos, “é um distúrbio neurológico” e entrega um cartãozinho para ela com a explicação de sua doença.

E Arthur Fleck compra sem saber seus últimos remédios e sobe uma escada que o leva para casa, onde vive com a mãe inválida (Frances Conroy) que ele trata bem. Ela deu a ele desde pequeno um apelido, Feliz, dizendo que ele viera ao mundo para alegrar as pessoas.

A TV sempre ligada apresenta o programa de Murray Franklin (Robert De Niro). Fascinado, Arthur sonha em aparecer nesse show. Vê a figura do apresentador como um pai que nunca teve.

E a história segue fazendo com que o espectador simpatize com Arthur, sua busca pela aceitação dos outros, sua vontade de fazer sucesso e seu desejo de ter um pai.

A trilha sonora de “Coringa” é perfeita. Desde o som soturno, às vezes quase ensurdecedor que imita a confusão mental do personagem, criado por Hildur Gudnadóttir, até o uso de canções como “Send in the Clowns” e “That’s Life”. As imagens e a iluminação de Lawrence Sher tornam tudo um sonho mau e o roteiro inspirado é contemporâneo.

Mas o filme é de Joaquin Phoenix, 45 anos. Magro como nunca o vimos (perdeu 24 quilos para fazer o personagem), ele hipnotiza a plateia, interpretando o Coringa que será o futuro vilão do Batman. Esse personagem já foi feito por grandes astros como Jack Nicholson, mas Phoenix é um Coringa diferente de todos os outros. Não há lucidez em sua fúria assassina. Há nele uma inocência infantil que o distingue de um psicopata qualquer, em luta contra outro que o habita e que quer vingança contra a sociedade que o marginaliza e ri dele.

Em suas danças ele engendra um afastamento da realidade com a criação de um espaço de beleza e delicadeza que, infelizmente será perdido no final, quando ele renasce e seu sorriso é um esgar de sangue e ódio.

O filme ganhou o Leão de Ouro em Veneza e o Prêmio de Melhor Ator para Joaquin Phoenix. Certamente Oscars virão

Bacurau

“Bacurau”- Brasil, 2019

Direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Meirelles

Tudo começa com uma imagem linda. A Terra azul vista lá de cima com Gal cantando “Não Identificado”. A câmera vai descendo e vamos, num caminhão de água para a cidadezinha no oeste de Pernambuco, Bacurau, nome de um pássaro grande e bravo que só aparece à noite.

O letreiro avisa que tudo vai se passar daqui a alguns anos.

Estranhamos, com o caminhoneiro e a moça a seu lado, que na estrada, um outro caminhão que leva como carga caixões de defunto, chama a atenção, emborcado.

Passamos pelas ruínas de uma escola e logo chegamos à cidadezinha de uma rua só, casas pobrinhas e ruas de terra.

A moça volta para casa porque morreu sua avó querida, dona Carmelita, aos 94 anos. Vestida de branco ela jaz na cama, na casa acanhada cheia de gente para o velório. Toda a cidade comparece ao enterro da anciã, saudada pelo filho como a matriarca de uma família espalhada pelo mundo.

Só a dra Domingas (Sonia Braga) sobe numa cadeira, não para louvar mas para insultar a morta. Depois ficamos sabendo que ela é um doce de pessoa, menos quando bebe. Pediu desculpas publicamente.

O cortejo, com direito a carro de som, leva dona Carmelita e, estranhamente, por duas vezes sai água cristalina de dentro do caixão. Mas lenços brancos acenando marcam a despedida do povo à velha senhora. E a câmera mostra o belo céu vermelho, depois cinza e azul.

Vamos conhecendo os habitantes de Bacurau, gente pobre, sofrida mas que ainda sabe sorrir e cantar.

Outra coisa estranha é o “close”, que acontece algumas vezes, da boca de alguém engolindo uma coisa que parece um comprimido ou pedaço de algo amarelo.

Mas, mais estranho ainda é que parece que Bacurau desapareceu do mapa. Como foi isso?

O filme vai levando o espectador a ver o que sofre o povo nessa cidade. Falta de água, eletricidade, comida, remédios, vacinas. Tudo.

Quando chega o prefeito, em plena campanha para reeleição, todo mundo desaparece e só se ouvem os insultos gritados pelo povo, atrás de suas portas e janelas.

Tudo que o prefeito trouxe, ou quase tudo, tem o prazo de validade vencido e o remédio gratuito de tarja preta é um veneno, avisa a dra Domingas.

Tudo tem limite nessa vida, parece dizer o povo.

E quando a violência gratuita explode através de armas “vintage” e invade a tela, levamos um susto.

“Bacurau” é uma fábula sobre a injustiça, a violência gratuita gerando violência e a loucura de que o ser humano é capaz.

O que mais me arrepiou foi a tela de uma televisão mostrada rapidamente, que anuncia “execuções públicas no Anhangabaú”. Será que vamos retroceder a esse tipo de barbárie de norte a sul?

Temos todos que refletir sobre o que queremos para o nosso Brasil. “Bacurau” ajuda nisso.