Oito Mulheres e um Segredo

“Oito Mulheres e um Segredo”- “Ocean’s 8”, Estados Unidos, 2018

Direção: Gary Ross

Oferecimento Arezzo

Cuidado com elas. Agora, até no crime as mulheres estão competindo com os homens.

Com inteligência, senso de oportunidade, criatividade e companheirismo, sem quebrar nem sequer uma unha e ninguém ir parar no hospital, elas conseguem o que seria impossível. Mas nada de cassinos em Las Vegas. Aqui temos um plano bem feminino envolvendo um objeto do desejo de toda mulher poderosa: diamantes.

O projeto foi criado por Debbie Ocean (Sandra Bullock), irmã de Danny Ocean (George Clooney) do filme de Steven Soderbergh “Onze Homens e um Segredo” de 2001. Ela usou seus 5 anos, 8 meses e 12 dias na prisão para pensar e chegar à conclusão que seria possível roubar um maravilhoso colar de diamantes da Cartier, o “Toussant”, com três quilos de pedras, valendo 150 milhões de dólares.

Mas como chegar a uma joia guardada no subterrâneo blindado da Cartier num cofre ultra protegido?

Debbie encontra-se com sua amiga Lou (Cate Blanchett, divina) e elas conseguem formar um time de oito mulheres especiais, cada uma craque em uma área necessária para resolver cada ponto do projeto que precisava ser detalhado.

Porque a ideia de Debbie é roubar o colar em pleno “Gala” do Museu Metropolitan de Nova York, para o qual são convidadas as celebridades do momento.

Então a primeira dificuldade já parece intransponível. Como estar lá dentro no jantar mais exclusivo do ano?

O filme é interessante pela maneira ardilosa como elas derrubam cada um dos obstáculos. As especialistas são chamadas uma a uma. Assim, há uma joalheira indiana que entende de pedras, Amita (Mindly Kaling), uma esperta ladra de rua, Constance (Awkwafina), uma receptadora que se infiltra na revista Vogue, Tammy (Sarah Paulson), a hacker Bola 9 (Rihanna), e a estilista irlandesa Rose Weil (Helena Bonham Carter) que vai fazer o vestido, que será usado com o famoso colar, para a badalada atriz Daphne Kruger (Anne Hattaway) , figura importante do plano.

Os homens que participam da história tem pouco espaço mas são indispensáveis para que ocorra uma vingança (Richard Armitage) e para um deles ser feito de bobo (James Corden).

Talvez o filme agrade mais às mulheres porque, além do plano bem bolado e executado com maestria, elas vestem roupas fabulosas (figurinos de Sarah Edward), como o vestido cor de jade de Cate Blanchett, que é a mais elegante, inclusive quando veste um terninho azul céu bem ajustado no corpo ou o blusão de roqueiro com calça de couro e mesmo o blaser de veludo verde esmeralda que realça a cor  dos olhos dela. Sandra Bullock sai da prisão com um vestido negro transparente bordado e um maxi casaco dramático.

No jantar do MET, a capa de Anne Hattaway combina com seu colar fabuloso e ela fica linda tanto de frente quanto de costas, para delírio dos fotógrafos.

No local do jantar está havendo, na sala ao lado, uma exposição de joias e vestidos da realeza europeia mas ninguém dá muita bola porque todos querem ver e ser vistos no jantar.

E esperem uma surpresa que torna o final mais saboroso.

“Oito Mulheres e um Segredo” não é um grande filme mas é bom entretenimento. Leve e divertido.

A Amante

“A Amante”- “Hedi”, Tunísia, Bélgica, França, 2016

Direção: Mohamed Ben Attia

A Tunísia é um país do norte da África, banhado pelo Mediterrâneo. Foi lá que começou a Primavera Árabe e o resultado foi a queda do regime de Ben Ali e uma transição democrática. Porém o país vive uma crise econômica.

Mas Mohamed Ben Attia, diretor e roteirista, não quer falar diretamente de política em seu filme. Seu foco é um rapaz de 25 anos, Hedi, que vai viver uma crise existencial num lugar onde a tradição ainda comanda a vida das pessoas, apesar dos ventos de liberdade.

Ele é vendedor de carros Peugeot mas logo vemos que seu trabalho não o entusiasma. Vai casar-se logo e fica sabendo que terá que adiar a lua de mel por causa da crise. Mas isso não parece afetá-lo.

Durante uma visita à casa da noiva de Hedi, podemos notar que sua mãe Baya (Sabah Bouzouita) é quem manda em sua vida. Esse casamento é arranjado e planejado sem a participação do filho. Hedi obedece. Parece que para ele tanto faz.

Khedija (Omnia Ben Ghali), a noiva, é uma moça bonita mas quase tão indiferente a Hedi quanto ele a ela. Em seus poucos encontros no carro dele à noite, não há nenhum sinal de paixão e a conversa é superficial e desanimada. Ela só mostra entusiasmo nas mensagens que envia para o celular de Hedi. Parece outra pessoa.

A paixão de Hedi são seus desenhos que sonha publicar um dia numa revista de quadrinhos. Mas sua mãe desdenha desse “hobby”. É evidente pela conversa na casa da noiva que a mãe não considera Hedi um filho de quem se orgulha, diferente do mais velho a quem ela só tece elogios. Falam todo dia pelo Skype porque ele mora na França e casou por lá. Conta, mentindo, que o maior desejo desse filho é voltar para casa.

Bem, tudo se daria conforme o que quer a mãe de Hedi, se não fosse por um encontro casual num hotel em Mahdia, onde Hedi fora enviado para prospectar novos clientes.

Ao ver a bela dançarina Rim (Rym Messaoud) no cenário tropical do palco ao ar livre, sorrindo ao cantar e dançar para os hóspedes, Hedi descobre pela primeira vez na vida o que é o poder de atração que uma mulher pode exercer sobre um homem.

A química entre os dois é perfeita e Hedi se apaixona a poucos dias do seu casamento. Aflora sua espontaneidade e ele se mostra carinhoso com Rim, que é um pouco mais velha do que ele. Eles se divertem e riem o tempo todo.

Mas ao viver toda essa felicidade e prazer, desconhecidos para ele até então, Hedi também vai ter que enfrentar seus limites como pessoa e decidir o que vai fazer com sua vida.

No Festival de Berlim o filme ganhou o Urso de Prata como melhor filme de diretor estreante e O Urso de Prata para o melhor ator, Majd Mastoura, que faz o papel principal.

Com o selo de qualidade dos irmãos Dardenne que figuram como produtores, “A Amante” é um interessante estudo psicológico do homem na tradição muçulmana, tão sujeito quanto a mulher à sua força, representada pela família.