Os Herdeiros da Terra

“Os Herdeiros da Terra”- “Heirs to the land”. Espanha, 2022

Direção: Jordi Frades

Oferecimento Arezzo

Você viu e gostou da “Catedral do Mar”? Então veja também a continuação dessa história, baseada no livro de Ildefonso Falcones, numa série de 8 capítulos.

Tem como cenário a Barcelona de fins do século XIV, anos 1300 e mostra os contrastes da vida de nobres e do povo, os privilegiados e os desprovidos de tudo.

O personagem de Arnau Estanyol (Aitor Luna), um “bastaixo”, nome dos que ergueram a famosa Catedral com a força de seus braços, agora, graças à sua inteligência e temperamento amigável tornou-se um rico negociante, pertencendo aos 100 Cidadãos do Conselho da cidade. Casado com Mar (Michelle Jenner) construiu para si um belo palácio ricamente decorado, onde viviam com seu filho Bernat (Rodolfo Sancho).

Pensando no futuro de seu herdeiro, Arnau o envia a Constantinopla por mar para que aprendesse a arte do comércio e da navegação, naqueles tempos que privilegiavam os barcos com mercadorias, escravos e marinheiros.

Mas o principal personagem dessa parte da história é Hugo (Yon Gonzalez), um garoto de 12 anos, que perdeu o pai num naufrágio e torna-se protegido de Arnau. Mar lhe dá as roupas que seu filho deixou para trás e belas botas vermelhas. Para Hugo, que andava descalço, aquilo era o seu maior tesouro.

Mas a vida feudal era dura para os que não possuíam riquezas. Apesar da proteção de Arnau, a mãe de Hugo é levada por um açougueiro e o garoto, por intervenção do comerciante, vai trabalhar nos estaleiros para aprender a profissão. Sua irmã escolhe trabalhar no convento das freiras. Não será esquecida.

A religião católica, ainda ligada à Inquisição que dominava a corte e o trono, era temida e perseguia os judeus ricos. Hugo era amigo de um judeu poderoso e irá casar-se com uma judia bela e de família rica.

Mas o velho rei está morrendo e o poder vai mudar de mãos. Em Barcelona, o inimigo de Arnau Estanyol, Conde de Navardes, toma o poder e não vai ter piedade de ninguém.

A ambição pelo poder e a riqueza de mãos dadas com a vingança, vai fazer o sangue correr como um rio pelas ruas de Barceloma.

As mulheres ocupam bastante espaço na história, seja como esposas, amantes, criadas, escravas, freiras, princesas ou rainhas. Não se deixam abater e muitas vezes comandam os acontecimentos. O amor, as traições, o mistério dos venenos e das plantas que curam é o terreno delas, todas feiticeiras da luz ou das sombras.

A lição que encerra “Os Herdeiros da Terra” é a de que o poder usado com crueldade, deixa os homens ainda mais vulneráveis a crueldades maiores. Hugo aprendeu com Arnau de Estanyol o preço que se paga quando não existe perdão nem compaixão.

E a belíssima cena final indica que há esperança para a humanidade quando a terra for nossa herança bem cuidada, de geração a geração.

Alias Grace

“Alias Grace”- Idem, Canadá, 2017

Direção: Mary Harron

É tudo verdade? Um duplo assassinato foi a causa de uma sentença de enforcamento e outra comutada por prisão perpétua. Mas o que foi que aconteceu? Quem é Grace Marks a acusada de um dos assassinatos, que assinou Mary Whitney na confissão?

Ela tinha só 15 anos quando veio da Irlanda com a família para o Canadá, em 1843, a mais velha de cinco irmãos.  Num navio que quase naufraga, assiste a morte da mãe e vê ela ser jogada no mar, ficando à mercê do pai violento, abusivo e alcoólatra.

Chegando em Toronto, Grace (Sarah Gadon) vai procurar uma amiga, Mary Whitney (Rebecca Liddiard) e consegue um emprego na casa aristocrática onde a outra trabalha. O salário magro vai ser enviado para os irmãos mas ela vai ter um teto e comida.

Grace é pequena e bela. Tem uma delicadeza natural e  grandes olhos azuis, que mantem sempre baixos. Dormir na mesma cama que a amiga, escutar suas histórias, rir e receber o seu afeto marcou um período abençoado em sua vida.

Infelizmente ser mulher, em qualquer época, foi sempre difícil e ainda é. Um aborto sanguinário leva Mary que murmura suas palavras finais para Grace:

“- Deixe-me entrar…”

Sem tempo para chorar seu luto, Grace tem que fugir do assédio do filho da dona da casa. Desde então Grace não foi mais a mesma. Aceita um novo emprego sem saber nada sobre o novo patrão. Nancy Montgomery (Anna Paquin) oferece um lugar na casa onde trabalha como governanta. Ela aceita sem pestanejar.

E foi lá que tudo aconteceu. E Grace foi parar no hospício, depois da confissão escrita pelo advogado e da sentença de morte comutada, a qual ela assinou com o nome da amiga morta. Grace dizia que não se lembrava de nada.

Os sofrimentos indizíveis sofridos tanto no hospício quanto na prisão por já 15 anos, certamente produziram marcas indeléveis na pobre Grace. Inocente ou culpada, nem ela sabia o que acontecera. Cabisbaixa e calada era como uma sombra.

Mas uma reviravolta do destino acontece e um comitê de pessoas aparece querendo ajudá-la. E um psiquiatra, doutor Jordan (Edward Holcroft), entra na vida dela.

Começam as entrevistas diárias, ela trazida da prisão para a casa do governador. A ideia era descobrir a verdade. E escrever um relatório a favor da inocência de Grace.

Esse é o centro e o coração da minissérie, adaptada de um livro de Margareth Atwood de 1996. A produtora e roteirista Sarah Polley, conseguiu comprar os direitos depois de uma luta que levou anos. Em seis episódios a história de Grace é contada por ela mesma.

O médico é o primeiro que escuta Grace sem tentar influenciá-la. E o que ela conta é totalmente diferente da confissão que ela assinara como Mary Whitney, como se Grace fosse seu pseudônimo, seu “alias”.

Durante as entrevistas ela costura uma colcha em “patchwork”, feita de pequenos quadrados que juntos formam um desenho. Metáfora para pensarmos sobre o mundo interno de Grace estilhaçado e agora sendo refeito através da narrativa cronológica dos acontecimentos?

Nossa mente se atrai por esse relato de Grace. Dúvidas que surgem sobre o que ela conta são descartadas para novamente pensarmos se aquilo é verdade ou criação da imaginação de uma mentirosa?

Na verdade, a pergunta é: quantas Graces há nela?

Esse relato bem construído fala a favor da inocência dela ou há distorções da verdade? Há em Grace uma cisão? Dupla personalidade? Histeria? Ou apenas o resultado de tudo que ela passou na vida e que, por acaso a envolveu, sem realmente ela querer tais acontecimentos?

E o doutor Jordan era o único que ouvira uma história que tanto poderia ser o que Grace vivera, quanto totalmente inventada. Não havia testemunhas vivas.

Ele diz para o reverendo (o diretor David Cronemberg) que o contratou:

“- Com tantos sofrimentos e uma vida roubada, quanta raiva deve estar guardada nos porões de sua mente? “

Razões haviam. Mas seria ela capaz de matar?

Excelentes atores. Sarah Gadon é dona de uma interpretação brilhante. Direção e o roteiro impecáveis e uma história fascinante.

Não perca.