Prenda-me se for capaz

“Prenda-me se for Capaz” - “Catch Me if You Can”, Estados Unidos, 2002

Direção: Steven Spielberg

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Um filho único adolescente e romântico que gosta de ver os pais dançando na sala (Nathalie Baye e Chistopher Walken) e que adora quando escuta a história de como ele conquistou o amor dela, é um caso raro.

São os anos 60 e Frank Abagnale Jr (Leonardo DiCaprio) descobre que tem talento para se fazer passar por quem não é. Quando muda para uma escola nova, por causa de problemas financeiros do pai, banca o professor substituto de francês e só é descoberto dias depois.

Para a infelicidade de Frank, aos 16 anos, seus pais se separam e o pai está devendo dinheiro ao governo. Esse personagem infantil, resolve então que vai unir os pais novamente e devolver a eles todo o dinheiro que o pai perdeu em maus negócios. Com uma inteligência fora do comum e a esperteza necessária, ele foge de casa e convence a todos que é piloto de avião, depois médico e ainda por cima advogado, sem nunca ter estudado além do ensino médio. Compõe tais identidades falsas assistindo na TV ao “Dr Kildare” e “Perry Mason”.

Mais. Com sua capacidade para convencer as pessoas a fazer o que ele quer, passa cheques sem fundo e depois se especializa em falsificar cheques, com tal maestria, que consegue, em cinco anos, alguns milhões de dólares, que guarda em malas escondidas.

Frank não é o tipo para quem o dinheiro serve para comprar uma vida luxuosa e dissipada. Não. O menino que ele ainda é quer agradar o pai e insiste em comprar para ele um Cadillac, que é sempre devolvido, já que o pai não poderá justificar a posse do carro.

A ligação forte com o pai e o orgulho dele, mal disfarçado, com o que o filho consegue na vida, vai ter um reflexo na relação que Frank vai manter com seu perseguidor do FBI, Carl Hanratty (Tom Hanks). Frank consegue escapar do agente mal humorado, inflexível e persistente, sempre na última hora, a ponto de torná-lo uma espécie de pai disciplinador, que o admira, por sua sagacidade e brilhantismo e que vai protegê-lo de si mesmo.

Leonardo DiCaprio com seu olhar de anjo e bela estampa, tem também fala macia e as mulheres se derretem por ele. Jennifer Garner, que tenta fazê-lo pagar por uma noite de amor, é seduzida e ludibriada.

Ele é adorável e mente sem maiores problemas.

E o mais inacreditável é que ainda está vivo, nada no filme é inventado e, agora, Frank Abagnale Jr está milionário graças ao seu largo conhecimento em fraudes bancárias. Trabalhando para evitá-las.

Steven Spielberg mostra seu talento para narrar histórias e divertir o público com seu cinema sempre inteligente e brilhante. Uma delícia de filme.

A Casa que Jack Construiu

“A Casa que Jack Construiu”- “The House That Jack Built”, Dinamarca, França, Alemanha, Suécia, 2018

Direção: Lars von Trier

Na tela negra, a tradução de um diálogo que ouvimos entre dois personagens:

“- Posso perguntar algo? ”, diz o mais jovem.

“- Poucos conseguem ficar em silêncio durante essa caminhada…Só não pense que vai me contar algo que já não ouvi antes…” responde o mais velho.

Ninguém entra no cinema para ver o novo filme de Lars von Trier sem saber do que se trata. Fartamente comentado, ficamos sabendo que em Cannes, onde passou pela primeira vez, fora da competição, pessoas se retiraram da sessão, escandalizados. Mais uma vez, o diretor dinamarquês consegue chocar. Lembram-se da polêmica entrevista em Cannes sobre “Melancolia”? Foi expulso do festival. Ele volta agora com um filme sobre a Maldade.

Relembremos o diálogo inicial do filme. Virgílio, o poeta romano que viveu de 70 aC a 19 aC e que figura na “Divina Comédia” de Dante como aquele que o acompanha na caminhada pelos círculos do Inferno e Purgatório, é o velho sábio interpretado pelo ator alemão Bruno Ganz, que dialoga com Jack, o “serial killer”, na pele do ótimo Matt Dillon.

Jack vai encenar e comentar com Virgílio o que ele diz que são “incidentes”, cinco, ocorridos em 12 anos. São assassinatos que Jack chama de obras de arte. Assina fotos tiradas dos corpos como “Mr Sophistication”.

O primeiro deles ocorre quando uma bela mulher (Uma Thurman) precisa de ajuda para consertar o macaco (“jack”) do carro. Pega carona com Jack e estranhamente começa a comentar ironicamente o erro que cometeu, já que um estranho como ele poderia ser um “serial killer”. Ele ainda não é mas ela se torna sua primeira vítima.

E assim continua o filme, com Jack e seus “incidentes”, tudo com um humor bem negro e bastante sadismo nos detalhes.

Nos intervalos, Jack que é engenheiro mas sempre quis ser arquiteto, compra um terreno em frente a um lago e tenta construir sua casa. Mas, obsessivo, não consegue chegar ao que almeja e destrói tudo para recomeçar. No fim uma arquitetura macabra abre o caminho de Jack para o Inferno.

Durante o filme vemos cenas filmadas do pianista Glenn Gould, que era um obsessivo em busca da perfeição, tocando Bach. Quadros de diferentes pintores ilustram os “incidentes”. Fotos da vida real e outras encenadas. O arquiteto nazista Albert Spier e suas construções. E várias outras referências culturais que justificariam as ações de Jack. Assim pensa ele.

Virgílio é paciente, escuta, critica mas Jack sempre tem razão. E não se arrepende de nada.

Obsessivo compulsivo, psicopata, narcisista, perverso, misógino, antropofóbico, misantropo, nenhum rótulo explica Jack. Ele seria um produto de suas próprias escolhas, parece concluir Virgílio, que o abandona à própria sorte.

Lars von Trier escolheu ser um cineasta que fala de suas angústias através de seus personagens. Vão ver seus filmes aqueles que querem e não se assustam tanto assim em encarar o lado mais escuro do ser humano.