O Vazio do Domingo

“O Vazio do Domingo” - “La Enfermedad de Domingo”, Espanha, 2017

Direção: Ramón Salazar

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Naquele palácio de mármore e espelhos, a dona da casa alta, cabelos brancos bem cuidados, vestida com uma saia longa de seda e suéter prata, dá as últimas instruções aos criados antes do jantar formal. Tudo tem que estar perfeito.

Anabele sabe receber bem. O jantar aconteceu, como sempre, às mil maravilhas, apesar do tédio que transparece no rosto dela.

Mas, acabado o jantar, quem é aquela moça que a encara num misto de atrevimento e surpresa? Como conseguiu entrar na casa? Não é um dos convidados.

Passado o primeiro susto, um papel amarrotado é deixado em cima da mesa. Um encontro está marcado.

E Anabele vai se ver frente a frente com Chiara, a filha que deixou com o pai aos 8 anos de idade.

Vão passar dez dias juntas. É o pedido que a filha faz. E a mãe, parecendo a contragosto, vai.

Quando chega na velha casa, nada parece mudado. E Chiara não se mostra simpática nem acolhedora. Por que então insistiu nesse encontro?

Ramón Salazar, diretor e roteirista coloca aquelas duas, a mãe (Susi Sánchez) e a filha (Bárbara Lennie), separadas há tanto tempo, juntas, para contar uma história comovente.

Dia após dia, mãe e filha vão se estranhar e se aproximar, numa coreografia de diferentes afetos, construída ao longo desse tempo que passam na mesma casa.

Não se conhecem. Os laços de sangue não ajudam. Será no mais profundo poço do abandono acontecido que Anabele vai reencontrar a filha Chiara.

Despida de luxos e da arrogância, a mãe vai comover-se com a filha. Tão distantes mas já tão próximas aquelas duas.

Há uma missão a ser cumprida. E a mãe vai oficiar um ritual de compaixão. Só ela vai entender, não sem dificuldade, do que a filha precisa. Eis o porquê do chamado.

Um clique de máquina fotográfica antiga une as diferentes fases do filme, fazendo menção ao tempo real e ao tempo imemorial do afeto.

Uma reconstrução do passado é necessária para que  mãe e  filha possam atuar, afinal, o ritual de passagem inspirado pelo amor, que une vida e morte.

A Noite Devorou o Mundo

“A Noite Devorou o Mundo”- “La Nuit a Devoré le Monde”, França, 2017

Direção: Dominique Rocher

Confesso que não vejo filmes de zumbis. Gosto de filmes de horror quando há algo a pensar. O que é muito raro.

Mas sei que sentir medo e tudo acabar depois de duas horas, é diversão para muitos. Talvez porque se reasseguram que não há nada a temer fora da sala de cinema, onde gritaram e fecharam os olhos quando o clima apertava. Adrenalina na veia.

Mas o mundo de hoje em dia provê bastante terror real. É isso que os fãs de filmes de horror não querem ver? Porque não dá para controlar a ameaça real.

E quem algum dia imaginou Paris entregue aos zumbis?

Se no lugar dos mortos vivos pensarmos em imigrantes muçulmanos, não fica muito diferente o cenário para os xenófobos, os que temem os estrangeiros em geral e os árabes em particular, muito mais depois dos ataques terroristas que aconteceram na França.

Há mesmo uma paranoia crescente entre os que vivem com medo de homens bomba, os “zumbis” atuais.

“A Noite Devorou o Mundo” presta-se a esse tipo de reflexão. Mas também a leituras mais psicológicas.

Assim, Sam (Anders Danielsen, ator norueguês de “Oslo, 31 de agosto” de 2011, do genial diretor Joaquim Trier) é um garoto que está bravo e triste porque levou um fora da namorada. Quando ele volta na casa dela para pegar coisas dele ainda com ela (o coração?), depara-se com uma festa dada pela ex e o atual dela. Fica ainda mais raivoso, ignorado que é pelos outros convidados. E não aceita nem conversar com a menina que o desprezou.

Nesse estado de espírito, Sam vai se refugiar num quartinho dos fundos do apartamento onde, cansado de tanta injustiça contra ele, dorme.

E, claro, acorda num pesadelo.

Algo aconteceu porque todos morreram e viraram zumbis. Se pensarmos na raiva mortífera que o acompanhou naquele exílio voluntário no quartinho, foi ele mesmo o causador do massacre. E agora, está à mercê dos devoradores de gente. Dente por dente, olho por olho.

Quem era Sam antes desse apocalipse? Não sabemos grande coisa. Gosta de música porque o vemos com fones de ouvido e improvisando sons com copos, garrafas e coisas da cozinha, qual um Phillip Glass sem talento.

Isso quando não bate nos pratos e tambores da bateria que já foi de alguém. Nela descarrega sua raiva e também chama os zumbis para caçoar deles. Ele é onipotente e reina acima dos pobres mortos vivos que não conseguem atingi-lo.

Sam é um solitário. Talvez tenha o perfil daqueles garotos americanos que voltam à escola para matar.

O certo é que ele prendeu um dos zumbis (Denis Lavant, ótimo), que queria come-lo, no elevador. Toda noite senta-se a seu lado, ouve os grunhidos e, fora do alcance daquelas garras, fuma charutos e faz confissões.

Há uma garota que ele fere pensando que ela era um dos zumbis. A bela iraniana Golshifteh Farahani semeia um início de culpa e luto em Sam e parece que isso o liberta da prisão que ele habita.

Mas não ficamos sabendo de muito mais.

“A Noite Devorou o Mundo” é um filme de um jovem diretor estreante, Dominique Rocher, bem realizado e baseado no romance de Martin Page (sob pseudônimo de Pit Agarmen, em anagrama), com ideias originais e uma competente produção.