Sr e Sra Smith

“Sr e Sra Smith”- “Mr and Mrs Smith”, Estados Unidos, 2005

Direção: Doug Liman

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Eles eram tão bonitos juntos… Tão sensual esse casal, que todo mundo os chamava de Brangelina, já que não havia Bradd Pitt sem Angelina Jolie. Tudo mudou, nada dura para sempre mas o filme faz lembrar como eles eram.

O primeiro encontro dos personagens se dá em Bogotá, em meio a gente armada e feroz. John (Bradd Pitt) salva Jane (Angelina Jolie) e os dois, depois de olhares profundos e convidativos drinques, dançam no ritmo só deles.

Corta para a manhã seguinte e ela, na cama, recebe o café da manhã que ele foi buscar, amoroso.

Cinco ou sete anos depois, pasmem, mas lá estão eles na primeira sessão da terapia de casal e parece que a química mudou.

Bem, nada é o que parece. Longe de serem outro casal de classe alta morando no subúrbio, ela trabalhando com computadores e ele com construção, vamos descobrindo que existem segredos entre os dois. E bem guardados.

Os dois são assassinos profissionais. Quem diria. E vivem sem saber do outro até que se encontram na mesma missão. Quase se matam sem querer, nem saber.

A história terá reviravoltas mas  acho que ninguém presta muita atenção. Por que? Ora, é claro que os verdadeiros alvos dos olhares de todos se viram para o jeito como esses dois colocam em ação os truques que cada um imagina para eliminar o outro. Um gato e rato que coloca a dúvida: quem é o rato e quem é o gato?

Tem bastante humor nessa história e nada de sangue. Bem, talvez um pouquinho no colarinho da camisa de John, que passa até por batom de outra mulher.

Este é um filme de ação onde o que queremos ver não são só explosões e carros capotando, mas sim Angelina, com uma roupa sexy de “dominatrix”, torcendo o pescoço do bandido, que não teve tempo de avaliar bem a situação. E quando Bradd é atropelado pela Mercedes de Angelina e sai inteirinho?

Então, o que eles faziam separados e depois juntos, é o que é a atração desse filme. Angelina e Bradd há 15 anos atrás estavam no auge da forma física e fama.  E é bom revê-los assim. Porque o tempo passa e tudo muda nessa vida. É uma pena mas é a regra para todos nós.

Ataque dos Cães

“Ataque dos Cães”- “The Power of the Dog”, Nova Zelândia, Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, 2021

Direção: Jane Campion

Palavras, antes de imagens, iniciam o filme e uma voz masculina diz:

“- Quando meu pai morreu, eu tinha um único desejo. Fazer minha mãe feliz. Que tipo de homem eu seria se não a ajudasse? Se não a salvasse?”

Nesse momento inicial, essas frases soam como um aviso ou explicação. Mas ainda não temos ideia do que significa. Isso só vai ser esclarecido no fim. Mas é bom prestar bastante atenção em detalhes significativos, que aparecem ao longo da história.

Estamos nos anos 20 do século passado na maior fazenda de gado de Montana, Estados Unidos. Dois irmãos administram as terras dos pais. Em tudo diferentes, estão sempre juntos.

Habitam a antiga casa da fazenda, onde é sempre penumbra, não fossem as janelas abertas que enquadram colinas desertas ao longe.

Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons) são inseparáveis e foram educados nas artes de ser vaqueiro por Henry Bronco, alguém já falecido, que Phil idolatra e com quem adivinhamos uma relação intensa e secreta.

Phil é arrogante, imponente, cruel e, apesar da formação acadêmica como filósofo, sua aparência é rude e sua postura sádica quanto aos mais fracos. Não toma banho e seu odor afasta as pessoas. Aliás não é próximo de ninguém e sua fala é sempre sarcástica. Sempre que pode demonstra sua homofobia, em tão alto grau, que detectamos um desejo fortemente reprimido debaixo das vestes e maneiras de um macho alfa.

Já o irmão George é delicado, gentil, de poucas palavras e aparentemente não se ofende com os insultos que o irmão lhe dirige. Parece que ele entende o porquê de Phil ser como é.

Quando George decide casar-se com Rose Gordon (Kirsten Dunst), a dona do restaurante e pousada não longe da fazenda , e diz que ela virá morar com ele, trazendo seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), vai começar um suspense trágico.

Jane Campion, 67 anos, neozelandesa, diretora, produtora e roteirista, super premiada por seu filme “O Piano” de 1993, que ganhou o Oscar e a Palma de Ouro no mesmo ano, parece que vai acertar outra vez. Levou este ano em Cannes a Palma de Ouro como melhor diretora por “Ataque dos Cães”.

A natureza humana, não importa o lugar nem a época, pode ser controlada em seus impulsos para a maldade. Mas, depende de cada um. Fazer a escolha entre ser bom ou cruel, é nossa. E sempre lembrar que ao reprimirmos demais a nossa própria natureza em seus desejos, há o perigo de cairmos no oposto e é por aí que os “cães” atacam. E o pior ataque é o que acontece dentro de nós mesmos.

Em Phil, interpretado com assombro por Benedict Cumberbach, a homossexualidade reprimida transborda numa homofobia cruel. Peter e Rose são seus alvos preferidos. Rose, interpretada com doçura e medo por uma maravilhosa Kirsten Dunst, será salva da loucura por seu filho Peter. É dele a frase inaugural que agora faz todo sentido para quem vê o filme.

Merece menção a música de Jonny Greenwood, que nos ajuda a entender os afetos em jogo, pontuando os momentos cruciais com cordas de violinos e cellos discretos mas inspiradores.

“Ataque de Cães” é até agora, o melhor do ano. Ponto para a Netflix que emplaca e lança mais um grande filme em seu catálogo.

Não percam