Um Lugar Chamado Notting Hill

“Um Lugar Chamado Nothing Hill”- “Notting Hill”, Estados Unidos, 1999

Direção: Roger Mitchell

Oferecimento Arezzo

Já faz 20 anos que vi esse filme e quando agora revi me surpreendeu. Gostei ainda mais do que me lembrava. Pensei comigo mesma que os anos passam e deixam uma nostalgia ligada a eles que só percebemos depois e que o cinema pode fazer reviver. Os personagens com os quais nos identificamos trazem à memória momentos vividos que recuperamos. A emoção brota de uma fonte antiga que se faz nova diante da tela que conta uma história.

E essa comédia romântica tem essa magia.

O filme começa com “She”, a canção cantada com vibração pelo grande Charles Aznavour, enquanto passam os créditos e vemos Julia Roberts em “closes” com as mais diferentes expressões. Ela é sempre a estrela. Rodeada de fotógrafos por onde vai, a arte imita a vida dela. E a conquista é imediata. De cara estamos sob a fascinação que ela exerce com seu sorriso luminoso, seus olhos que brilham e o carisma que nasceu com ela.

Ele, Hugh Grant, ao contrário, faz o patinho feio ou melhor desajeitado, porque de feio ele não tem nada.

Mesmo quando mostra-se inibido ou atrapalhado quando ela entra na livraria dele em Notting Hill, por acaso e é deliciosamente sádica com ele, já que percebe o que acontece, Hugh Grant ganha também a nossa simpatia. E torcemos para que ela não vá embora. Aquele par parece perfeito. Uma química avassaladora preenche a tela e nos faz cúmplices, quase cupidos, daquele amor que está nascendo. Anna Scott e William Tacker nasceram um para o outro e nós já sabemos disso.

A celebridade da estrela famosa que a torna inacessível e o anonimato do livreiro tímido, com casamentos desfeitos e solitário, vai fazer a história do filme acontecer.

Há também uma vibração diferente no clima britânico em que Anna mergulha. No jantar do primeiro encontro na casa dos amigos dele, ela é admirada por todos, claro, mas só a irmã mais nova de William (Emma Chambers) assume a tietagem. E ela, ao invés de se aborrecer, é agradável e compreensiva com a garota meio desmiolada que faz par com o inquilino de William, o excêntrico Spike (Rhys Ifans).

Os amigos de William, bem intencionados, querem arranjar alguém para ele, mas parece que nada dá certo. Depois de Anna, então, não há salvação possível para William que está irremediavelmente apaixonado por ela.

O roteiro escrito por Richard Curtis tem diálogos engraçados e um “timing” perfeito para o público torcer para o reencontro final do par romântico.

Enfim, o filme é cativante e é considerado como um dos clássicos do gênero.

Detalhe. Assim como abre o filme, a canção “She”, agora na voz de Elvis Costello, fecha a história e se alguém quiser ver de novo, em tempos de NETFLIX, não só é possível mas compreensível.

Nós

“Nós”- “Us”, Estados Unidos, 2019

Direção: Jordan Peele

Vocês viram “Corra!”, o filme de Jordan Peele que apareceu na lista dos indicados a melhor filme do ano no Oscar 2017? Ele levou o prêmio de melhor roteiro original. E o diretor foi o primeiro negro a ganhar nessa categoria. Seu filme era original, divertido e os elementos de terror eram usados de maneira diferente da comum.

Nesse “Nós”, Jordan Peele surpreende de novo. Também pode ser visto como outro filme de terror original mas aqui, além do racismo, como em “Corra!”, há uma leitura sofisticada sobre a psicologia do duplo, fala-se sobre o medo do que está escondido dentro de nós nas zonas de sombra, mostra-se a falência do sonho americano e discute-se a massa e sua força terrível e descontrolada. E, claro, cada um pode descobrir outros temas nesse filme tão instigante.

Porque Peele é bastante inteligente ao lidar com esses assuntos, tão contemporâneos, de modo a possibilitar várias leituras do seu filme. Há aqui muitas camadas de compreensão, se pararmos um pouco para pensar. Mas não é obrigatório. “Nós” pode ser visto apenas em sua superfície, como um filme de terror que não deixa o espectador sossegado, com passagens divertidas e sustos bem colocados.

Tudo depende da nossa possibilidade de lidar com metáforas e entender os símbolos. Cada um vai ver um filme diferente do que o outro viu? É bem possível, porque a realidade é sempre subjetiva e lemos o que está na nossa frente com a bagagem adquirida ou não ao longo da vida.

Quando o filme começa há uma alusão a tuneis não mais utilizados ou com propósitos desconhecidos nos Estados Unidos. Mostra-se também que 6 milhões de americanos se uniram para combater a fome no país.

E tudo se inicia num parque de diversões decadente em 1986. Uma família de negros tenta se divertir na Praia de Santa Cruz mas o ambiente não é agradável. Destaque para um sujeito mal encarado e sujo que segura um cartaz que diz “Jeremias 11:11” (“Portanto assim diz o Senhor. Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar e clamarão a mim mas eu não os ouvirei. ”)

Enquanto a mãe vai ao banheiro e o pai joga numa máquina, a menina Adelaide afasta-se da família. Desce uma escada para a praia. E como começa a chover ela se abriga num lugar que parece ser um brinquedo do parque. Um letreiro diz: Venha se Conhecer.

O local é um labirinto de espelhos. Uma coruja dá um susto na menina, uma voz fala da Mulher Aranha e de repente tudo fica escuro. Quando vê o luminoso de “Saída” a menina corre para lá. Mas bate numa parede de espelho. Ela assobia para disfarçar o medo e atrás dela aparece um outra menina igual a ela. Olhos de pavor e a outra a agarra.

Depois dessa experiência, a menina fica muda e os pais a levam numa especialista que diagnostica síndrome pós traumática.

Passam-se os anos e Adelaide (Lupita Nyong’o), casada, com dois filhos, vai com o marido passar férias de verão numa casa próxima à praia de seu trauma infantil.

Mesmo não gostando da ideia, pela manhã acompanha o marido e os filhos à tal praia. Lá encontram os vizinhos (Elisabeth Moss e Tim Heidicker) com as filhas gêmeas.

E aí vai começar a segunda parte do filme. À noite, os clones vermelhos, “The Tethered”, os Amarrados, atacam.

Lupita Nyong’o está formidável em seu papel duplo. Custamos a acreditar que se trata da mesma atriz. Aliás todos os atores estão muito bem dirigidos por Jordan Peele, que também escreveu o roteiro e produziu o filme.

E mais não digo porque é o tipo do filme que quanto menos você souber, mais vai ser impactante.