Elizabeth : A Era do Ouro

“Elizabeth: A Era do Ouro”- “Elizabeth: The Golden Age”, França, Reino Unido, 2007

Direção: Shekar Kapur

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As mais conhecidas histórias da Inglaterra contadas em filmes devem-se ao rei Henrique VIII (1491-1547), por causa de seus inúmeros casamentos e da briga com a Igreja Católica.

O primeiro com a espanhola Catarina de Aragão, viúva de seu irmão, muito católica, deu-lhe cinco filhos, dos quais sobreviveu apenas Maria, depois Maria I.

Não conseguindo que o Papa anulasse esse casamento que não lhe dera herdeiro homem, o rei decretou uma separação da Igreja Católica, fundando a Igreja Anglicana, baseada na Reforma de Lutero, da qual era o chefe.

E casou-se com a nobre inglesa Ana Bolena, com quem teve uma filha, Elizabeth (1533-1603). Podemos imaginar o sofrimento dessa pobre criança que tem sua mãe decapitada por um não provado crime de traição e incesto. Seus direitos ao trono foram retirados. A corte lhe é hostil.

Esse começo de vida atribulado vai influenciar a personalidade da menina que se retira da corte e passa a infância e a adolescência estudando em Cambridge. Voltou só em 1544 quando seus direitos ao trono foram novamente reconhecidos.

Morto Henrique VIII em 1547, foi sucedido por Eduardo VI, filho do terceiro casamento do rei com Jane Seymour, que morreu jovem e Mary I, filha de Catarina de Aragão, que fez o catolicismo voltar à Inglaterra. Seu reinado foi sangrento.

Foi destronada por Elizabeth I em 1558, que instaura a volta ao anglicanismo e será odiada pelos católicos.

Nas primeiras cenas do filme vemos uma menina vestida de rainha ser apresentada à multidão. É Mary, rainha da Escócia, prima de Elizabeth I, apresentada ao povo por Felipe II, rei do maior império da Europa, a Espanha.

A história de Elizabeth volta a ser contada pelo filme. Ela tem 25 anos e um temperamento de líder. E se sente ameaçada por Mary Stuart, rainha da Escócia e viúva do rei da França, François II, que nunca havia renunciado a seu direito ao trono inglês e que estava voltando para a Inglaterra.

Mary Stuart é filha do falecido rei da Escócia Jaime V e da irmã de Henrique VIII, Marie de Guise. Ela considerava a filha de Ana Bolena como bastarda, já que o casamento de seus pais não fora realizado com a benção da Igreja Católica.

Durou vinte anos o embate entre a bela Mary Stuart e a Rainha Virgem, como era conhecida Elizabeth I. A história das duas primas foi longa e terminou de maneira cruel. Trocaram cartas mas nunca se viram.

Cruel também foi Elizabeth para si mesma ao renunciar à paixão que sentia por Sir Walter Raleigh, optando pela felicidade de sua dama de companhia Bess, sua preferida e confidente.

E Elizabeth obrigou-se a renunciar ao amor de um homem e de um filho porque se sentia insegura e perseguida. Não queria ter dono. Queria ser ela mesma. Dedicou-se a servir seu povo e governar.

Elizabeth I, a rainha que trouxe para a Inglaterra um período de paz, prosperidade e riqueza, foi seu próprio mestre.

Cate Blanchet interpreta com uma sinceridade comovente o papel dessa rainha que tinha o poder e só lá no fundo sabia da dor da solidão que a acompanhava.

Esteticamente bem elaborado tanto nas locações, quanto nas cenas de batalhas em terra e no mar, o filme é suntuoso. E os figurinos são um show à parte. A escolha das cores e dos toques de contemporaneidade dos trajes da corte, tanto masculinos quanto femininos, demonstram competência e criatividade.

Uma história real contada com brilho e beleza.

 

White Lines

“White Lines”- Reino Unido, Espanha, 2020

Direção: Álex Pina, Nick Hamm, Luis Prieto, Ashley Way

“White Lines”, alusão a duas carreiras de cocaína, do criador de “Casa de Papel”, Álex Pina e Andy Harries de “The Crown”, séries de sucesso na Netflix, são os autores dessa nova história que nos envolve com um clima de suspense erótico.

A locação é esplêndida. Ibiza é uma ilha no mar Mediterrâneo que pertence à Espanha, famosa por suas águas turquesa, praias de areia, uma cidade antiga, Eivissa e casas brancas dos novos habitantes que se instalaram na ilha nos últimos anos do século passado.

É Patrimônio Mundial da Unesco por suas ruinas preservadas desde a época dos fenícios, cartagineses e romanos. Tem até arquitetura da Renascença.

Mas a maior fama de Ibiza é a vida noturna, a “vida loca”. Que começa desde que as pessoas acordam. Bem tarde. Foram ver o sol nascer, antes de algumas horas de sono, porque as drogas correm soltas e são todas indicadas para quem não quer dormir e dançar a noite inteira.

Tem festas na praia em torno a fogueiras, nos clubes à beira mar, nas casas particulares e nas discotecas onde o cenário é de carnaval, com homens e mulheres fantasiados com pouca ou nenhuma roupa, muita maquiagem, bronzeados e sedutores.

Os melhores produtores de música e DJs vão todo verão europeu para Ibiza.

Nossa história gira em torno à morte de um jovem DJ inglês, Álex, que chega na ilha com amigos no fim dos anos 90. Ele tem um visual atraente, cabelos louros, muito magro e sempre muito excitado. É um líder perfeito para aqueles que querem deixar-se levar pelo “carpe diem”.

Sua irmã Zoe, que o adorava, não pode segui-lo para Ibiza porque era muito jovem. E entra em profunda depressão. Houve até uma tentativa frustrada de suicídio. A mãe dos dois morrera quando eram muito crianças e o apego entre os irmãos baseou-se na carência afetiva mútua. O pai, apaixonado pela mulher, não tinha espaço em seu luto para os filhos.

Sendo assim, Zoe vai para um internato e Álex para Ibiza. A história do filme vai começar 20 anos depois, quando um esqueleto, identificado como sendo Álex, é encontrado em terras da ilha. A lenda que corria sobre sua estranha desaparição é que teria ido para a Índia e lá ficado.

Quando a bela Zoe (Laura Haddock) fica sabendo que acharam os restos mortais do irmão em Ibiza, corre para lá, com o marido e uma filha de 14 anos. Há sinais evidentes de que a morte de Álex (Tom Rhys) não foi natural. Zoe fica enredada no mistério que ela quer resolver. Quem matou Álex? E por que? Nessa procura ela também vai conhecer melhor quem ela é.

Os 10 capítulos da série vão contar os detalhes e as reviravoltas da história de Álex. Todos os personagens estão envolvidos de alguma maneira nos acontecimentos que levaram à morte do irmão de Zoe. Talvez isso prejudique por vezes a compreensão do que está sendo contado. São muitas pistas, muitas delas acabando em becos sem saída.

Relações afetivas conturbadas, sexo desenfreado, ciúmes, traições, incesto, descontrole dos impulsos mais primitivos e muita droga contribuíram para que essa história fosse trágica. Mas com bela fotografia e trilha sonora bem escolhida.

Num clima de auto destruição, confundido com coragem para enfrentar o perigo, os personagens vivem a “vida loca” intensamente e sem volta. Quando se dão conta talvez seja tarde demais.