Lida Baarova

“Lida Baarová”- Idem, Alemanha, 2016

Direção: Filip Renc

Oferecimento Arezzo

Aquela velha senhora que aceita dar entrevista a uma jornalista, aos 86 anos, ainda guarda gestos de Lida Baarová, que foi uma das mais famosas estrelas de cinema na antiga Tchecoslováquia, onde nasceu em 1914.

Inicia-se assim um longo “flashback” que mostra como comçou sua carreira, aos 17 anos, incentivada por sua mãe. Ela, que já fora atriz sem sucesso, acompanha a filha nas gravações e fica radiante quando as duas vão para Berlim em 1934 a convite dos estúdios UFA, o mais importante da época, bancado pelo governo de Hitler, o Fuhrer nazista, a quem todos deviam obediência.

A mocinha teve que trabalhar seu alemão com sotaque para ser convidada para o papel principal em “Barcarole” onde contracenaria com o galã alemão, seu ídolo, Gustav Frohilich (Gedeon Burkhard).

E claro, os dois vão viver um romance, apesar de Gustav ser casado. Lida muda-se para a casa dele e torna-se vizinha do Ministro da Propaganda Nazista, Joseph Goebbels.

E Lida Baarová vai ser a amante, por dois anos, daquele que mandava no cinema da Alemanha, inclusive.

O narcisismo exaltado parece ser o traço de personalidade que os une, além da atração pelo poder. Não há em nenhum dos dois uma avaliação das consequências de seus atos. Pensam apenas na própria satisfação de seus desejos.

Lida, totalmente alienada do que acontecia na Alemanha, ou talvez não querendo ver nada além de sua imagem no espelho, fechada em sua redoma de egoísmo, se envolve com o homem que a humanidade vai chamar de monstro.

Goebbels, pequeno e manco, era considerado um perigo para as mulheres. Possuia todas que queria. Seu poder era imenso. Era o ideólogo do nazismo.

Será o ponto final nas ambições de Lida, que é barrada em suas intenções envolvendo Goebbels pelo próprio Hitler.

Começa a derrocada de Lida Baarová, proibida de filmar na Alemanha. Ela ainda faz alguns filmes na Itália e Espanha, mas seus sonhos de grandeza não tinham mais a menor chance de acontecer.

O filme é bem cuidado e o elenco funciona bem. Mas seu principal mérito é alertar para o fato de que uma vida é consequência das escolhas que fazemos e da maneira que as vivemos.

Lida Baarová, que tinha sido convidada para trabalhar em Hollywood e recusara por seu amor a Goebbels, diria no fim de sua vida, com sua habitual presunção:

“- Eu poderia ter sido maior que Marlene Dietrich…”

As Boas Maneiras

“As Boas Maneiras”, Brasil, 2017

Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

“Era uma vez uma bela princesa”, está escrito em latim no capacho do apartamento de Ana. Clara, uma moça negra que procura trabalho, não sabe ler latim. Ela sai do elevador de serviço para onde foi mandada pelo porteiro, olha com espanto os dizeres do capacho e toca a campainha.

Ana (Marjore Estiano, esplêndida) está grávida e veio do interior, onde morava na fazenda dos pais, para São Paulo. Clara (Izabel Zuaa, magnífica) não tem referências porque parou de trabalhar para cuidar da avó no fim da vida. Ficou incompleto seu curso de enfermagem. E experiências de vida não constam no currículo. Porém é isto que chama a atenção de Ana, que está à procura de ajuda. Só que nem ela sabe bem do que precisa…

Só com esse detalhe o filme mostra a que veio. Há um entendimento espontâneo, que faz com que o abismo social entre essas duas mulheres não impeça que vivam juntas um drama. Uma história de horror e amor.

Clara, com seu olhar sério e grave, por trás do qual brilha uma alma maternal, parece entender de imediato que vai precisar apoiar aquela menina carente.

E é assim que a história começa. A menina branca expulsa de seu reino e a negra que tem no sangue a senzala dos antepassados, vão se aproximar e as diferenças vão uni-las.

Sinhazinha precisa da mucama e da ama de leite que habitam em Clara. E ela tem muito amor para dar.

Ana esqueceu as “boas maneiras” e foi castigada. Quer esquecer também que o filho dela nunca vai ter um pai, fruto de uma relação fortuita com um desconhecido. Mas como quem canta seus males espanta, ela dança e canta na frente do programa brega da televisão.

Quem pinta de azul o quarto e monta o berço é Clara. E a caixinha de música antiga encanta as duas.

“As Boas Maneiras” tem duas partes. Mas não convém entrar em muitos detalhes e tirar a graça da história. Basta saber que é um filme sobre mulheres, não apenas no tema maternidade biológica ou de coração, mas no jeito de ser e conquistar, na criação de mundos, no instinto que defende a cria, no gosto pelas cantigas e pelas histórias que contam e que ouviram de suas mães e avós.

Se na primeira parte, o mundo de Joel (Miguel Lobo, muito expressivo) e sua origem desapareceram em segredo, na segunda, Clara tenta ensinar “boas maneiras” a um menino aparentemente tranquilo, na esperança de ludibriar sua natureza, que ela conhece tão bem.

Belo, comovente e original, “As Boas Maneiras” compartilha uma tendência de revigoração dos mitos, já que eles ensinam aquilo que a cultura quer expulsar. O mito em questão nesse filme fala da essência do humano e nos relembra que também somos bicho. O que é bom não esquecer porque quando a coisa fica feia, é ele que nos defende do pior. A cena final é antológica e surpreendente.

Elogios para a direção e o roteiro de Juliana Rojas e Marco Dutra, a fotografia de Rui Poças que pinta imagens estonteantes, sem esquecer a produção de arte de Fernando Zuccolotto que encontra o caminho certo entre a fantasia e a realidade nos elementos escolhidos.

“As Boas Maneiras”, merecidamente, ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno.