Maid

“Maid”- Idem, Estados Unidos, 2021

Direção: John Wells e outros

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Alex, muito jovem, realizou cedo demais que ela estava sozinha no mundo. Ela e Maddy, sua filha de 2 anos. E tinha sido bom. Ou pelo menos ela pensara assim, idealizando o sentimento que tinha por Sean, que até então ela vira como sendo o seu amor, o seu marido.

Mas foi só um sonho. Ele não queria responsabilidades, nem filhos. E quando ela disse que ia ter aquele bebê inesperado, tudo começou a desmoronar lentamente até aquela noite que ele chegou bêbado como sempre. E como sempre gritou. E fez barulho. E atirou coisas. Despejando suas frustrações nela.

Impulsivamente, no meio da noite, não fazendo ruído para não acordar o marido, ela pegou a filha no colo e fugiu dele. No carro, ela ainda ouvia os ecos dos gritos e palavrões. Mas vai em frente. Tudo que não queria era voltar para aquele lugar onde não era respeitada. O trailer adaptado como casa não tinha mais nada que ela quisesse em sua vida. Não era um lar.

Alex (Margaret Qualley) vai experimentar o desespero de querer sobreviver com seu bebê no colo e as portas fechando-se para ela. Não tinha dinheiro para nada. Ou quase. O carro perdido num momento de distração, buscando a boneca da filha que chorava porque a perdera pela janela na estrada, era o seu único abrigo. Um desespero mudo é o que sentimos com tudo aquilo que vamos vendo.

Mas era só o começo. E Alex vai lutar e perder, lutar e ganhar para perder tudo novamente, num calvário que ela enfrenta com valentia e força de vontade.

O amor à sua filha a impulsiona no caminho. Ela, que fora desde os 6 anos mãe de sua mãe (Andie MacDowell, mãe na vida real de Margaret Quailley), uma pessoa que oscilava entre a mania, uma agitação confundida com felicidade e logo caia num abismo da bebida, das drogas e amores mal sucedidos.

Ambos, Sean (Nick Robinson) e Alex tinham vivido traumas na infância. E, de certa forma, Alex fugia do marido mas entendia que ele era doente, um alcoólatra, um desesperado como fora seu pai (Billy Burke).

Essa série da Netflix de 10 episódios, criada por Molly Smith Metzler, fala sobre violência doméstica, vícios, doença mental e pobreza. Inspirada pela vida de Stephanie Land, autora do livro “Maid: Hard Work, Low Pay and a Mother’s Will to Survive”, fala também sobre o amor materno e de como ele salva e preserva, pondo fim a um ciclo vicioso onde o abusado torna-se o que praticará o abuso no futuro.

A série comovente e educativa, mostra principalmente como um ser humano frágil pode conseguir romper a barreira de dificuldades e realizar um sonho.

O elenco é excepcional, destacando-se Andie MacDowell, que cria uma personagem desmiolada mas sedutora, uma hippie fora do contexto, que amava a vida mas se atrapalhava facilmente com suas promessas feitas à filha.

E Margaret Qualley (de “Era Uma Vez em Hollywood” 2019) é uma nova estrela que brilha e nos emociona, fazendo cada minuto da série valer a pena e nos chama para acompanhá-la em sua vida dura que ela agarra com todas as forças. Valente e desprovida de futilidades, ela faz uma guerreira que não desanima e nos ensina que a vida nunca é fácil quando não se tem nada além da vontade de sobreviver e amor no coração.

Imperdível.

Mare of Easttown

“Mare of Easttown”, Idem, Estados Unidos, 2021

Direção: Craig Zobel

O que se passa com aquela mulher que deve ter uns quarenta e poucos anos, o rosto bonito, mas sempre sombrio? Qual dor a habita? Ela não sorri.

Marianne Sheeran, apelido Mare, mora nessa cidadezinha da Pensilvânia onde todos se conhecem. Ou assim parece. Porque muita coisa escondida vai surgir no decorrer da história.

Ela (Kate Winslet) é detetive da polícia local, durona, sem vaidades e parece que vive para o seu trabalho. Mora com a mãe (Jean Smart) com quem tem relações impacientes, a filha adolescente Siobhan (Angourice Rice) e um menino pequeno, seu neto.

É somente com essa criança que Mare experimenta sentimentos ternos. Quando chega do trabalho e ele já está dormindo, ela se deita ao lado e relaxa um pouco. Mas como é triste o seu olhar…

Essa série da HBOMAX, tem 7 episódios e, muito bem escrita por Brad Ingelsby, deu o Emmy de melhor atriz para Kate Winslet, que está sensacional. Ela passa uma dúvida para o espectador. Como é Mare na verdade? Competente e inteligente sem dúvida. Mas algo dentro dela a faz distante, fria com quase todos.

É com a amiga Lori (Julianne Nicholson, Emmy de melhor atriz coadjuvante) que ela se abre mais. Com ela há abraços inesperados e simpatia.

Há segredos e silêncios em “Mare of Easttown” entre todos os personagens. E, quando uma garota é assassinada, parece que todos podem ter a ver com isso. ”Lady Hawk”, outro dos apelidos de Mare, mergulha nesse caso e outros desaparecimentos de meninas que parecem estar ligados com aquela morte.

E Mare não aceita respostas fáceis. Ela vai fundo e se envolve profundamente com todos os possíveis detalhes que esclareçam o acontecido. Correndo perigo até. O detetive Colin Zabel (Emmy de melhor ator coadjuvante) na pele de Evan Peters, se esforça para conseguir segui-la, mas é difícil.

E por que ela é assim? Sua vida pessoal é quase nula, divorciada, solitária e quase masculina no seu jeito de beber cerveja e se vestir.

E, quando chega na cidadezinha um novo personagem. Richard Ryan (Guy Pearce), escritor e professor na escola local, uma atração acontece entre os dois. Ela parece pela primeira vez interessada em algo além de seu trabalho.

Mas é com o auxílio de uma terapeuta que Mare começa a lidar com algo que está sendo negado, muito forte e ligado a profundos sentimentos de culpa.

Desvendar mortes e desaparecimentos é o trabalho de Mare. Mas existe algo dentro de si mesma que ela negligencia, põe de lado, como se fosse um obstáculo que a impede de viver plenamente, mas ela não quer ver. O trabalho interno está sendo evitado.

Intrigante, com um excelente roteiro e elenco primoroso, onde brilha o talento de Kate Winslet, “Mare of Easttown” vale a pena ser vista, sabendo-se que é uma série para adultos que também lidam com aspectos conflitantes em seu interior.

Uma série muito acima da média.