Ella & John

“Ella & John”- “The Leisure Seeker”, Itália, França, 2017

Direção: Paolo Virzi

Oferecimento Arezzo

Welesley, Massachusetts, é um lugar de casas graciosas, gramados bem cuidados, bicicletas e pessoas passeando cachorros. Nenhuma agitação.

Mas quando Will (Christian McKey) entra na casa dos pais chamando a mãe e não tem ninguém em casa, ele estranha. Pior, o velho trailer da família não está na garagem. Mau sinal. Ele liga para a irmã Jane (Janel Moloney), alarmado:

“- Jane? Papai e Mamãe sumiram! ”

Na cena seguinte vemos o casal desaparecido, contente da vida, no trailer e na estrada. Ella (Helen Mirren) diz para o marido (Donald Sutherland):

“- Você poderia ter colocado algo mais confortável para viajar! “

John, de terno e gravata azul, combinando com seus olhos, só sorri. Ele está dirigindo o grande trailer e parece encantado. Ella fala o tempo todo relembrando as viagens com os filhos naquele mesmo trailer que tinham apelidado de “Leisure Seeker” (O que procura o prazer).

Na verdade, vemos algo de preocupação em seus olhos. E quando John consegue se safar de um caminhão perigoso, ela olha para ele surpresa.

“- Ainda sei guiar isso aqui! “, exclama John, para logo repetir muitas vezes “Eu quero um burguer…”

Compreendemos então o alarme do filho. Seu pai sofre de uma forma de demência, com graves problemas de memória. E a mãe, que toma pílulas durante o trajeto, está usando peruca. Parece que também está doente.

Quando o celular toca no restaurante onde pararam para o hambúrguer, ela atende e fala baixo e escondido para a filha:

“- Estamos fazendo uma viagenzinha, um presente para seu pai. ” E desliga, sem maiores explicações.

E lá se vão eles, rumo à casa de Hemingway, em Key West. John, que foi professor de literatura, sabe de cor trechos do “Velho e o Mar”, que recita para desconhecidos, sempre que pode.

Todas as noites, nos campings onde param, Ella produz o ritual de ver juntos os slides de toda uma vida. John mal sabe do que se trata, mas às vezes acerta o nome de uma pessoa que aparece na foto. Ella, amorosa mas também cansada, repete mil vezes a mesma história. Ela tinha imaginado o ritual dos slides para mantê-lo ligado à realidade mas não é bem isso que acontece.

Bem, assim será a velhice de alguns de nós. É muito raro chegar numa certa idade sem nenhuma doença. O importante para Ella e John é que estão fazendo a viagem juntos. E com o amor de 48 anos ainda vivo entre os dois.

Ella é bem consciente de tudo que a espera. E vai conduzir a vida deles da melhor maneira possível. John conta com ela.

“Ella & John” é um filme do diretor italiano Paolo Virzi (“A Primeira Coisa Bela” e “Loucas de Alegria”), o primeiro falado em inglês. Ele conduz com delicadeza essa história baseada no best-seller de Michael Zadoorian.

É um filme pequeno, para os atores brilharem e para nós, na plateia, pensarmos um pouco no futuro. Sem tragédia mas também sem negação.

É a vida.

Jogador No 1

“Jogador No 1”- “Ready Player One”, Estados Unidos, 2018

Direção: Steven Spielberg

Estamos no futuro, 2045. A realidade da humanidade, se julgarmos por aquilo que vemos, é pobre e suja. Estruturas metálicas enferrujadas servem para empilhar “trailers” onde as pessoas moram.

“Drones” entregam comida. E, dentro das moradias acanhadas, vemos quase todo mundo usando óculos e mesmo roupas especiais, que criam uma realidade virtual.

Um garoto, Wade Watts (Tye Sheridan) nos conta que nasceu em 2027, época dura, onde todos lutavam pela sobrevivência. Seus pais morreram e ele foi morar com tia Alice. E acrescenta:

“- A realidade que vivemos é deprimente. Por isso todo mundo quer fugir para a realidade virtual. ”

Ele também nos conta que James Halliday (Mark Rylance) inventou um mundo virtual, o Oasis, onde todos podem fazer o que quiser e, melhor, ser quem quiser ou seja, os avatares. Mas tudo tem um preço e as moedas vem dos games, quando se ganha.

“- Ele era como um deus “diz Wade.

Ficamos também sabendo que, antes de morrer, Halliday, dono da Oasis, escondeu um “Eastern Egg – Ovo da Páscoa” em seu mundo virtual. Para chegar a ele será preciso encontrar três chaves, cada uma com um pergaminho que traz indicações enigmáticas. Quem chegar primeiro ao Ovo herdará a enorme fortuna de Halliday e o próprio Oasis.

O mau caráter é Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn) de uma multinacional que quer ficar dono da Oasis e persegue Wade e seus amigos Aech (Lena Waite) e Art3mis (Olivia Cooke), uma garota corajosa que vai mexer com o coração de Wade.

Steven Spielberg, 71 anos, baseou-se no livro de ficção científica de Ernest Cline de 2011 e recriou em imagens fantásticas o mundo virtual onde a humanidade prefere viver. Fogem todos assim de seus problemas reais,  divertindo-se com tudo que o mundo surreal de Oásis fornece. Em especial, muita adrenalina.

A cultura pop dos anos 80 é o material para a criação desse mundo fantástico dos games, que tem alusões ao cinema de Stanley Kubrick (“O Iluminado”1980), Robert Zemeckis (“Volta para o Futuro”, a trilogia de 1985, 1989 e 1990), “Saturday Night Fever- Os Embalos de Sábado à Noite”, personagens como o King Kong, Godzilla, Tiranossauro e Chucky e músicas de Van Hallen, George Michael e Blondie. E muito mais, claro. Não dá para perceber tudo porque o clima do filme é estonteante.

Há também alusões a personagens de antigas lendas e mitos: o nome do avatar de Wade é Parzifal, que com a mudança de uma letra é o nome do Cavaleiro da Távola Redonda que encontrou o Santo Graal e Art3mis, avatar de Samantha, amiga de Wade, soa como Ártemis, outro nome da deusa Diana, a caçadora.

Confesso que nunca joguei um vídeo game. Não sou dessa geração. Nos anos 80 a gente se divertia com a realidade que nós mesmos criávamos ou fugia também, mas através de drogas.

Spielberg, nesse filme barulhento, que deixa a mente zoando de tanta ação e cheio de surpresas, tem o grande mérito de chamar a atenção da moçada ligada em games o tempo todo, que viciam como uma droga, para o fato de que a vida acontece na realidade real, único lugar onde se consegue fazer mudanças consistentes que levam a progressos.

Incrível mesmo é o talento e a imaginação desse grande cineasta que assinou “The Post” no ano passado, um filme histórico importante que entrou na lista dos melhores do ano e agora nos brinda com essa fantasia extraordinária.

Parece normal para quem fez “Tubarão” em 1975 e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” em 1977, “Parque dos Dinossauros” e “Lista de Schindler”, ambos em 1993 e ainda “Resgate do Soldado Ryan” em 1998, “Cavalo de Guerra” em 2011, “Lincoln” em 2012 e “Ponte dos Espiões” em 2015, para só citar alguns da premiada e admirada filmografia dele.

Grande Steven Spielberg.