Coisa Mais Linda

“Coisa Mais Linda”, Brasil, 2019

Direção: Julia Rezende

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Foi no fim dos anos 50 que eu acordei para o mundo das mulheres. Mas antes disso eu já tinha um olho para o feminino. Em conversas com minha avó Baby descobri que Alceu Penna (1915-1980) era primo dela. Vovó e ele eram de Minas. Adorei saber do parentesco porque “As Garotas do Alceu” eram as minhas páginas preferidas da revista ”O Cruzeiro”. Queria ser como elas quando crescesse.

Descoladas, risonhas, vestidas com roupas coloridas e atraentes, um tantinho atrevidas, “As Garotas do Alceu” me encantavam.

E um pouco disso eu reencontrei na série da Netflix, “Coisa Mais Linda”. Boa surpresa.

Com roteiro de Giuliano Cedroni e Heather Roth, a série parecia contar para mim histórias daquelas garotas do Alceu, agora um pouco mais velhas e mais vividas.

Um elenco bem escolhido interpreta quatro mulheres e suas histórias se entrelaçam.

Maria Casadevall é Maria Luiza, paulista que vem para o Rio abrir um restaurante com o marido e descobre que ele a abandonou, levando todo o dinheiro que era dela. Consolada por Adélia (Pathy Dejesus) que trabalhava como doméstica no prédio, ela anima Malu como chamam a paulista no Rio. Negra, mãe solteira e morando na favela, sabe o que é passar por fases duras. E as duas acabam sócias no “Coisa Mais Linda” que é um Clube de música, como diz Malu.

Fernanda Vasconcellos é Lygia, amiga de infância de Malu, casada com Augusto, candidato a prefeito, machista e que não quer que ela siga carreira de cantora, sonho dela.

E Mel Lisboa é Tereza, cunhada de Lygia, a mais livre das amigas, que tem mais talento mas ganha menos que o editor da revista feminina, escrita por homens, onde trabalha.

Os anos 50 foram marcados por um machismo que não era discutido. Homem mandava e pronto. Mas a série mostra o começo da mudança dessa mentalidade. “Coisa Mais Linda” espelha o contraste entre as que temiam seus “senhores” como Lygia e a mãe de Malu e as que mandavam no próprio nariz como Teresa, Malu e Adélia.

Tudo se passa num cenário que não era bar nem restaurante. Com música ao vivo e boa, e uísque barato, “Coisa Mais Linda” era uma novidade no Rio, porque podia ser frequentado por gente não pertencente ao “high society”.

E o clube de Malu vai ser o lugar onde Lygia vira estrela com voz doce que canta tanto samba como a bossa nova que nascia.

No mais a produção de arte encontrou móveis da época, figurinos que não são cópia mas com toques dos anos 50 e as imagens do Rio mostrando Ipanema, Copacabana e o Corcovado são belíssimas.

A série tem 7 capítulos e eu vi tudo de uma vez só, sem ver o tempo passar.

E a segunda temporada ainda não tem data mas vem aí. Não percam.

Freud

“Freud”- Idem, Áustria, Alemanha, 2020

Direção: Marvin Kren

Definitivamente o Freud apresentado na série da NEFLIX não tem nada a ver com Sigmund Freud, famoso médico austríaco, pai da psicanálise, nascido de uma família de judeus, em 6 de maio de 1856, durante a vigência do império austro-húngaro, sob Francisco José.

Já na primeira cena do primeiro capítulo, quem conhece a história do cientista célebre, percebe que não vai assistir a episódios verdadeiros de sua vida, mas pura ficção que usa Freud como pretexto para contar uma história rocambolesca e por vezes ridícula.

Com que propósito o roteiro inaugura a série com o suposto Freud ensaiando com a própria empregada uma cena de falsa hipnose que será apresentada na Universidade de Viena aos professores ilustres? Freud um charlatão?

Vamos esclarecer esse fato. Formado pela Universidade de Viena, Freud estudou também em Paris com o famoso professor Charcot no Hospital La Salpetrière e lá conheceu a hipnose e as famosas histéricas.

Freud não escondia que tinha dificuldades em hipnotizar e foi graças a isso que nasceu a terapia da fala, batizada de “limpeza de chaminé” pela primeira paciente histérica, Anna O. (Berta Pappenheim), que Freud herdara de Breuer.

Portanto, quem vai assistir à série tem o direito de saber que não vai ver a biografia de Freud, mas a uma série de eventos imaginados com a intenção de prender o espectador com golpes de estado, erotismo, espiritismo, magia, bruxaria, assassinatos e sangue muito sangue.

Nada contra a imaginação. Mas Freud não tem nada a ver com isso.

Robert Finster está muito bem no papel do jovem médico, e Ella Rumpf, ótima atriz, faz a paciente chave na série, uma bela húngara, que seria médium, explorada por um casal de húngaros (Georg Friedrich e Anje Kling) mal intencionados.

Outro uso indevido do roteiro é dar o nome de Fleur Salomé a essa paciente que estaria possuída por um demônio ou pela histeria e se envolve com o médico. Claro que a intenção é fazer lembrar de Lou-Andreas Salomé, também psicanalista, que nunca foi amante de Freud mas muito próxima dele, tanto que frequentava o grupo das Quartas feiras que se reunia para discutir os casos clínicos e a teoria psicanalítica, em torno a Freud.

O roteiro de Stefan Brunner e Benjamin Hessler tem algumas passagens interessantes e esteticamente atraentes mas é confuso e por vezes beira o ridículo.

A produção da série é magnífica quando se trata de retratar a Viena Imperial e seus habitantes com locações bem escolhidas e cuidado nos mínimos detalhes de decoração e figurinos.

Portanto, estão avisados. O Freud da série não é  Sigmund Freud, pai da psicanálise, um dos homens mais célebres do século XX.

Vou sugerir para quem quiser se aproximar de algo mais verdadeiro sobre o assunto, o filme de John Huston de 1962, que também é uma biografia romanceada, com roteiro de Jean-Paul Sartre que ganhou o Oscar e um magnífico Freud interpretado pelo saudoso Montgomery Clift.