Sonhos de Trem

“Sonhos de Trem”-“Train Dreams”, Estados Unidos, 2025

Direção: Clint Bentley

Oferecimento Arezzo

Uma natureza bela e intocada espera a chegada de Robert Bentley ao pequeno povoado onde os lenhadores bebem e comem, ao som de cantos e histórias. Descansam do trabalho do dia.

Estamos no início do século XX e aqueles homens vão derrubar árvores imensas para que o caminho da ferrovia se abra. As sequóias vão morrer para depois renascer.

Bentley é órfão, nunca conheceu os pais e vai adotar a vida dos lenhadores. Ele é um homem forte. Mas músculos e barba escondem um olhar doce e melancólico.

Algo incrível vai acontecer quando ele passa pela igrejinha local. Uma mulher jovem e bela vem falar com ele e assim começa o paraíso do lenhador.

Não se largam mais. Deitados na grama alta, eles seguem o por do sol, que deixa tudo dourado.

O amor uniu aqueles dois sem nenhum trabalho. Era para ser assim. E os dois se entregam à materialização, uma casa, ali ao lado do rio, que canta com águas agitadas, aprovando os planos de Robert e Gladys.

Logo serão três. E a cada ida e volta de Robert é uma alegria passear com a bebê no colo, mostrando o mundo que é só deles. Uma fotografia na cidadezinha marca esse momento feliz.

A voz do narrador vai nos contando a história do casal que se amava tanto e das idas e vindas de Robert. O lenhador lembra a lenda de Ulisses e Penelope. O sonho da volta assegura o trabalho do lenhador.

E foi assim até o dia do fogo. Ele não chega a tempo. E começa um luto pesado. Procura as duas. Ninguém as viu. Ele não acredita que sumiram e espera que voltem.

Nem quando aparecem os filhotes de cães existe consolo para aquela dor amarga. Robert abandona as árvores e vaga, procurando até não saber o que procura.

O grito final ”Por que?” ajuda a por para fora o fogo que queima por dentro. E ele pensa: ” será uma punição pela morte das árvores?”

Joel Edgerton nos faz pensar em seu destino. O ator nos chama para viver com ele alegrias e sofrimentos. Aprendemos com ele o que é um luto pesado que continua a nos levar cegamente, guiados por aquele amor que estará sempre vivo no nosso coração. De sonho em sonho, sempre conosco, revivendo na lembrança.

O filme foi indicado à lista dos melhores do Oscar 2026 e o protagonista, Joel Edgerton, ao prêmio de melhor ator.

Viver (Living)

“Viver”- “Living”, Inglaterra, 2022

Direção: Oliver Hermanus

Naquele dia ensolarado, as pessoas se apressam para o trabalho e afazeres. Na estação de trem que os trouxe para a cidade, funcionários da Prefeitura de Londres, vestidos com terno, gravata e chapéu ”coco” informam o novato, Mr Wakeling, que está em seu primeiro dia de trabalho. Surpreso, ele tinha notado que o chefe da repartição, Mr Williams, também estava no mesmo trem mas ia só, em silêncio.

Já sentados na sala de trabalho, o novato repara na altura das pilhas de papéis frente a cada um. A vizinha de mesa, Miss Harris, simpática, avisa que seria adequado não deixar que a sua pilha fosse nem tão alta nem tão baixa, porque senão as pessoas iam pensar que ele não tinha muito o que fazer ou era relapso.

Conta que esperava uma carta de referências porque ia se demitir.

Nesse momento entra um grupo de mulheres que relatam estar tendo dificuldades para encaminhar um projeto. Já  visitaram vários departamentos mas não são atendidas ou porque falta algum documento ou é a repartição errada.

Mr Williams indica o novato para acompanhá-las. Mas ele também percebe que ninguém está muito interessado no projeto, um parquinho para as crianças das redondezas.

E o projeto vai para a pilha.

Aqui, todos esperam. Somos assim. O nosso destino é esperar. Pela morte? E enquanto ela não vem?

A moral da história traz uma lição. O personagem que recebeu a notícia ruim do médico, interpretado pelo excelente Bill Nighy, foi o único que trabalhou em prol do parquinho das crianças. Era uma recordação da sua infância. E foi amado e aplaudido só depois do inevitável fim.

Vamos pensar sobre nosso “parquinho das crianças” e trabalhar para que nossos sonhos não fiquem esquecidos em nossa ”pilha de papéis”?